Publicidade Hospital de Cirurgia: há 100 anos cuidando da saúde dos sergipanos Hospital de Cirurgia: há 100 anos cuidando da saúde dos sergipanos

Dona Natália, saudade eterna!

Na pia batismal da igreja matriz de Laranjeiras, no longínquo 1923, ela recebeu o nome de Natália Sobral Prado. Viria a ser, trinta e um anos depois, a minha mãe e uma fonte de permanente inspiração e exemplo para Marcos, o primogênito, já falecido, Magali, as noras Cristina e Ângela, o genro, Álvaro, os nove netos (na ordem cronológica, Luciana, Fabiola, Lucinho, Toninho, Marcos Aurélio, Marcela, Marcos Antônio, Fabio e Bruno, e quinze bisnetos, Rafael, Larissa, Mariana, Carol, Pedrinho, Gabriela, Letícia, Daniel, Lucas, Matheus, Luan, Guilherme, Clara e a última, mais recente, que chegou para manter acesa e viva o nome da bisa: Natália, com um mês de vida, fazendo reacender lembranças do passado, da histórica Laranjeiras, de Itaporanga e de Aracaju.

Dona Natália Sobral Prado Dias sorridente em sua casa
Dona Natália Sobral Prado Dias. Foto: Arquivo pessoal

Seus passos na infância circulavam entre o Engenho Paty e a cidade de Laranjeiras e, depois da morte do pai dela, Valentim Vasconcelos Prado, transferiu-se com a família para Itaporanga d’Ajuda, por interferência do tio Silvio Sobral Garcez. Na cidade banhada pelo Vaza-Barris, conheceu e se casou com Antônio Conde Dias, servidor público federal e jornalista, descendente do emigrante italiano Ângelo Conte, que desembarcou em Salvador em 1872, com 24 anos.

O casamento de Antonio e Natália perdurou por quase cinquenta anos, até a morte dele, em 1992.

Dirijo-me a vocês, com o pensamento repleto de emoção e com uma enorme sensação de vazio pelo sentimento de perda, que descontrolou a nossa bússola vital, que agora não aponta mais para o norte, desde o dia 2 de janeiro último, no dia seguinte ao seu aniversário de 103 anos, celebrado por toda a família ainda tocada pelo espírito do Natal, onde recebeu a todos e cantou pra mim a música Fascinação.

Ao longo de sua vida, tão longa quanto fascinante, conseguiu pôr em sua volta as vidas dos membros da família, a dos parentes e dos amigos. Nunca deixou de participar, muitas delas promovendo, as atividades do dia a dia, com entusiasmo e dedicação, sempre muito presente na vida de todos.

A partir de 1961 meus pais passaram a residir em Aracaju, após resolvida a questão da transferência dos empregos, ele no âmbito federal ela na esfera estadual. O objetivo era oferecer uma melhor educação para os filhos. A decisão dela de internar Marcos, ainda criança, num instituto de educação em Aracaju, quando ainda residiam em Itaporanga, foi um ato de coragem e amor. De uma pessoa que enxergava na educação a perspectiva de dias melhores. A partir daí vieram tempos de dificuldades financeiras, superadas com destemor. Anos difíceis aqueles, para dois funcionários públicos, manter uma grande família, minha vó Carmelita, tia Jaci, viúva com dois filhos, tia Lola, solteira, todos moravam conosco.

Não teve vida fácil essa mulher capricorniana, uma guerreira, disciplinada e determinada! Visionária e destemida!

Em Aracaju, passamos a residir na Avenida Ivo do Prado, 198, entre as ruas de Maruim e Estância. Uma velha casa da família, tão estreita quanto comprida, com longos corredores e olhar frontal para o rio Sergipe. À direita, residia o Monsenhor Domingos Fonseca, à esquerda a Sra. Izabel Martins. Logo depois, ficava o Colégio Salvador, onde estudamos, Magali e eu.

Mamãe foi, ao longo da vida, um elo importante no seio da família, como ponto de equilíbrio e razão, sempre atendendo e procurando servir a todos sem distinção. Desde cedo, ao lado de papai, assumiu a labuta da construção e manutenção da família, estendendo as mãos para levantar pessoas, principalmente os parentes, uma casa sempre aberta também para os amigos, bem ou mal-afortunados.

Essa foi, em rápidas pinceladas, a nossa mãe, sogra, avó, tia, bisavó Natália, amiga, companheira e incentivadora. Estivemos afastados temporariamente por causa da pandemia do Covid, no seu primeiro surto, em 2020. Ela ficou com Magali no Mosqueiro, desde meados de março. Não tenho lembrança de ter ficado tanto tempo longe dela, em toda a vida. No entanto, falávamo-nos quase que diariamente, ela sempre nos dando exemplos permanentes de otimismo e mostrando como se faz para “matar” o tempo com múltiplas ocupações. Uma delas, ler, resolver o desafio dos caça-palavras, ver fotos e lembranças do passado, ouvir músicas e cantar, sim, cantar apaixonadamente as músicas do seu tempo, cujo talento desabrochou em turbilhão, já com idade avançada, até chegar aos palcos da vida, participando dos nossos saraus temáticos e encantando a todos com a pujança de sua memória. Mamãe cantou, cantou, encantando todos!

Em nome da família agradecemos sensibilizados as gentis e atenciosas manifestações de pesar recebidas por ocasião do seu falecimento, e as inúmeras mensagens recebidas de pessoas e instituições nos ajudaram, sobremodo, a enfrentar esse momento de perda. Agradecemos as moções de pesar da Academia Sergipana de Medicina, da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores – SOBRAMES, da Academia Sergipana de Letras, da Academia Sergipana de Educação, da Academia Feminina de Letras e Artes de Sergipe, da Academia Itaporanguense de Letras, da Academia Sergipana de Inclusão, da Academia Literocultural de Sergipe, da Academia Sergipana de Letras PCD e Autista – ASLIDA e do Sarau Sergipano de Mulheres.

Um agradecimento especial aos dedicados funcionários que estiveram com ela por anos a fio, Maria, Edvaldo e Eniete e às técnicas de enfermagem Maria Deise, Márcia Regina, Gil, Viviane, Jeane e Silmara, que se revezavam em atenção e gentilezas. Aos padres Renato Lima, Vadson Monteiro, que propiciaram a mamãe o conforto espiritual, às médicas Ana Vahle, Marcia Valéria, Juliana Seabra, Émerson Costa e Edvan Correia, à fisioterapeuta Priscila Zélice, aos funcionários da Assefaz e ao Grupo Constat, ao amigo fraterno Gil Rodrigues, de Itaporanga, ao Sr. Wilton Torres, sempre solidário e atuante e finalmente a todos que direta ou indiretamente e não nominados conviveram com mamãe.

Chegar aos 103 anos, plenamente integrada com a família e os amigos, foi uma dádiva divina, entre manifestações de júbilo e alegria. Foi essa motivação que nos trouxe aqui hoje, no encantamento da celebração da esperança, impulsionada pelo seu exemplo de vida, como se todas as vozes conhecidas estivessem sussurrando aos nossos ouvidos e os corações batendo no compasso da emoção, com suas mentes clareando o nosso pensamento.

(Os versos das canções “Fascinação” e “Sertaneja” citados no texto podem ser lidos na edição impressa da revista.)

Muito obrigado a todos!

Lúcio Antonio Prado Dias – é membro da Academia Sergipana de Medicina e Presidente nacional da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores

Publicidade Hospital de Cirurgia: há 100 anos cuidando da saúde dos sergipanos Hospital de Cirurgia: há 100 anos cuidando da saúde dos sergipanos