Estão querendo capar o gato, aliás, capar o hino. Que curioso, nas vezes em que ouvi o Hino de Sergipe, pensei em duas coisas: a primeira, se o Frei José de Santa Rita não se deixou seduzir pela beleza da ária da ópera “O Barbeiro de Sevilha” de Gioacchino Rossini e decidiu trazer a ritmicidade rica em pausas curtas, interrompidas por um fervor melódico intenso, que remete à obra do compositor italiano de 1816.
A segunda, que o brilhante religioso e músico sergipano se propôs a compor uma obra musical de longa duração, à la “Paixão Segundo São Mateus” do alemão Johann Sebastian Bach, com suas 2 horas, 43 minutos e 18 segundos.
É verdade que gênios como Maurice Ravel não se preocuparam muito em poupar o tempo de execução do seu “masterpiece”, e portanto não hesitaram em distribuir a ritmicidade circular progressiva do seu famoso “Bolero” por longos 18 minutos de grandiosidade musical, a afagar nossos ouvidos.
Os sete minutos do clássico “Hey Jude” de Paul McCartney e John Lennon foi mais uma grande obra que extrapolou os limites usuais de duração de uma execução musical.
O brilhante cantor e poeta Renato Russo não fez por menos ao compor seu “Faroeste Caboclo”, com duração de mais de nove minutos e 30 segundos.
Para alguns bons sergipanos, o nosso “Hino de Sergipe” parece ser desnecessariamente longo, se comparado à “God Save the Queen” dos ingleses, ou à “La Marseillaise” dos franceses e até o solene hino alemão “Deutschlandlied”, todos eles com bem menos de 3 minutos de duração, fica o consolo: O hino nacional do Uruguai é o mais longo do mundo, quase uma ópera, com suas 12 estrofes poeticamente executadas ao longo de generosos 4 minutos e 30 segundos, uma eternidade para um hino e o que é mais engraçado, tem uma melodia que segue a chamada “marcha de breque”, tanto quanto o nosso hino estadual.
Comentam que escrevo e publico textos longos, passei a me policiar até que um amigo me deu um conselho: Marcondes, não encurte seus textos. Quem não gosta ou não está acostumado, não precisa ler.
Na democracia literária, assim como na musical, é dessa forma.
Mas qual é a relação entre o “longo hino de Sergipe” e meus “textos longos”?
A grande questão é que, mais de 180 anos após a criação do “Hino de Sergipe”, seria uma falta de respeito histórico e cívico alterar “a canção do nosso povo” sem consultar seus compositores, Frei José de Santa Rita e Manoel Joaquim de Oliveira Campos, que agora residem no reino do Pai Celestial. Se formos muito flexíveis com as tradições históricas e culturais, em breve, nessa nação de “bêbados e equilibristas” que vive no ritmo do “Samba do Criolo Doido”, restará apenas a canção “10%” das cantoras goianas Maiara & Maraisa, com seus 2 minutos e 43 segundos, uma verdadeira ode a políticos apaixonados e eleitores embriagados em Sergipe e no Brasil.
Dr. José Marcondes – é Médico pneumologista e especialista em Sono, integra a Academia Itabaianense de Letras e a Sobrames Sergipe

