A HERANÇA QUE NÃO APARECE NO INVENTÁRIO

Prof. Dr. Sousa
Médico cardiologista

Há um antigo dito popular, repetido em diferentes culturas, que afirma que existem três coisas que inevitavelmente podem ser herdadas: dinheiro, dívida e doença.

A frase, embora carregada de humor e sabedoria popular, encerra uma verdade científica incontestável: a herança familiar exerce profunda influência sobre nossa saúde, particularmente sobre o risco de desenvolvimento das doenças cardiovasculares.

Se o patrimônio financeiro pode ser motivo de celebração e as dívidas motivo de preocupação, a herança biológica frequentemente passa despercebida.

Entretanto, no consultório médico, ela representa uma das informações mais valiosas para a estratificação do risco cardiovascular. Afinal, como costumamos afirmar, “o passado da família pode ajudar a prever o futuro do coração”.

Entre os diversos fatores de risco cardiovasculares conhecidos — hipertensão arterial, diabetes mellitus, tabagismo, obesidade, sedentarismo e dislipidemias —, poucos possuem peso prognóstico tão expressivo quanto a história familiar de doença cardiovascular prematura.

Quando um parente de primeiro grau — pai, mãe, irmãos ou filhos — apresenta um evento cardiovascular maior, particularmente infarto agudo do miocárdio ou acidente vascular cerebral (AVC), em idade precoce, o risco cardiovascular dos familiares aumenta significativamente.

As atuais diretrizes internacionais de prevenção cardiovascular e manejo das dislipidemias reforçam esse conceito, considerando como história familiar prematura de doença aterosclerótica a ocorrência desses eventos antes dos 55 anos nos homens e antes dos 65 anos nas mulheres.

Nesses casos, a presença da herança familiar deve ser encarada como um importante marcador de risco cardiovascular e incorporada à tomada de decisão clínica.

A nova Diretriz de Dislipidemias do American College of Cardiology e da American Heart Association, publicada em 2026 (http://www.acc.org/), reafirma que a presença de forte história familiar de doença cardiovascular prematura constitui um dos principais fatores modificadores de risco, devendo influenciar tanto a estimativa do risco cardiovascular quanto a decisão sobre a necessidade de investigação adicional e de intervenções preventivas mais intensivas.

É importante compreender que, na maioria das vezes, não se herda propriamente o infarto ou o AVC, mas sim a predisposição biológica para desenvolver as condições que levam a esses eventos.

Alterações genéticas relacionadas ao metabolismo lipídico, à coagulação sanguínea, à resposta inflamatória e à função vascular podem ser transmitidas entre gerações, aumentando a susceptibilidade individual.

Um exemplo clássico é a hipercolesterolemia familiar, doença genética relativamente frequente, caracterizada por níveis muito elevados de colesterol LDL desde a infância e associada a elevado risco de doença cardiovascular precoce.

O reconhecimento dessa condição em um membro da família pode permitir o diagnóstico e o tratamento preventivo de diversos outros parentes antes que ocorra uma tragédia cardiovascular.

Mais recentemente, outro componente hereditário vem ganhando crescente importância: a lipoproteína(a), ou simplesmente Lp(a). Trata-se de uma partícula lipídica cuja concentração é predominantemente determinada geneticamente.

As diretrizes atuais recomendam que sua dosagem seja realizada pelo menos uma vez na vida em adultos, justamente para identificar indivíduos com risco cardiovascular aumentado decorrente da herança genética.

Entretanto, reconhecer a herança genética não significa aceitar um destino inevitável. A genética carrega a arma; o ambiente frequentemente puxa o gatilho.

O conhecimento da predisposição familiar deve servir como estímulo para a adoção precoce de medidas preventivas: alimentação saudável, atividade física regular, controle rigoroso da pressão arterial, cessação do tabagismo, tratamento adequado das dislipidemias e acompanhamento médico periódico.

Na prática clínica, poucas perguntas possuem tanta relevância quanto aquela aparentemente simples: “Alguém da sua família teve infarto ou AVC?”. A resposta pode alterar completamente a avaliação do risco cardiovascular e, consequentemente, a estratégia terapêutica.

A rigor, talvez o velho provérbio popular mereça uma pequena atualização.

Herdamos, de fato, dinheiro, dívidas e doenças. Mas, diferentemente dos dois primeiros, a herança biológica oferece algo extraordinário: a possibilidade de mudar o futuro antes que ele aconteça.

Já profetizava Confúcio (551–479 a.C.): “O homem que não pensa no futuro encontrará problemas à sua porta.”

Na prevenção cardiovascular, conhecer a herança familiar não é um exercício de fatalismo, mas um convite à ação. Porque, em cardiologia, olhar para a história da família é uma das maneiras mais eficazes de proteger o amanhã.

Prof. Dr. Antônio Sobral Sousa – professor Titular da UFS, Membro das Academias Sergipanas de Medicina, de Letras e de Educação.

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