Dino Buzzati escreveu uma obra-prima da literatura do século XX, que poucos leram, O Deserto dos Tártaros. O livro é uma bela metáfora sobre a vida. Fala da nossa capacidade de superação diante da espera, da angústia, do sofrimento, da melancolia… Da busca por dar sentido à vida, mesmo diante da solidão existencial e da passagem do tempo que nos consome.
Num deserto distante está encastelada uma última fortaleza, para onde são designados militares que por lá permanecem, longamente, guarnecendo-a, à espera de um inimigo que parece nunca chegar. É neste ambiente de extremos sacrifícios que as vidas humanas se constroem, amadurecidas e fortalecidas pela dor da existência. Ontem, no evento da nossa Sobrames, eu lembrei do livro que li, há tanto tempo, e que pretendo voltar a ler, O Deserto dos Tártaros.
A Sobrames é a nossa fortaleza também situada num deserto simbólico. No nosso caso, o deserto é o mundo vazio em que vivemos, carente de ideias, reflexão e beleza. O lugar onde prospera a feiura, a vaidade extrema, o individualismo e o desespero por falta de sentido da vida, onde a solidão é real, mesmo acompanhada.
A Sobrames é a cidadela onde, voluntariamente, alguns se hospedam desejosos de resistir ao vazio do deserto que a cerca. É nessa fortaleza solitária, de resistência, que a vida se constrói mais leve, que a solidão se torna menos solitária e onde a existência e a consciência da finitude tornam-se menos desesperadoras. Na Sobrames, o tempo e a dor da espera são superados pela arte, introduzida, persistentemente, pelo nosso comandante, Lúcio Prado Dias, um rebelde cheio de causas pra viver, que nos carrega a todos, ainda que seja um tipo como eu, um soldado sem esperança.
Mas, como certa feita disse o grande Ernest Hemingway: “não importa a guerra, o que importa mesmo é saber quem está ao seu lado na trincheira”. É isso, estamos muito, muito bem acompanhados.
Rômulo de Oliveira Silva – é médico angiologista, escritor, músico, poeta. Sobramista.

