Para o cardiologista Marcos Almeida, confrade da Academia Sergipana de Medicina, o maior estímulo para a germinação de grandes homens é celebrar as virtudes dos antepassados, mostrando-as como espelho às gerações nascentes. Sergipe, minúsculo no mapa do Brasil, tem-se agigantado pelo talento e pelo trabalho e não se corre de ombrear com os irmãos da grande Pátria.
Refiro-me sobremodo ao patrono da Cadeira 3 da Abrames (Academia Brasileira de Médicos Escritores), o sergipano de Aracaju José Antônio de Abreu Fialho, o mestre eminente que iluminou o Brasil nas lentes de sua sabedoria e penetrou na história com o halo da ciência e do trabalho.

A solenidade de posse aconteceu nesta sexta-feira que passou, 8 de novembro, na sede do Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro. Fui saudado pelo eminente médico paulista Hélio Begliomini, presidente da Academia de Medicina de São Paulo. E a satisfação ainda maior foi ter o privilégio de suceder ao querido José Maria Chaves, médico escritor e poeta cearense, que faleceu no início deste ano. Reverenciar o Patrono da Cadeira e aqueles que a ocuparam é norma pétrea das Academias. Tratarei aqui, nesse primeiro momento, de apresentar para vocês o panegírico do patrono.
Quando comecei a investigar a vida e a obra de Abreu Fialho, veio-me logo à mente a bela frase de Plínio, o Jovem, grande erudito da Roma antiga, que assim se referiu aos grandes homens e aos seus grandiosos feitos: “eu pessoalmente considero abençoados aqueles que possuem o dom divino de fazer coisas dignas de serem escritas ou escrever coisas dignas de serem lidas. Os mais abençoados de todos, com certeza, são aqueles que fazem ambas as coisas”.
Seguramente, Abreu Fialho foi um destes próceres, cuja memória merece, ainda hoje, receber as justas palmas e os meritórios louros, devidos aos que souberam triunfar durante a fugaz existência da vida humana.
Seu filho, Silvio de Abreu Fialho, ao justificar a reprodução de textos de seu falecido pai no livro “Páginas Viradas”, que escrevera em 1967, assim comentou: “reproduzo-os porque será oportuno, em qualquer fortuna e a qualquer pretexto, relembrar como pensaram e agiram, ou se esmeraram e escreveram aqueles que tempo sem tempo se deram à glória da nossa profissão. Reproduzo-os porque encerram conceitos e pensamentos de um mestre de muito saber e de muitas virtudes, que de ânimo inteiro se entregou à paixão de esmaltar a medicina brasileira do seu tempo. Reproduzo-os, finalmente, no que a mim se refere, com o sentimento de quem, murmurando uma prece, ilumina um altar”.
Seria extremamente perigoso e temerário, neste espaço, traçar um perfil biográfico completo deste vate sergipano. O espaço não permitiria. E a minha limitação como pesquisador e escritor, também. No entanto, os dados que apresentarei serão tão curtos quanto necessários.
O Dr. José Antônio de Abreu Fialho nasceu no dia 20 de janeiro de 1874, em Aracaju. Doutorou-se em medicina em 1896, pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, defendendo a tese intitulada “A oculística perante a patologia – perturbações oculares nas moléstias cerebrais”, que se tornou um documento muito marcante para a história da oftalmologia brasileira e lhe rendeu o convite para ser diretor da mesma instituição.
Em 6 de setembro de 1922, fundou a Sociedade Brasileira de Oftalmologia (SBO), primeira entidade da especialidade no Brasil e a quarta nas Américas, precedida apenas pelas sociedades norte-americana, mexicana e argentina. Dominando várias línguas, lia autores estrangeiros no original, especialmente alemães, de forma que publicou vários trabalhos no idioma germânico e foi presidente da Sociedade Brasileira de Cultura Alemã.
Além de ser o Patrono da Cadeira que ora assumo na Abrames, é também da Cadeira 71 da Academia Nacional de Medicina e da Cadeira 21 da Academia Sergipana de Medicina, cujo ocupante é Marcos Almeida, médico escritor e latinista, acima citado.
O ilustre médico, cujo nome figura na galeria de “Vultos da Medicina Brasileira” da Sociedade Brasileira de História da Medicina, faleceu na cidade do Rio de Janeiro, no dia 17 de março de 1940. Ao fim de sua carreira e vida, não guardava arrependimentos nem amarguras. No ex-libris com o qual identificava a propriedade de seus livros na biblioteca, estava sempre estampado um outro lema, bem apropriado para quem sabe que a glória do mundo é algo passageiro e que a morte faz parte da vida desde o começo: “direito ao fim fiado em mim”.
Tal lema, senhores e senhoras, igualmente implica que o ser humano, embora submetido aos vínculos e ditames da sociedade, é o sujeito de sua própria história, é o artífice de suas venturas e desventuras, enfim, o criador de sua saga individual.
E pudemos comprovar a veracidade de nossas ilações em um trecho de seus discursos: “Lutar para viver, resistir, persistir, triunfar ou ser vencido com honra e dignidade, vivendo alerta, abraçado com a própria vida. Há uma arte difícil – a de viver; há uma conquista heroica – a da personalidade; há um legítimo orgulho, o de vencer!”
Poderia dizer muito mais acerca desse vate, orgulhosamente conterrâneo.
Dr. Lúcio Prado Dias – é presidente nacional da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores e agora imortal da Abrames.

