Dia desses estava em uma livraria no Shopping Leblon no Rio de Janeiro, eis que meus olhos não acreditaram no que viram: o consolo dos inocentes, uma coleção dos catecismos de Carlos Zéfiro.
Freud se notabilizou por bisbilhotar a sexualidade humana, mas tinha razão: a sexualidade explica muito do que fomos e somos. Cientificamente diz-se que o menino entrou na puberdade quando teve sua primeira ejaculação, já a menina quando surge seu broto mamário e por aí vai.
As meninas um dia menstruam e viram mocinhas, nós nunca menstruamos e ficamos uns bobões por muito tempo.
Machos e dominadores, afirmamos nossa masculinidade espremendo as namoradinhas que por não terem nada para provarem, amadurecem muitos anos antes de nós. Praticamos um ritual do aperto mais como um exercício de afirmação que de prazer ou paixão.
Mais uma vez Freud tem razão. A busca pela mama feminina atesta a nossa resistência ao desligamento do domínio materno, mas…
As noites sem sono dos meninos, como eram vividas?
A vida tem soluções mágicas para tudo; era aí que entravam os catecismos. A imaginação dos meninos flutuava no ar. Faziam tudo, menos rezar, em cada cabecinha um templo de pecado e de desejo. A minha geração não teve educação sexual formal, foi aluna do instinto animal.
Por décadas, os agentes promotores da inclusão sexual dos adolescentes foram as indefesas empregadas domésticas e um batalhão de “quenguinhas baratas” que circulavam nas noites vendendo seus corpos nos becos escuros ao custo de tostões.
Dija Vieira Primo, balconista da Farmácia de Binta, tinha um belo acervo de revistinhas de Carlos Zéfiro. Um monte de adolescentes passava às tardes por lá querendo tomar emprestado um daqueles exemplares para à noite fazerem “justiça com as próprias mãos”.
Nas confissões semanais, padre Bolinha, com uma voz muito parecida com a do ex-jogador Romário, dizia:
— Fale seus pecados, meu filho.
Do outro lado do confessionário, o menino dizia:
— Seu padre, li o catecismo a semana toda!
Padre Bolinha, sem saber o teor da leitura, penitenciava:
— Meu filho, ler o catecismo não é pecado. Reze uma Ave Maria e dois Pai Nossos, mas não deixe de ler o catecismo.
A recomendação do padre era levada a sério. A meninada não poupava esforços, bastava flagrar um leve e inocente esvoaçar das saias da professora ou da coleguinha que sentava-se na cadeira da frente, para justiçar mais uma inspirada e dedicada explosão de testosterona.
Um velho amigo arranjou uma namoradinha e foi com ela para a sessão soirée de domingo do Cine Santo Antônio. Sentaram-se nas poltronas do fundo, tudo sinalizava em direção ao óbvio. Entre um cheirinho e outro, ele resolveu dar uma palpadinha ingênua nas coxas da mocinha. Ela reagiu prontamente e o repreendeu muito indignada:
— Pare com isso! O que você está pensando que eu sou?
Ele muito sem jeito, totalmente encabulado, perguntou:
— Quer se vingar? Pode passar a mão nas minhas coxas também!
Certa vez, um pai de família foi à casa de Bregedela, velha cafetina, para queixar-se do acolhimento que ela dava ao seu filho menor em sua casa de prostituição. A velha senhora da vida muito apropriadamente respondeu:
— Meu senhor, seu filho vem aprender aqui o que o senhor não ensina para ele em casa.
A vida é realmente fascinante. Jamais poderíamos imaginar que aquelas meninas de rostinhos bonitos e corpos magrinhos, fantasias dos nossos segredos mais secretos, viriam a ser as mães dos nossos filhos. O tempo passou e passou, a tesão não acabou, apenas mudou de lugar, hoje amamos essas companheiras porque elas fizeram de nós homens plenos.
Dr. José Marcondes – é médico pneumologista e membro da Sobrames Sergipe

