O CORAÇÃO TAMBÉM ENTRA EM CAMPO

Prof. Dr. Sousa
Médico cardiologista

A cada quatro anos, o mundo parece girar em torno de uma bola. Ruas vestem novas cores, bandeiras brotam nas janelas, famílias se reúnem diante da televisão e milhões de pessoas compartilham a mesma esperança.

Durante a Copa do Mundo, o futebol deixa de ser apenas esporte para se transformar em linguagem universal, capaz de unir povos, interromper rotinas e despertar emoções que transitam da euforia à angústia em questão de segundos.

Mas há um personagem silencioso que também entra em campo: o coração.

À primeira vista, pode parecer exagero imaginar que um jogo de futebol seja capaz de provocar um infarto ou desencadear uma arritmia grave. Afinal, os jogadores são eles; os torcedores permanecem confortavelmente acomodados em sofás, bares ou arquibancadas.

Contudo, a fisiologia humana conta uma história diferente. Para o organismo, uma disputa de pênaltis, um gol sofrido nos acréscimos ou uma eliminação dramática podem representar momentos de intenso estresse emocional.

O coração, afinal, não distingue perfeitamente uma ameaça física de uma ameaça emocional. Em ambas as situações, reage mobilizando mecanismos ancestrais de defesa. A adrenalina é liberada, a pressão arterial se eleva, os batimentos cardíacos aceleram e aumenta a demanda de oxigênio pelo músculo cardíaco.

Em indivíduos predispostos, essa resposta pode ser suficiente para desencadear um evento cardiovascular agudo.

A ciência tem demonstrado isso de forma consistente. Um estudo clássico publicado no New England Journal of Medicine analisou os atendimentos cardiovasculares ocorridos durante a Copa do Mundo de 2006, na Alemanha.

Os pesquisadores observaram que, nos dias em que a seleção alemã entrava em campo, a incidência de emergências cardiovasculares aumentava mais de duas vezes em relação aos períodos de controle. O fenômeno foi particularmente expressivo entre homens e em pessoas com doença coronariana previamente conhecida. Infartos, angina instável e arritmias foram os eventos mais frequentemente observados.

Talvez o dado mais impressionante tenha sido a relação temporal. O maior número de ocorrências concentrou-se nas primeiras horas após o início das partidas, exatamente quando a tensão emocional atingia seu ápice. Era como se o coração reagisse em tempo real às emoções vividas pelos torcedores.

No Brasil, país onde o futebol ocupa lugar privilegiado no imaginário coletivo, observações semelhantes também foram registradas.

Durante a Copa do Mundo de 2014, realizamos, no Hospital São Lucas, em Aracaju, um estudo que integrou o Trabalho de Conclusão de Curso de um estudante da graduação em Medicina da Universidade Federal de Sergipe, sob minha orientação.

A pesquisa identificou aumento nos atendimentos por angina instável e elevação dos níveis pressóricos durante o período do torneio, especialmente entre homens, sugerindo que a intensa carga emocional associada aos jogos da Seleção Brasileira poderia atuar como gatilho para descompensações cardiovasculares.

É interessante perceber que o futebol reproduz, em escala coletiva, aquilo que experimentamos na vida cotidiana. Vitórias inesperadas, derrotas dolorosas, momentos de suspense e reviravoltas acompanham não apenas as partidas, mas também a própria existência humana. Talvez seja por isso que nos identificamos tanto com o esporte: ele funciona como uma metáfora da vida.

Naturalmente, isso não significa que devamos assistir aos jogos com receio ou abrir mão da paixão pelo futebol. Torcer faz parte da experiência humana. Compartilhar emoções, celebrar conquistas e até lamentar fracassos são elementos que fortalecem vínculos sociais e enriquecem nossa convivência.

O problema não reside na emoção em si, mas nos excessos que frequentemente a acompanham. Durante grandes eventos esportivos, não são raros o consumo exagerado de bebidas alcoólicas, as refeições copiosas, a privação de sono, o abandono temporário das medicações habituais e o aumento do tabagismo. Muitas vezes, esses fatores atuam em conjunto, ampliando os riscos para indivíduos mais vulneráveis.

Por isso, a principal recomendação para pessoas com hipertensão arterial, diabetes, doença coronariana, insuficiência cardíaca ou arritmias é simples: torcer, sim; descuidar-se, não. O dia do jogo não deve representar uma pausa nos cuidados com a saúde.

Ao nos aproximarmos de mais uma Copa do Mundo, vale recordar que a emoção é uma das mais belas expressões da condição humana. Ela colore a vida, fortalece memórias e cria laços afetivos que atravessam gerações. Entretanto, como toda paixão, deve ser vivida com equilíbrio.

Afinal, não existe vitória mais importante do que preservar a própria saúde para continuar celebrando os gols que ainda virão.

Como escreveu Blaise Pascal: “O coração tem razões que a própria razão desconhece.” Durante uma Copa do Mundo, talvez nunca essa frase faça tanto sentido. O verdadeiro desafio consiste em permitir que a emoção aqueça o coração, sem jamais colocá-lo em risco.

Prof. Dr. Antônio Sobral Sousa – professor Titular da UFS, Membro das Academias Sergipanas de Medicina, de Letras e de Educação.

Foto: magnific

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