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A bacia de Maria Pires

A bacia de Maria Pires

Não era de ouro, nem de prata nem muito menos de latão, mas os banhos maravilhosos que proporcionaram à nossa infância serão para sempre inesquecíveis.

Toponímicos nos instigam a procurar razões para justificá-los e alguns são mesmo curiosos, é o caso da Placafor, por exemplo, que tomou o lugar da Praia da Saudade, devido a uma placa branca da fábrica de automóveis Ford, ou a “Ladeira do quebra bunda” que assistiu a muita queda ao lado da Igreja de São Bento, outros ainda acendem nossa curiosidade sem que consigamos satisfazê-la como o “Alto da Terezinha”, “Bate coração”, “Bate Facho”, “Ilha Amarela”. E não é coisa só da Bahia. A que se refere em S. Paulo o bairro do “Tatuapé”? Alguma alusão ao modo de locomover-se do tatu?

No entanto, não é só pelo nome que a Bacia de Maria Pires me inquieta, mas é que quando a ela me refiro ninguém me diz que já sequer ouviu falar.

Para mim é a lembrança da água morninha e a espuma de pequenas ondas que quebravam nas pedras das suas bordas, dos peixinhos coloridos que tentávamos capturar com os nosso baldinhos de brinquedo e do limo verde nas pedras. Eram de fato duas grandes piscinas naturais delimitando parte da praia. Praia que era o deleite máximo do nosso veraneio na Pituba dos anos 50, quando só se viam casas de pescadores. Algum tempo depois, no mesmo local, um bar em estilo bem rústico tornou-se famoso, a “Cabana Bico de ferro” e deu nome ao lugar; hoje há um restaurante do complexo do Jardim dos Namorados no local.

Atualmente, ao caminhar no calçadão da orla, naquele trecho, podem-se ver os moradores circulando velozmente para lá e para cá, no meio de lixo e dejetos. Ratos enormes podem ser divisados por quem se debruçar nas muradas, entristecendo e destruindo o sonho de meninos que se encantaram ao mergulhar em águas mágicas que os transportavam para outros mares e mundos com seus barquinhos de papel.

Naquele tempo, a Pituba era um areal imenso cheio de cabras que corriam à solta e poucas casas de construção em tijolos, uma casa grande de dois andares, de madeira pintada de verde e o conhecido Armazém Popular”, eternizado no jingle da Ótica Ernesto, por Valtinho Queiroz e que é agora, uma farmácia.

A distração daquelas tardes era assistir à puxada da rede e voltar com a latinha cheia de pititingas que os pescadores nos davam, para dormir sonhando com o paraíso de sol que nos aguardava no dia seguinte.

Marli Piva Monteiro – é médica psicanalista em Salvador (BA) e integra a Sobrames Sergipe

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