Aprendi, bem cedo, na medicina,
que existem as feridas que se curam;
já, em outras, a cicatriz é a sina,
e há aquelas que, por anos, perduram;
mas demorei para compreender,
nesse processo de doença e cura,
as feridas n’alma de cada ser,
dor oculta que, às vezes, perdura.
O medo de uma nova internação;
adoecer e sentir a solidão;
fingir estar bem a quem se quer bem!
Quantos pacientes já curei sem
lhes curar a dor oculta no vão
das linhas retas de uma prescrição?
Primeiros plantões
O que mais eu poderia ter feito?
Que deixei passar ou não percebi?
Culpa: atordoado com o efeito
de perder um paciente que atendi!
Duvido de mim; calado, pergunto:
não estou pronto para atuar aqui?
Médico jovem e inapto? Sigo junto
a uma equipe que não escolhi!
Nem sequer me recuperei da dor,
já outro paciente precisa de mim!
Respiro fundo pra me recompor;
sei que não posso desistir assim,
pois, das lutas que enfrenta um “doutor”,
a maior é levar alívio, sim!
Viver
A vida era como um rio em seu curso,
cada dia sendo apenas mais um,
até a doença impor um excurso,
e a vida ficou sem rumo algum.
De repente, o tempo ficou veloz
e o que era importante perdeu valor;
pequenas coisas, sim, ganharam voz,
um acordar que foi imposto pela dor.
Não espere que seja o medo da morte
a razão pra se lembrar de viver!
Não deixe seu tempo à mercê da sorte,
mas viva sem o medo de perecer.
Não faça de cada momento o último
e, sim, transforme cada dia em único!
Dr. Daniel Pio – cardiologista com pós-graduação em Tomografia e Ressonância Cardíaca, membro da Sobrames Sergipe

