COISAS DA MEDICINA

Dr. Lauro Barros Fontes
Médico cardiologista

Certo dia, e pelo turno da manhã, eu atendi a um paciente com a idade entre 30 e 35 anos. Foi encaminhado por um colega, pelo fato de que o paciente estava com hipertensão arterial.

Ao exame físico, o que me chamou a atenção foram os batimentos arteriais na fúrcula esternal. Local este que fica um pouco acima do manúbrio, no esterno. O osso esterno é composto por três partes: “manúbrio, corpo e apófise xifoide”.

Ao palpar os pulsos radiais, notei a sua amplitude aumentada e o que estranhei foi a ausência de pulsos dos membros inferiores.

Aferi a pressão arterial no membro superior direito e esquerdo, e ela estava aumentada, em torno de 170/100 mmHg. Ao examinar o tórax, palpei a pulsação arterial nas bordas inferiores dos arcos intercostais.

Ao auscultar o precórdio, eu ouvi um sopro sistólico mais evidente no foco aórtico e hiperfonese da segunda bulha neste foco.

Diante de tantos dados propedêuticos, eu cheguei ao diagnóstico de “coarctação da aorta” no adulto. Solicitei eletrocardiograma, o que revelou sobrecarga do ventrículo esquerdo, e a radiografia do tórax mostrava erosões das bordas inferiores dos arcos intercostais, justificado pelos batimentos das artérias ao longo de anos.

Foi realizado um estudo hemodinâmico com contraste da artéria aorta, aortografia, confirmando o diagnóstico já mencionado.

É recomendável que todo médico, clínico ou cardiologista, ao examinarem os seus pacientes, palpem os pulsos dos quatro membros.

A coarctação da aorta é uma enfermidade congênita, cardiopatia acianótica, caracterizada pelo estreitamento ou obstrução completa do lúmen aórtico, e ocorre quase sempre no seguimento distal do Arco Aórtico.

Ocasionalmente, na aorta torácica, descendente ou abdominal.

A coarctação da aorta apresenta uma incidência de 0.2 a 0.6 por cada 1000 crianças nascidas vivas, representando assim 5% a 8% de todas as cardiopatias congênitas e é mais frequente no sexo masculino na proporção de 2:1.

É uma das causas raras de hipertensão arterial.

Nos recém-nascidos com coarctação severa, se faz necessário o procedimento cirúrgico para evitar que a criança venha a óbito por falência do músculo cardíaco.

Em 1944, foi realizada a primeira cirurgia bem-sucedida de coarctação da aorta, pelo Dr. Clarence Crafoord, na Suécia.

Esse paciente que eu relato foi operado aqui, em Aracaju, pelo exímio cirurgião cardiovascular Dr. José Teles e a cirurgia foi bem-sucedida.

No pós-operatório imediato, já palpávamos muito bem os pulsos dos membros inferiores.

Acompanhei por muitos anos o paciente em uso de IECA, Inibidor da Enzima de Conversão da Angiotensina, e diurético, Hidroclorotiazida.

O paciente teve uma excelente evolução e eu perdi o contato após ter deixado o serviço público.

Em um determinado dia da semana, no período da tarde, eu atendi uma adulta jovem do sexo feminino. Ela tinha 30 anos e estava grávida no primeiro trimestre.

Relatou ser portadora de cardiopatia complexa e o seu médico teria alertado para ela não engravidar, visto que o risco seria muito alto para ela e a criança.

Na anamnese, ela referiu desconforto respiratório aos médios e grandes esforços.

Ao exame físico, a paciente estava aparentemente bem. Eupneica, com boa perfusão periférica, pressão arterial dentro das metas, pequeno edema dos membros inferiores.

Ficou evidente a presença de uma cianose, baqueteamento digital e, ao auscultar o precórdio, ouvi o timbre bem aumentado da segunda bulha no foco pulmonar.

Estes dados me fizeram pensar em uma cardiopatia com hiperfluxo pulmonar levando a hipertensão arterial pulmonar importante.

Solicitei eletrocardiograma que mostrou sobrecarga das câmaras direitas.

Na radiografia do tórax, evidenciamos dilatação da artéria pulmonar e das câmaras direitas do coração.

O ecocardiograma revelou: dilatação do ventrículo e do átrio direito, pressão na pulmonar aumentada e defeito no septo interatrial.

No cateterismo cardíaco, foi confirmada a comunicação interatrial e pressão na artéria pulmonar aumentada.

Diante de tantos dados propedêuticos, chegamos ao diagnóstico de “Síndrome de Eisenmenger”.

Em decisão compartilhada, entre o cardiologista, o obstetra e a família da paciente, foi recomendado interromper a gravidez e todo um trabalho de conscientização no sentido de evitar outra gravidez.

Um ano depois, a paciente retorna ao meu consultório com a seguinte história:

“Doutor, estou grávida.”

Eu indaguei: quanto tempo tem?

Pela resposta, ela estava iniciando o segundo trimestre da gestação.

Eu baixei a cabeça, pensei um pouco e disse: não é possível, como foi isso? Tanto que eu te alertei para você ter cuidado!

Ela respondeu: pois é, doutor. E desta vez eu não quero interromper. Eu fiz uma ultrassonografia e são duas crianças, prenhes gemelar, disse ela.

O meu pai está bem doente fazendo hemodiálise, por conta de uma insuficiência renal crônica e chegou para mim e disse: “minha filha, vou lhe fazer um pedido, não interrompa a gravidez, eu quero ver os meus netos vivos”.

Mesmo sabendo da gravidade, eu respeitei a decisão dela.

No final do segundo trimestre, ela teve uma piora considerável do seu quadro clínico.

Passou a ter dispneia aos mínimos esforços e surgiu edema importante em membros inferiores.

Em pouco tempo, em uma madrugada, ela foi internada na maternidade em estado grave.

Apresentava hipoxia, insuficiência respiratória e estava em choque.

A minha presença foi solicitada pelo anestesista e, também, pelo obstetra. Ao chegar lá, já a encontrei agonizando.

O obstetra ainda fez a cesariana, mas as duas crianças estavam sem vida.

Para a minha tristeza, a mãe faleceu junto com as duas crianças.

A CIA, comunicação interatrial, é uma cardiopatia congênita acianótica com hiperfluxo pulmonar.

O defeito no septo atrial permite um fluxo de sangue direcionado do átrio esquerdo para o direito, isto porque a pressão na câmara esquerda é maior que a da direita.

Com isso, o volume de sangue que o átrio direito recebe está aumentado, visto que este também recebe sangue das veias cavas superior e inferior.

Recebendo um maior volume de sangue, mais sangue irá para o ventrículo direto através da válvula tricúspide e um maior fluxo de sangue irá para os pulmões através da artéria pulmonar.

Com o maior volume de sangue circulando nos pulmões, irá desenvolver resistência na vasculatura pulmonar, o que acarretará, no futuro, em aumento da pressão da circulação pulmonar.

Dependendo do tamanho do defeito no septo atrial, as repercussões hemodinâmicas serão mais críticas e mais precoces.

Quando a pressão nas câmaras direitas estiver maior que a da esquerda, o fluxo de sangue será invertido no sentido átrio direito para o átrio esquerdo.

Deste modo, a circulação sistêmica receberá sangue venoso pobre em oxigênio e com o tempo o paciente ficará cianótico.

Essa síndrome é conhecida pelo nome de Eisenmenger.

Foi em 1897 que o médico austríaco Viktor Eisenmenger publicou o primeiro caso que ficou conhecido como Síndrome de Eisenmenger.

Dr. Lauro Barros Fontes – é médico e membro da Sobrames Sergipe.

MEDICINA E ARTE

COISAS DA MEDICINA

Dr. Lauro Barros Fontes
Médico cardiologista

Certo dia, e pelo turno da manhã, eu atendi a um paciente com a idade entre 30 e 35 anos. Foi encaminhado por um colega, pelo fato de que o paciente estava com hipertensão arterial.

Ao exame físico, o que me chamou a atenção foram os batimentos arteriais na fúrcula esternal. Local este que fica um pouco acima do manúbrio, no esterno. O osso esterno é composto por três partes: “manúbrio, corpo e apófise xifoide”.

Ao palpar os pulsos radiais, notei a sua amplitude aumentada e o que estranhei foi a ausência de pulsos dos membros inferiores.

Aferi a pressão arterial no membro superior direito e esquerdo, e ela estava aumentada, em torno de 170/100 mmHg. Ao examinar o tórax, palpei a pulsação arterial nas bordas inferiores dos arcos intercostais.

Ao auscultar o precórdio, eu ouvi um sopro sistólico mais evidente no foco aórtico e hiperfonese da segunda bulha neste foco.

Diante de tantos dados propedêuticos, eu cheguei ao diagnóstico de “coarctação da aorta” no adulto. Solicitei eletrocardiograma, o que revelou sobrecarga do ventrículo esquerdo, e a radiografia do tórax mostrava erosões das bordas inferiores dos arcos intercostais, justificado pelos batimentos das artérias ao longo de anos.

Foi realizado um estudo hemodinâmico com contraste da artéria aorta, aortografia, confirmando o diagnóstico já mencionado.

É recomendável que todo médico, clínico ou cardiologista, ao examinarem os seus pacientes, palpem os pulsos dos quatro membros.

A coarctação da aorta é uma enfermidade congênita, cardiopatia acianótica, caracterizada pelo estreitamento ou obstrução completa do lúmen aórtico, e ocorre quase sempre no seguimento distal do Arco Aórtico.

Ocasionalmente, na aorta torácica, descendente ou abdominal.

A coarctação da aorta apresenta uma incidência de 0.2 a 0.6 por cada 1000 crianças nascidas vivas, representando assim 5% a 8% de todas as cardiopatias congênitas e é mais frequente no sexo masculino na proporção de 2:1.

É uma das causas raras de hipertensão arterial.

Nos recém-nascidos com coarctação severa, se faz necessário o procedimento cirúrgico para evitar que a criança venha a óbito por falência do músculo cardíaco.

Em 1944, foi realizada a primeira cirurgia bem-sucedida de coarctação da aorta, pelo Dr. Clarence Crafoord, na Suécia.

Esse paciente que eu relato foi operado aqui, em Aracaju, pelo exímio cirurgião cardiovascular Dr. José Teles e a cirurgia foi bem-sucedida.

No pós-operatório imediato, já palpávamos muito bem os pulsos dos membros inferiores.

Acompanhei por muitos anos o paciente em uso de IECA, Inibidor da Enzima de Conversão da Angiotensina, e diurético, Hidroclorotiazida.

O paciente teve uma excelente evolução e eu perdi o contato após ter deixado o serviço público.

Em um determinado dia da semana, no período da tarde, eu atendi uma adulta jovem do sexo feminino. Ela tinha 30 anos e estava grávida no primeiro trimestre.

Relatou ser portadora de cardiopatia complexa e o seu médico teria alertado para ela não engravidar, visto que o risco seria muito alto para ela e a criança.

Na anamnese, ela referiu desconforto respiratório aos médios e grandes esforços.

Ao exame físico, a paciente estava aparentemente bem. Eupneica, com boa perfusão periférica, pressão arterial dentro das metas, pequeno edema dos membros inferiores.

Ficou evidente a presença de uma cianose, baqueteamento digital e, ao auscultar o precórdio, ouvi o timbre bem aumentado da segunda bulha no foco pulmonar.

Estes dados me fizeram pensar em uma cardiopatia com hiperfluxo pulmonar levando a hipertensão arterial pulmonar importante.

Solicitei eletrocardiograma que mostrou sobrecarga das câmaras direitas.

Na radiografia do tórax, evidenciamos dilatação da artéria pulmonar e das câmaras direitas do coração.

O ecocardiograma revelou: dilatação do ventrículo e do átrio direito, pressão na pulmonar aumentada e defeito no septo interatrial.

No cateterismo cardíaco, foi confirmada a comunicação interatrial e pressão na artéria pulmonar aumentada.

Diante de tantos dados propedêuticos, chegamos ao diagnóstico de “Síndrome de Eisenmenger”.

Em decisão compartilhada, entre o cardiologista, o obstetra e a família da paciente, foi recomendado interromper a gravidez e todo um trabalho de conscientização no sentido de evitar outra gravidez.

Um ano depois, a paciente retorna ao meu consultório com a seguinte história:

“Doutor, estou grávida.”

Eu indaguei: quanto tempo tem?

Pela resposta, ela estava iniciando o segundo trimestre da gestação.

Eu baixei a cabeça, pensei um pouco e disse: não é possível, como foi isso? Tanto que eu te alertei para você ter cuidado!

Ela respondeu: pois é, doutor. E desta vez eu não quero interromper. Eu fiz uma ultrassonografia e são duas crianças, prenhes gemelar, disse ela.

O meu pai está bem doente fazendo hemodiálise, por conta de uma insuficiência renal crônica e chegou para mim e disse: “minha filha, vou lhe fazer um pedido, não interrompa a gravidez, eu quero ver os meus netos vivos”.

Mesmo sabendo da gravidade, eu respeitei a decisão dela.

No final do segundo trimestre, ela teve uma piora considerável do seu quadro clínico.

Passou a ter dispneia aos mínimos esforços e surgiu edema importante em membros inferiores.

Em pouco tempo, em uma madrugada, ela foi internada na maternidade em estado grave.

Apresentava hipoxia, insuficiência respiratória e estava em choque.

A minha presença foi solicitada pelo anestesista e, também, pelo obstetra. Ao chegar lá, já a encontrei agonizando.

O obstetra ainda fez a cesariana, mas as duas crianças estavam sem vida.

Para a minha tristeza, a mãe faleceu junto com as duas crianças.

A CIA, comunicação interatrial, é uma cardiopatia congênita acianótica com hiperfluxo pulmonar.

O defeito no septo atrial permite um fluxo de sangue direcionado do átrio esquerdo para o direito, isto porque a pressão na câmara esquerda é maior que a da direita.

Com isso, o volume de sangue que o átrio direito recebe está aumentado, visto que este também recebe sangue das veias cavas superior e inferior.

Recebendo um maior volume de sangue, mais sangue irá para o ventrículo direto através da válvula tricúspide e um maior fluxo de sangue irá para os pulmões através da artéria pulmonar.

Com o maior volume de sangue circulando nos pulmões, irá desenvolver resistência na vasculatura pulmonar, o que acarretará, no futuro, em aumento da pressão da circulação pulmonar.

Dependendo do tamanho do defeito no septo atrial, as repercussões hemodinâmicas serão mais críticas e mais precoces.

Quando a pressão nas câmaras direitas estiver maior que a da esquerda, o fluxo de sangue será invertido no sentido átrio direito para o átrio esquerdo.

Deste modo, a circulação sistêmica receberá sangue venoso pobre em oxigênio e com o tempo o paciente ficará cianótico.

Essa síndrome é conhecida pelo nome de Eisenmenger.

Foi em 1897 que o médico austríaco Viktor Eisenmenger publicou o primeiro caso que ficou conhecido como Síndrome de Eisenmenger.

Dr. Lauro Barros Fontes – é médico e membro da Sobrames Sergipe.

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