Sou “de Jesus”, assim como foi meu pai, meus tios e meu avô Pixinxim da fazenda Riachão, nos confins de Ribeirópolis, território conquistado pelo caboclo Antônio Coronel, meu bisavô. Não sei de onde vinha sua patente militar, mas era assim que era conhecido. Não me consta que tenha ido para Guerra do Paraguai, muito menos tenha lutado contra Antônio Conselheiro, em Canudos: era Coronel e pronto!
Pixinxim era um misto de negros, índios, branquelos portugueses, um ser algo caboclo, mestiço, filho da terra como a semente do milho ou do cacto mandacaru, que crescem e sobrevivem na inclemência da seca sertaneja. O homem de cabelos negros, sobrancelhas espessas, pele queimada pela fúria do sol, braços fortes e amplos como um juazeiro, fugiu da sua terra natal em busca de uma natureza que lhe assegurasse meios de subsistência, para criar seus oito filhos pequenos.
Um belo dia, meu avô se cansou de lutar contra a natureza inclemente, embarcou em um pau-de-arara até a estação da Luz em São Paulo e de lá, tomou o rumo da alta Sorocabana, em direção à distante Presidente Prudente no sudoeste paulista.
Depois de buscar ocupação aqui e acolá, refugiou-se no noroeste do Paraná dos poloneses, alemães, italianos, japoneses e turcos, todos emigrantes como ele, escravos dos meeiros, poceiros, invasores e arrendatários, daquela extensa terra de basalto fértil, que a italianada pobre vinda da Sardenha chamava de “terra rossa”.
Meu avô era apenas de Jesus e jamais se queixou de carregar sua cruz. Ao casar com minha avó Laudelina, distribuiu o “Santos” que ela trazia como único dote entre seus dois punhados de filhos. Meu avô, a exemplo de tantos outros Silvas, Ferreiras, Santos, “de Jesus”, era um bom cristão, temente a Deus, dedicado ao trabalho árduo da lavoura e à sua família.
Seu Filomeno Pixinxim foi mais uma das vítimas da diáspora das secas da década de trinta, do século passado. Foi mais um soldado anônimo do imenso exército de retirantes nordestinos, massacrados pelo clima impiedoso do semiárido nordestino.
Meu avô, assim como eu, ficou viúvo cedo, minha avó Laudelina morreu de complicações do parto, na sua nona gestação, na flor dos seus 32 anos de idade, deixando um lote de meninos pequenos para meu avô criar.
Por termos o mesmo sangue, tenho certeza que ele também achava a viuvez masculina uma covardia, não tem cabimento a mulher morrer antes do marido, as esposas são bem mais competentes para criação dos filhos.
Recordo que muitas vezes passava férias na pequenina Santo Inácio, do noroeste paranaense, e ia muito em sua casa, por entre as linhas enfileiradas de cafezais, que margeavam o caminho iluminado pelo luar. Lá, descíamos da charrete, retirávamos os arreios do cavalo, e íamos para as festinhas, onde as meninas locais se desmanchavam de paixão, pelos meninos vindos da capital paulista, com sotaques cheios de “erres”!
Nada poderia se comparar aos banhos no riacho da represa, às pescarias de bagres em dias de chuva, tomar sorvete no bar do sinuca, bater pernas com meus primos, andar no Jeep Willys de tio Osvaldo e visitar meu vô Pixinxim, é claro.
Curioso, eu tinha apenas treze anos e, em um balanço da vida, as minhas vivências em Santo Inácio estão registradas em minha memória como dos melhores e inesquecíveis momentos da minha existência, portanto, sou originário do homem da terra, do suor do rosto, da semente que vira fruto, da determinação incansável de vencer até os mais duros obstáculos como só Jesus seria capaz de tolerar.
Dr. José Marcondes – é médico pneumologista e membro da Sobrames Sergipe

