Tínhamos algo em comum, além do “orgulho de ser tricolor”. Começamos a atuar juntos no cenário médico nacional nos idos de 1993, ele vindo do forte movimento sindical carioca e da Federação Nacional dos Médicos e eu, mais discretamente, como presidente da Sociedade Médica de Sergipe, representando o estado na Assembleia de Delegados da Associação Médica Brasileira – AMB, que à época era comandada pelo clínico paulista Mário da Costa Cardoso Filho. Na sua gestão à frente da Associação Médica Brasileira, Mário contou com o trabalho inteligente e dedicado de Celso Barros, na Diretoria de Defesa Profissional e em seguida na Comissão Nacional de Honorários Médicos.

Nessa condição, fizemos-lhe o convite para vir a Aracaju, dentro da programação do Congresso Brasileiro de Adolescência, para juntos debatermos, em uma mesa redonda, as condições de trabalho do médico brasileiro, incluindo a sua vil remuneração.
Sua forte liderança no movimento médico fez com que o seu nome fosse lembrado para a presidência da AMB, na sucessão de Mário Cardoso. No entanto, não obteve o apoio dos paulistas, que preferiram marchar com Wirton Palermo, à época Secretário Geral da entidade. As duas candidaturas de situação foram mantidas. Nesse cenário, surgiu a candidatura oposicionista do paranaense Antonio Celso Nunes Nassif e fomos convocados por ele para integrarmos o seu comitê de campanha. Conseguimos que Sergipe “fechasse” com Nassif e os candidatos da situação, Celso e Wirton, divididos e ainda tendo que defender o legado não muito auspicioso de Mário Cardoso, seguiram céleres para a derrota.
Ainda nos preparativos de composição de chapa, fomos convidados por Celso Barros e Eduardo Vaz, este presidente da Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro, para integrarmos o seu grupo, mas tínhamos um compromisso histórico com Nassif. Nas eleições de agosto de 1995, este terminou obtendo uma vitória retumbante e só de Sergipe levou todos os votos. Celso foi o segundo mais votado nacionalmente. Com a posse de Nassif, assumimos a Diretoria Cultural da AMB nos dois anos seguintes e nesse período perdemos o contato com Celso Barros.

Em 1998 ele assume o comando da Unimed do Rio de Janeiro no auge da crise que fragmenta o sistema nacional em dois grandes blocos, quase meio a meio, com enormes prejuízos para o cooperativismo nacional. A Unimed Rio segue com o bloco legalista de Edmundo Castilho e Celso, obtendo o apoio e a confiança de Castilho, consegue ser o seu sucessor no comando da Unimed do Brasil, nos idos de 2001.
Quando assumimos a Unimed Sergipe em 1998, encontramos a cooperativa aliada ao bloco “golpista” de Reginaldo Tavares, um verdadeiro rei do Norte-Nordeste, bem ao estilo do tenentista Juarez Távora, ardiloso e habilidoso político nacional. A nossa convivência com este bloco nunca foi saudável. Lutei para influenciar a decisão de rompimento da nossa Unimed com esse retrógrado sistema e passarmos para a Unimed do Brasil, sob a liderança de Celso Barros, que a cada dia ampliava os horizontes do cooperativismo nacional. Em 2002, finalmente, nos desligamos do atraso e do clientelismo, representados pela Unimed Norte-Nordeste e, ao lado da Unimed Fortaleza, passamos a integrar a Unimed do Brasil.
Em função disso, restabelecemos a fraternal convivência. Foi quando veio a CBHPM e me tornei soldado da maior bandeira de luta da classe médica brasileira dos últimos tempos. Participei na linha de frente da criação da Classificação Brasileira Hierarquizada de Procedimentos Médicos – CBHPM, como Diretor de Economia Médica da Associação Médica Brasileira, na gestão de Eleuses Paiva. Por diversas vezes dirigi-me à Fipe – Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas da USP, para discutir pioneiramente com técnicos da entidade os primeiros passos para a sua elaboração. Tive o privilégio de apresentar a proposta inicial da tabela para o Conselho Científico da AMB e para as principais operadoras de planos de saúde, entre elas a Unimed. A CBHPM foi lançada em Vitória e depois, ao lado de Lincoln Freire, Eduardo Vaz e outros valorosos companheiros, participei da Comissão Nacional para Implantação da CBHPM e depois da sua Câmara Técnica, criada para promover os seus ajustamentos, lado a lado com as operadoras. Isso durou anos.
Nessa dupla militância, aconteceram excessos e mal-entendidos. Confianças foram quebradas e amizades desfeitas. E o mais paradoxal de tudo foi que o maior estrago aconteceu justamente entre médicos, vinculados à AMB, CFM e Unimed. Testemunhei o esforço de Celso para que o sistema adotasse, em curto espaço de tempo, a nova classificação. Com isso ele sofreu resistências fortíssimas, incompreensões de todas as naturezas, mas conseguiu avançar graças ao seu idealismo e ao compromisso assumido com as entidades médicas, berço de sua história associativa. Mas a grande ação de Celso ainda estava por vir, a reintegração plena do sistema. E isso todos nós testemunhamos em 2007, na Convenção Nacional ocorrida em Natal, quando todas as singulares Unimed, de norte ao sul do país, terminaram abrigadas sob um mesmo teto, mostrando definitivamente a pujança do cooperativismo médico brasileiro, inquestionavelmente o maior do mundo.
Em paralelo às ações associativas, havia a paixão tricolor. Ambos torcíamos pelo Fluminense e ver a chegada da Unimed como patrocinador master do clube, na pior fase de sua história (nos idos de 1999, o tricolor chegou ao fundo do poço, ao ser rebaixado à Série C do Campeonato Brasileiro), foi a luz que apareceu no fim do túnel. Durante quinze anos, a forte presença da Unimed na camisa tricolor foi importante para os dois lados, para a retomada do brilho do Flu e para o crescimento exponencial da carteira de clientes da Unimed Rio. Com isso, a participação de Celso Barros ficou gravada para sempre na história do clube das Laranjeiras.
Na verdade, ele não foi apenas um patrocinador. Ao longo de mais de 15 anos vivendo o Fluminense, inicialmente como mecenas, depois como dirigente e por fim como figura central da gestão tricolor, o médico pediatra tornou-se um dos personagens mais vibrantes e influentes da história tricolor. Sua morte, neste sábado – 15 de novembro de 2025, aos 73 anos, encerra um capítulo glorioso do clube e arrebata do meu convívio pessoal um grande amigo, incentivador e companheiro de lutas memoráveis.
O movimento médico nacional deve muito a Celso Correa de Barros que, aliando competência, dedicação, seriedade e respeito, soube posicionar por anos a Unimed como a maior operadora de plano de saúde do país, respeitada e admirada sobejamente pela sociedade brasileira.
Lúcio Antônio Prado Dias – é membro da Academia Sergipana de Medicina e Presidente nacional da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores

