O INFARTO NÃO ESPERA A IDADE

Prof. Dr. Sousa
Médico cardiologista

Há uma ideia persistente que insiste em morar no imaginário coletivo: o infarto como um evento que chega com a idade, quase como um parente distante que só aparece depois dos sessenta.

Ele veste cabelos brancos, carrega um histórico de exageros à mesa e, de alguma forma, parece obedecer a uma lógica previsível do tempo.

Mas, como tantas certezas confortáveis, essa também tem falhado — e falhado cedo.

Nos últimos anos, o susto tem mudado de endereço.

Não é raro que ele bata à porta de quem ainda está organizando a própria vida, pagando o primeiro financiamento, criando filhos pequenos ou sequer imaginando que o coração, esse símbolo de vigor e resistência, possa falhar.

Jovens também infartam.

E quando isso acontece, o choque não é apenas clínico — é cultural.

A história quase sempre começa de maneira banal.

Um desconforto no peito depois de um dia corrido.

Uma dor que irradia, mas que se confunde com ansiedade, com cansaço, com a má postura de quem vive curvado sobre telas.

Às vezes vem acompanhada de suor frio, de uma falta de ar que parece desproporcional ao esforço, ou de um enjoo sem explicação.

Mas quem, aos trinta e poucos anos, pensa em infarto?

Quase ninguém.

E é justamente aí que mora o perigo.

A subestimação é silenciosa e perigosa.

O jovem tende a negociar com os próprios sintomas: “deve ser estresse”, “foi algo que comi”, “é só uma crise de ansiedade”.

Enquanto isso, o relógio biológico segue seu curso implacável.

No infarto, tempo é músculo — cada minuto de demora representa uma parte do coração que deixa de receber sangue, oxigênio, vida.

É verdade que os fatores clássicos continuam sendo protagonistas.

O cigarro, por exemplo, ainda reina como um dos maiores vilões entre os mais jovens.

E, em um movimento preocupante, os cigarros eletrônicos — tão nocivos quanto os convencionais — vêm conquistando, de forma acelerada, uma nova geração de usuários.

Soma-se a isso o colesterol elevado, muitas vezes ignorado por anos, a pressão arterial que sobe sem aviso e o sedentarismo que se instala como rotina.

Não é preciso envelhecer para acumular riscos — basta acumulá-los cedo.

Mas a história não se resume ao velho roteiro.

Nos jovens, o infarto também pode surgir de caminhos menos óbvios.

Há casos em que não existe uma placa significativa entupindo a artéria, mas sim um coágulo que se forma de repente, interrompendo o fluxo sanguíneo.

Em outros, um espasmo coronariano — uma contração abrupta da artéria — pode ser desencadeado por substâncias como a cocaína.

Há ainda situações mais raras e surpreendentes, como a dissecção espontânea da coronária, em que a parede da artéria se rompe internamente, criando um bloqueio inesperado.

E não se pode ignorar o peso da genética.

Algumas pessoas carregam, desde o nascimento, alterações que elevam drasticamente o colesterol, mesmo com hábitos aparentemente saudáveis.

São bombas-relógio invisíveis, que exigem atenção precoce, diagnóstico e acompanhamento.

No entanto, talvez o elemento mais característico desta geração seja aquilo que os especialistas chamam de “exposoma” — o conjunto de exposições ambientais e comportamentais ao longo da vida.

É um conceito moderno para um problema muito atual.

Dorme-se pouco, come-se mal, vive-se muito e, paradoxalmente, vive-se mal.

O estresse crônico deixou de ser exceção e virou regra.

Ele não chega em picos dramáticos, mas em doses diárias, constantes, quase imperceptíveis.

Está no trânsito, nas cobranças profissionais, na instabilidade financeira, nas notificações incessantes que não permitem pausa.

O corpo, submetido a esse estado contínuo de alerta, responde — e o coração sente.

A alimentação também mudou.

O tempo encurtou, e com ele, as escolhas.

Alimentos ultraprocessados, ricos em gorduras, açúcares e aditivos, tornaram-se parte da rotina.

Não por ignorância, mas por conveniência.

É o preço da pressa.

E há ainda o sono — ou a falta dele.

Dormir mal deixou de ser um problema pontual e passou a ser quase um estilo de vida.

Madrugadas encurtadas, telas acesas até tarde, descanso fragmentado.

O organismo, privado de recuperação adequada, acumula desgaste.

E, mais uma vez, o coração paga a conta.

Diante desse cenário, o infarto no jovem não é apenas uma exceção estatística.

Ele é um reflexo do tempo em que vivemos.

Um tempo acelerado, exigente, muitas vezes negligente com o próprio corpo.

O que torna tudo ainda mais delicado é o diagnóstico tardio.

Profissionais de saúde, familiares e os próprios pacientes nem sempre consideram a possibilidade de um evento cardíaco em alguém jovem.

Isso atrasa o atendimento, aumenta as complicações e, em alguns casos, custa vidas que poderiam ser salvas com intervenção precoce.

Talvez seja preciso, então, revisitar nossas certezas.

O coração não segue calendários rígidos.

Ele responde a estímulos, a escolhas, a contextos.

Ele carrega, dia após dia, as marcas do que fazemos — e do que deixamos de fazer.

Falar sobre infarto em jovens não é alarmismo.

É responsabilidade.

É reconhecer que a prevenção não deve começar aos cinquenta, mas muito antes.

É entender que saúde não é ausência de doença, mas construção diária.

No fim das contas, a mensagem é simples, embora incômoda: ninguém está automaticamente protegido pela idade.

A juventude pode até oferecer uma sensação de invulnerabilidade, mas o corpo não assina esse contrato.

Cuidar do coração, hoje, talvez seja um dos atos mais urgentes — e mais negligenciados — da vida moderna.

Porque, diferente do que muitos ainda acreditam, o tempo não é o único fator em jogo.

E, às vezes, ele não concede aviso prévio.

Segundo Hipócrates de Cos:

“Antes de curar alguém, pergunte-lhe se está disposto a desistir das coisas que o fizeram adoecer.”

Prof. Dr. Antônio Sobral Sousa – professor Titular da UFS, Membro das Academias Sergipanas de Medicina, de Letras e de Educação.

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