Era 8 de julho de 1820, num local localizado onde o sol fumega, brilha e irradia calor até de noite.
Sergipe, o menor estado do Brasil, decidiu que já estava na hora de ter sua própria festa de emancipação. Afinal, o que a Bahia tem que Sergipe não tem?
Naquela época, enquanto o resto do Brasil estava mais ocupado com a Independência do Brasil (um evento comemorado com tanto entusiasmo quanto uma final de campeonato de golfe na Flórida), Sergipe olhou ao redor e disse: “Ei, por que não fazer como os outros e começar a nossa própria história?”
Assim nasceu a nova Província de Sergipe D’El Rey, como manifestação de gratidão de Dom João VI pelo apoio do povo sergipano na luta contra os revolucionários pernambucanos, que em 1817 quiseram se libertar de Portugal e seus impostos abusivos.
E foi assim que os sergipanos, apaixonados pelo calor do sol, e mesmo sem ar-condicionado, conseguindo se abanar com seus chapéus de palha, concordaram com as ideias e decisões de coronéis, homens de negócios e outros poderosos.
A emancipação foi quase como um grande “sim” em um relacionamento, onde os sergipanos prometeram amar a monarquia, a nobreza, os ricos pecuaristas e plantadores de cana-de-açúcar, até que a independência os separasse.
Os sergipanos, de saco cheio da arrogância e do sotaque dengoso dos baianos, buscaram se livrar daquela sogra que adora fazer visitas prolongadas sem avisar.
Não se imagine que a independência trouxe apenas vitórias! Para termos uma bandeira e um hino para chamar de nosso, perdemos a conterraneidade de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Bethânia, João Gilberto, Jorge Amado, João Ubaldo Ribeiro etc.
Nossa sergipanidade precisava ser consolidada, e assim construímos a “Passarela do Caranguejo”, local onde o chope fosse sempre gelado e aceitasse cartão ou pix.
Mas nem tudo foi alegria, veio a melancolia. Nosso primeiro governador, o Coronel Burlamaqui, foi preso por tropas portuguesas e levado para Salvador para um carnaval fora de época, e lá dançou ao som de Moraes Moreira. Nem Doutor Albano Franco, nem Marcelo Déda conseguiram libertá-lo.
Em um esforço hercúleo, os governantes sergipanos investiram em grandes obras — ou pelo menos naquelas que pareciam grandes, mas que muitas vezes não passavam de um calçamento de paralelepípedo, que sumia quando chovia. No meio disso, surgiram os primeiros políticos locais, que, com suas promessas de campanha não cumpridas, vendiam esperanças como quem vende peixe na feira, compondo uma casta de camaleões, que mudam de cor na dependência das circunstâncias.
E assim, sorridentes e acolhedores, somos felizes entre piadas, forrós e caranguejos, continuamos planejando tudo para antes de ontem como nossa identidade, amo esse danado desse Sergipe.
Tivemos mais um feriado sopa de chuchu sem sal e, o mais grave: mais uma data cívica que ninguém sabe o que está comemorando!
Dr. José Marcondes – é médico e membro da Sobrames Sergipe

