Publicidade Hospital de Cirurgia: há 100 anos cuidando da saúde dos sergipanos Hospital de Cirurgia: há 100 anos cuidando da saúde dos sergipanos

Alguém merece?

Dizer que a vida do idoso é a melhor idade, só pode ser filho de chocadeira ou não conheceu sua progenitora por ser mulher de vida livre. Quinze pra sete da manhã toca o telefone fixo que fica na cozinha o que me obriga a levantar e atender. A sobrinha que já tem uma touceira branca na cabeça e procura esconder com centenas de cremes de múltiplas cores, convidando para almoçar no shopping e fazer umas comprinhas.

— Pensei em levar as tias.
Acedo com um disfarçado resmungo e vou acordar a tia que só levanta depois que digo que tem uma barata voadora na cama. Todo o balaio de gato aboletou-se num fusquinha 63, claro que sem ar condicionado e às 11h40 já tínhamos devorado o estoque de uma lanchonete de comida a quilo e pago a conta com cartão de crédito depois de perguntar se podia dividir. O restante do passeio foi no bisbilhotar as lojas de departamento à procura de camisolas, combinações e calçolas.

— Não querem calcinhas?
— Não, sua tonta! Quem usa calcinha é garoto ou calça curta!
— Quero uma calçola confortável porque às vezes a gente precisa usar fralda.

Bisbilhotaram por trocentas lojas e terminaram por conformar-se com a parte de baixo de maiôs de duas peças.

Enquanto faziam o cooper comercial a besta quadrada aqui permanecia no corredor do centro comercial no que aproveitei para matar as curiosidades que iam aparecendo: dois garotões sarados ainda não acostumados com as liberdades sociais, davam-se as mãos e no instante seguinte se soltavam. Uma mulata rechonchuda exibia sua exuberante comissão de frente de dar inveja à Estação Primeira de Mangueira. Um tiozinho de bermudas disfarçava tão mal sua acompanhante que em certo momento começou a despertar a atenção dos curiosos, que nem eu. Uma madame com uma leiteria tão volumosa que a mesma já passava na minha frente e a bunda ainda estava na escada rolante. Neste meio termo, um casal (ele alemão e ela com traços de favelada) adentra uma loja de grife.

A vendedora os aborda e ela pede humildemente um tênis e o gringo repete “um pênis”. Tumulto no meio de campo. Chega o gerente e o coitado tenta explicar por gestos DKW, Volkswagen, Mercedes Benz e aponta um tênis. Meia hora depois sai o casal, ela com um tênis maior que seu pé e seu alemão de pouco vocabulário. Recolho meu bloco de terceira e quarta idades, e vou sofrer pra colocar a traquitana num fusquinha 67: as 10 calçolas, duas dúzias de fraldas geriátricas, 14 camisolas. Inda bem que não tinha nenhum fiscal no estacionamento porque poderia imaginar que era um assalto e acabaríamos numa delegacia.

Vida de idoso, mal comparando, é uma transa de porco-espinho com tamanduá-bandeira ou, como diria a saudosa Maria dos Estudantes, vendedora de acarajé no Colégio da Bahia: — Vida de idoso é um cu de mula alinhavado a linha frouxa.

Ildo Simões – foi presidente da Sobrames da Bahia e atualmente reside em Salvador

Publicidade Hospital de Cirurgia: há 100 anos cuidando da saúde dos sergipanos Hospital de Cirurgia: há 100 anos cuidando da saúde dos sergipanos