DRA. MARIELA COMETKI ASSIS MÉDICA INFECTOLOGISTA
O Brasil voltou a acender um sinal de alerta para o sarampo. Após anos de redução expressiva dos casos e da recertificação da eliminação da circulação endêmica da doença pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), o estado de São Paulo registra um surto ativo, levando o Ministério da Saúde a ampliar temporariamente as recomendações de vacinação em municípios estratégicos da região metropolitana.
Embora o cenário ainda esteja concentrado principalmente na capital paulista, Guarulhos e São Bernardo do Campo, o momento exige vigilância. São Paulo é a principal porta de entrada internacional do país, com intenso fluxo diário de viajantes nacionais e estrangeiros. Em doenças altamente contagiosas, isso significa que a circulação viral pode ultrapassar rapidamente os limites geográficos caso existam pessoas suscetíveis.
É importante destacar que não há motivo para pânico, mas há, sim, motivos para ação.
Por que o sarampo preocupa tanto?
Poucas doenças são tão contagiosas quanto o sarampo.
O vírus é transmitido pelo ar através da tosse, espirros, fala ou até mesmo pela respiração. Estima-se que uma única pessoa infectada possa transmitir o vírus para cerca de 90% das pessoas suscetíveis que compartilham o mesmo ambiente. Além disso, o vírus pode permanecer viável no ambiente por até duas horas após a saída do paciente infectado.
Outro fator importante é que a transmissão ocorre antes mesmo do aparecimento das manchas vermelhas características da doença, permitindo que pessoas aparentemente saudáveis disseminem o vírus sem saber.
Estamos diante de uma epidemia?
Neste momento, não.
O Brasil continua considerado um país livre da circulação endêmica do sarampo. O que ocorre atualmente é um surto localizado, relacionado à introdução do vírus em uma área de grande circulação internacional. Isso é diferente de uma transmissão sustentada em todo o território nacional.
Entretanto, surtos podem crescer rapidamente quando encontram bolsões de pessoas não vacinadas ou com esquemas incompletos.
Quem deve se preocupar mais?
Os grupos mais vulneráveis continuam sendo:
*
Crianças
menores de cinco anos, principalmente menores de um ano; * Gestantes; * Pessoas imunossuprimidas; *
Adultos
não vacinados; * Pessoas com esquema vacinal incompleto. As complicações do sarampo vão muito além da febre e das manchas na pele. A doença pode provocar pneumonia, encefalite, cegueira, hospitalizações e, em alguns casos, levar ao óbito.
Quem precisa conferir a carteira de vacinação?
Esta talvez seja a principal mensagem deste momento.
Muitas pessoas acreditam que “já tomaram vacina na infância” e nunca mais precisam se preocupar. Em boa parte dos casos isso é verdade, mas nem sempre.
Crianças
O calendário rotineiro do SUS prevê:
- 1ª dose da tríplice viral aos 12 meses; * 2ª dose (tetraviral ou tríplice viral, conforme calendário vigente) aos 15 meses.
Em áreas onde há circulação do vírus, pode ser indicada a chamada dose zero entre 6 e 11 meses. Essa dose oferece proteção temporária, mas não substitui as duas doses do calendário infantil.
Adultos
De forma geral:
- Pessoas de 12 meses até 29 anos devem possuir duas doses documentadas da vacina contendo componente contra sarampo. * Pessoas de 30 a 59 anos devem possuir pelo menos uma dose, conforme o Programa Nacional de Imunizações, salvo recomendações específicas em situações epidemiológicas especiais.
Quem não sabe se foi vacinado deve procurar uma Unidade Básica de Saúde para avaliação da carteira vacinal. Na ausência de comprovação, frequentemente recomenda-se atualizar o esquema, já que não há problema em receber doses adicionais quando indicadas.
Quem vai viajar para São Paulo precisa tomar vacina?
Depende.
A recomendação é verificar se o esquema vacinal está completo antes da viagem.
No atual cenário epidemiológico, o Ministério da Saúde ampliou temporariamente a vacinação para pessoas de 6 meses a 59 anos nos municípios de São Paulo, Guarulhos e São Bernardo do Campo como estratégia para interromper a transmissão local.
Para viajantes, especialmente aqueles que irão permanecer em ambientes com grande circulação de pessoas — aeroportos, eventos, centros urbanos ou hospitais — vale a pena revisar a carteira vacinal com antecedência.
Quem já tomou duas doses precisa de reforço?
Para a população em geral, não existe recomendação rotineira de reforço adicional para quem possui esquema vacinal completo.
A necessidade de doses extras ocorre apenas em circunstâncias epidemiológicas específicas definidas pelas autoridades sanitárias, como bloqueios vacinais ou campanhas em áreas de surto. Ou seja, a maioria das pessoas completamente vacinadas continua protegida.
O que devemos fazer agora?
O maior erro seria acreditar que o sarampo voltou porque a vacina deixou de funcionar.
Na realidade, o vírus encontra espaço para circular justamente onde existem pessoas não vacinadas ou com cobertura vacinal insuficiente.
O momento exige atitudes simples:
- conferir a carteira de vacinação; * atualizar esquemas incompletos; * procurar atendimento diante de febre alta associada a manchas vermelhas, especialmente após viagens ou contato com casos suspeitos; * evitar exposição de pessoas vulneráveis quando houver suspeita da doença.
Uma mensagem importante
O aumento de casos em São Paulo merece atenção, mas não deve gerar medo. O sarampo continua sendo uma das doenças infecciosas mais preveníveis da medicina moderna. Diferentemente de muitas infecções para as quais ainda buscamos tratamentos eficazes, no caso do sarampo temos uma ferramenta extremamente segura e altamente efetiva: a vacinação.
Em saúde pública, o objetivo não é esperar que a doença se espalhe para agir. É justamente agir cedo para impedir que ela volte a ocupar espaço. Quando mantemos altas coberturas vacinais, protegemos não apenas quem recebeu a vacina, mas também crianças pequenas, gestantes e pessoas imunossuprimidas que dependem da imunidade coletiva para permanecerem seguras.
REFERÊNCIAS
- Ministério da Saúde. Situação Epidemiológica do Sarampo – Brasil.
- Ministério da Saúde. Sarampo – informações técnicas e recomendações de vacinação.
- Ministério da Saúde. Ampliação da vacinação contra o sarampo em São Paulo, Guarulhos e São Bernardo do Campo (2026).
- Ministério da Saúde. Nota Técnica sobre vacinação contra sarampo para viajantes e áreas sob maior risco de reintrodução viral.
Dra. Mariela Cometki Assis-é Médica Infectologista | Referência em Imunidade



