Quantas vezes tenho me perguntado, que estranho poder é este que tem as palavras, de estar em processo constante, num fluente ir e vir que desobedece roteiros. É absolutamente imprevisível e inconcebível, para deleite de escritores e poetas, inquietação de semiólogos e lingüistas, mas prazer e diversão apenas, para diletantes como eu.
Entre os inúmeros exemplos que poderia usar para ilustrá-lo, preferi o do atualíssimo verbo FICAR que durante muito tempo significou – permanecer, restar, continuar, estacionar, não sair do lugar, estar situado e de uns tempos para cá, passou a ter o sentido de paquerar, namorar, apertar, abraçar, com direito a beijos inclusive na boca, cheiros, lambidas, miados e latidos (Pittbull), tapas na cara, etc. – o kit é completo. E o que o torna mais atraente, sem compromissos prévios, presentes ou futuros – o kit é descartável. O sucesso no mercado foi absoluto desde o lançamento.
O nicho de mercado, no início constituído apenas de adolescentes, estendeu-se para mulheres adultas, por um lado e por outro, a menininhas de idades cada vez mais precoces. Como pré-requisito para a utilização do kit é necessário exercitar o uso dos quadris, o que tem sido desde muito cedo, estimulado com a execução de passos de danças lascivas, eróticas às quais se entregam as crianças, num jogo de sedução cujas consequências perigosas não podem sequer aquilatar. E o que é pior, cantam letras de refrões pobres e vazios, mas recheados de palavras obscenas, agressivas – verdadeiras versões tupiniquins dos Contos Proibidos do Marquês de Sade – convite certo à excitação sexual dos adultos.
Perdão, Noel, perdão, Cartola, Pixinguinha. Mil perdões, Vinícius, Gil, Caetano, Chico, Milton Nascimento. Mas há outros requisitos como manter a qualquer preço um corpo belo e esbelto com músculos bem desenvolvidos, malhando horas diariamente às custas muitas vezes de artropatias nos joelhos e dolorosas distensões musculares.
“Ficar” passou a ser imprescindível para que um “reggae” valha a pena e não seja só pura “maresia”. Curioso é que “ficam” os rapazes, com quantas conseguirem, mas são implacáveis com as meninas que “ficam” com vários deles numa festa. Cobram-lhes uma “fidelidade” irracional e absurda e tentam impingir-lhes culpa, difamando-as se desobedecem. Exigem dos companheiros que respeitem seus “territórios” de frágeis e momentâneas conquistas, limitando assim as possibilidades das garotas – tipo “ninguém tasca eu vi primeiro”.
E critica-se e brada-se contra a pedofilia, o abuso sexual contra crianças, a prostituição infantil, a discriminação contra a mulher! Mas o que será que está sendo feito efetivamente para coibir tais abusos? Omissão é no mínimo conivência ou cumplicidade. Ou será que ao invés disso, não se estaria estimulando práticas indesejáveis para a sociedade?
Voltemos, porém, ao verbo “ficar”, que em si mesmo é um grande insurreto. Historicamente famoso pela decisão de D. Pedro I, chegou a ser consagrado num dia especial “Dia do Fico”, mas tomou rumos tortuosos o que já foi independência e glória. E querem agora “ficar” a todo custo, governantes ainda que corruptos, insensíveis aos problemas do povo, irresponsáveis, inconsequentes, injustos e infelizmente… inatingíveis e intocáveis.
Ante tudo isto só nos resta, portanto, perguntar se para as mulheres, para os nossos filhos, para o Brasil e para todos nós, o verbo “ficar” é uma questão de avanço ou de recuo? Esta é a grande questão.
Dra. Marli Piva – é médica psicanalista e integra a Sobrames Sergipe

