A CAPELA E O TEMPO

Prof. Dr. Sousa

Médico cardiologista

Há construções que atravessam os séculos não apenas pela resistência das pedras, da cal e da madeira, mas porque conseguem permanecer vivas na memória afetiva de um povo.

A Capela de Nossa Senhora da Boa Viagem, erguida na paradisíaca Praia do Saco, em Estância, pertence a essa rara categoria de patrimônios que ultrapassam o valor arquitetônico e se transformam em símbolos permanentes da identidade cultural e espiritual de uma comunidade.

Ao longo do tempo, ela assistiu silenciosamente às mudanças das marés, às transformações da paisagem e às inquietações humanas.

Viu pescadores saindo ao amanhecer, ouviu promessas feitas em momentos de aflição, acolheu orações de mães aflitas, testemunhou casamentos, batizados e despedidas.

Mais do que um templo religioso, tornou-se um lugar de pertencimento emocional.

Recentemente, o Conselho Estadual de Cultura de Sergipe manifestou-se favoravelmente ao tombamento da Capela de Nossa Senhora da Boa Viagem, atendendo a uma provocação da Academia Sergipana de Letras, por intermédio de seu presidente, Dr. Anderson Nascimento.

A iniciativa transcende a burocracia administrativa. Representa, na verdade, um gesto de reconhecimento histórico e de responsabilidade coletiva diante de um patrimônio secular ameaçado não apenas pelo desgaste natural do tempo, mas também pelos avanços ambientais que atingem a faixa litorânea.

O parecer técnico do Conselho Estadual de Cultura foi particularmente feliz ao reconhecer que a capela possui valor histórico, religioso, paisagístico e cultural, constituindo referência da memória coletiva local.

O documento ressalta, ainda, que o monumento funciona como suporte material de experiências, práticas e significados compartilhados pela comunidade ao longo de gerações.

Uma definição que, embora técnica, carrega profunda dimensão poética.

Em tempos de velocidade excessiva e memórias descartáveis, preservar um monumento histórico é também preservar narrativas humanas.

Cada igreja antiga guarda mais do que imagens sacras e paredes envelhecidas; ela abriga silêncios, emoções e fragmentos da alma coletiva de um povo.

A Capela de Nossa Senhora da Boa Viagem possui, ainda, um valor simbólico singular. Situada em uma das praias mais belas do Brasil, ela se tornou indissociável da paisagem sergipana.

Sua presença discreta e elegante parece dialogar com o mar, como se ambos compartilhassem uma antiga cumplicidade.

Não há fotografia clássica da Praia do Saco que não encontre nela um ponto de equilíbrio visual e emocional.

Segundo o pedido formal encaminhado pela Academia Sergipana de Letras, a origem da capela remonta ao século XVI, vinculada à colonização jesuíta e à formação histórica da região.

Mesmo para aqueles que não professam fé religiosa, é impossível ignorar a força cultural e identitária daquele espaço.

A memória coletiva também se constrói através dos lugares que resistem.

O tombamento, muitas vezes mal compreendido, não significa aprisionar o passado em uma redoma imóvel. Ao contrário: significa garantir que o futuro não destrua aquilo que dá sentido à própria história.

Povos sem memória tornam-se frágeis diante do tempo. Civilizações que abandonam seus símbolos acabam perdendo, gradualmente, sua identidade.

Talvez por isso a decisão do Conselho Estadual de Cultura tenha despertado tanto entusiasmo entre historiadores, escritores, religiosos, intelectuais e cidadãos comuns.

Em uma época marcada por divisões e efemeridades, a preservação de um patrimônio histórico consegue unir diferentes sensibilidades em torno de um bem comum.

É reconfortante perceber que instituições como a Academia Sergipana de Letras continuam exercendo um papel que vai além da literatura.

Defender a cultura é também proteger igrejas, arquivos, tradições, paisagens e memórias.

O gesto do presidente Anderson Nascimento revela sensibilidade histórica e compromisso com as futuras gerações.

No fundo, preservar a Capela da Boa Viagem é preservar um pedaço da alma sergipana.

É afirmar que existem valores que não podem ser substituídos pela lógica da pressa, do lucro imediato ou do esquecimento.

Porque algumas construções não pertencem apenas ao presente. Pertencem ao tempo.

E, talvez, pertençam também à eternidade.

Como escreveu o filósofo espanhol George Santayana:

“Quem não consegue lembrar o passado está condenado a repeti-lo.”

Prof. Dr. Antônio Sobral Sousa – professor Titular da UFS, Membro das Academias Sergipanas de Medicina, de Letras e de Educação.

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