
Uma entrevista esclarecedora com o cirurgião digestivo e especialista em cirurgia bariátrica, dr. Rogério Rodrigues. Médico com mais de 30 anos de atuação, o dr. Rogério fala sobre a obesidade como doença crônica, a alternativa de tratamento com as famosas canetas emagrecedoras e ainda esclarece dúvidas relacionadas à cirurgia bariátrica e seus efeitos. Essa é uma entrevista para quem está em dúvida entre o tratamento com as canetas emagrecedoras ou a cirurgia bariátrica, uma técnica consolidada como o melhor e mais duradouro tratamento para a obesidade mórbida e as doenças associadas, como diabetes e hipertensão.
Saúde em Dia: A obesidade no Brasil cresceu 118% entre 2006 e 2024, atingindo 25,7% da população adulta. Atualmente, o excesso de peso afeta 62,6% dos adultos, segundo a OMS. A que se deve esse aumento?
Dr. Rogério Rodrigues: A obesidade é uma doença crônica e multifatorial. Ela não acontece apenas porque a pessoa come mais do que deveria. Diversos fatores estão envolvidos, como predisposição genética, alterações hormonais, metabolismo, funcionamento do cérebro, qualidade do sono, estresse, sedentarismo e hábitos alimentares. Além disso, hoje vivemos em um ambiente que favorece o ganho de peso. Alimentos ultraprocessados, ricos em açúcar, gordura e sódio, são baratos, práticos e amplamente disponíveis, enquanto a rotina corrida reduz o tempo para preparar refeições saudáveis e praticar atividade física. O resultado é preocupante: a obesidade aumenta significativamente o risco de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, hipertensão, apneia do sono, alguns tipos de câncer e diversos outros problemas de saúde. Por isso, a obesidade deve ser encarada como uma questão de saúde pública e tratada com seriedade, sem preconceitos.
Atualmente existem opções como as chamadas “canetas emagrecedoras” e a cirurgia bariátrica. Qual é o tratamento mais eficaz?
Os medicamentos conhecidos como “canetas emagrecedoras”, como os análogos do GLP-1 e do GIP/GLP-1, representam um dos maiores avanços no tratamento da obesidade nas últimas décadas. Eles reduzem o apetite, aumentam a sensação de saciedade e ajudam muitos pacientes a perder peso de forma significativa, desde que utilizados com acompanhamento médico. No entanto, sabemos que a obesidade é uma doença crônica. Em muitos casos, quando o tratamento medicamentoso é interrompido, parte do peso perdido pode ser recuperada. Além disso, ainda existem estudos em andamento para entender melhor os efeitos do uso por muitos anos e qual a melhor estratégia para manutenção dos resultados. Já a cirurgia bariátrica continua sendo o tratamento mais eficaz e duradouro para pacientes com obesidade grave e para aqueles que apresentam doenças associadas, como diabetes e hipertensão. É importante entender que a bariátrica vai muito além de reduzir o tamanho do estômago. Ela promove importantes alterações hormonais e metabólicas, aumentando hormônios da saciedade, como GLP-1 e PYY, melhorando o controle do diabetes, reduzindo a fome e favorecendo mudanças positivas na microbiota intestinal. Tanto a medicação quanto a cirurgia têm seu papel. A melhor escolha depende da avaliação individual de cada paciente.
Qual é o maior mito sobre a cirurgia bariátrica?
O maior mito é acreditar que a cirurgia é um caminho fácil para emagrecer. Na realidade, a cirurgia é apenas uma ferramenta dentro de um tratamento muito maior. O sucesso depende da participação ativa do paciente e de mudanças permanentes no estilo de vida. Uma alimentação equilibrada, prática regular de atividade física, acompanhamento psicológico e seguimento médico são fundamentais para manter os resultados ao longo da vida. Quem imagina que basta operar e tudo estará resolvido acaba se decepcionando. A cirurgia oferece uma oportunidade de recomeço, mas os novos hábitos fazem toda a diferença.
Que conselho o senhor daria para quem tem medo da cirurgia bariátrica?
O primeiro passo é buscar informação de qualidade e conversar com um cirurgião especializado. É natural sentir medo quando pensamos em qualquer cirurgia, mas hoje a bariátrica é realizada, na maioria dos casos, por videolaparoscopia ou cirurgia robótica, técnicas minimamente invasivas que proporcionam menor dor, recuperação mais rápida e baixos índices de complicações quando bem indicada. Além disso, o paciente passa por uma avaliação completa antes da operação, envolvendo uma equipe multidisciplinar formada por cirurgião, endocrinologista, nutricionista, psicólogo, anestesista e outros profissionais quando necessário. O conhecimento reduz a ansiedade. Quando o paciente entende como funciona o tratamento, sente-se mais seguro para tomar uma decisão consciente.
Qual é o maior desafio da saúde atualmente?
Um dos maiores desafios da saúde é conter o crescimento das doenças crônicas, especialmente obesidade, diabetes, hipertensão e doenças cardiovasculares. Essas enfermidades impactam não apenas a qualidade e a expectativa de vida das pessoas, mas também representam um enorme desafio para os sistemas de saúde. Outro grande problema é a desinformação. Nunca tivemos tanto acesso à informação, mas também nunca circulou tanto conteúdo sem respaldo científico, principalmente nas redes sociais. Isso faz com que muitas pessoas adiem tratamentos eficazes ou busquem soluções milagrosas que prometem resultados rápidos, mas podem colocar a saúde em risco. Mais do que tratar doenças, nosso papel como médicos é orientar, prevenir e oferecer um cuidado individualizado, baseado em evidências científicas. A informação correta continua sendo uma das ferramentas mais poderosas para transformar vidas e promover saúde.


