
Nesta edição, trazemos uma entrevista exclusiva com o Dr. Kelso Passos da Silva (CRM-SE 1622), cirurgião ginecológico com sólida formação em técnicas minimamente invasivas e tratamento da endometriose. O especialista é pós-graduado pelo Hospital Sírio-Libanês, Instituto Crispi, IDOR-RJ e Cetrus-SP, com ampla atuação em laparoscopia, histeroscopia, cirurgia robótica e ultrassonografia ginecológica avançada. Confira a seguir orientações valiosas sobre diagnóstico, sintomas e os avanços no tratamento dessa condição que afeta milhões de mulheres.
Saúde em Dia: O que é a endometriose?
Dr. Kelso: Podemos dividir o útero em 3 camadas, de fora para dentro: serosa, miométrio e endométrio. Endometriose é uma condição que é definida quando o estroma e/ou epitélio glandular do endométrio cresce fora dele. A endometriose representa uma afecção ginecológica muito comum, atingindo cerca de 10 a 15% das mulheres no período reprodutivo e até 3% a 5% na fase pós-menopausa. Estima-se que o número de mulheres com endometriose seja de sete milhões no Brasil e aproximadamente 180 milhões de mulheres no mundo.
Quais são os principais sintomas?
A endometriose é conhecida como a doença dos 6 “D”: dor na menstruação (dismenorreia), dor na relação sexual (dispareunia), dor para evacuar na menstruação (disquesia), dor para urinar na menstruação (disúria), dor entre as menstruações (dor pélvica crônica) e dificuldade para engravidar. Podemos acrescentar mais alguns “Ds” que também são muito frequentes: desespero (por não aguentar mais tanta dor), descrédito (ninguém acredita na dor dessas mulheres), diarreia no período menstrual, distensão abdominal, dor lombar, desânimo e depressão. Outros sintomas associados são: fluxo menstrual intenso e irregular, fadiga crônica, ansiedade e irritabilidade. Porém é importante ressaltar que os sintomas são individualizados para cada mulher; eles podem apresentar-se isolados ou combinados de diferentes formas. Costumamos dizer que a endometriose tem “identidade e CPF” para cada mulher acometida.

Ela pode ser confundida com outras doenças?
Sim, a depender dos locais dos sintomas que a mulher apresenta, pode ser confundida com apendicite, infecção urinária, cólica renal, abortamento, intolerância à lactose, síndrome do intestino irritável e, o mais frequente, crise nervosa.
Como é feito o diagnóstico da endometriose? Existe um exame específico?
O diagnóstico geralmente é feito através da história clínica minuciosa, complementada pelos exames físicos direcionados (palpação, exames de toque vaginal e retal), ultrassonografia para pesquisa de endometriose e ressonância magnética. A videolaparoscopia como método diagnóstico está em desuso, devido à alta especificidade dos métodos de imagem, principalmente a ultrassonografia para pesquisa de endometriose feita por profissional devidamente habilitado, pois nesta condição sua especificidade e sensibilidade são superiores às da ressonância magnética. Em relação à ultrassonografia, saiu um consenso canadense, agora em 2025, demonstrando que através de qualquer ultrassom transvaginal é possível descobrir se a mulher tem endometriose ou não, ressaltando que o ultrassom mais específico, que é o ultrassom para mapeamento de endometriose, é necessário para detalhar os locais acometidos pela doença e para o planejamento cirúrgico quando o mesmo for indicado. O principal objetivo deste consenso é acabar com a “desculpa” de que demorou para dar o diagnóstico porque não fez o exame de mapeamento.
A endometriose pode ocorrer mesmo sem sintomas?
Sim, de 10 a 20% das portadoras de endometriose são completamente assintomáticas, daí a importância do rastreamento da doença nas mulheres da família daquela mulher que já recebeu o diagnóstico de endometriose.
O que causa a endometriose?
Existem diversas teorias que tentam explicar a causa da endometriose. A primeira foi criada em 1921 pelo Dr. Sampson, do Hospital Johns Hopkins, nos Estados Unidos, baseada no refluxo sanguíneo menstrual que, ao invés de sair totalmente do útero junto com a menstruação, faria o caminho inverso, voltando para as trompas em direção ao abdômen (Teoria da Menstruação Retrógrada). Porém o diagnóstico da endometriose em locais extrapélvicos levou ao questionamento desta teoria. Atualmente a teoria mülleriana, ou teoria da origem embrionária, é a que melhor explica a origem da endometriose: ela propõe que a doença pode ter origem em células remanescentes do desenvolvimento embrionário do trato reprodutivo feminino. Essas células, que formam os ductos de Müller, podem persistir após o desenvolvimento normal e, sob certas condições (como alterações hormonais ou inflamatórias), podem se transformar em tecido endometrial fora do útero. Essa teoria contempla a presença de endometriose em locais extrapélvicos (pulmonar, cerebral, cutânea, gengiva etc.).
Existem fatores genéticos ou comportamentais que aumentam o risco?
Sim, hoje em dia já está bem determinada a importância da genética e da epigenética na evolução da doença, portanto o tratamento sempre vai ser multidisciplinar, envolvendo mudanças comportamentais na alimentação, atividade física, meditação, terapia etc. Assim como também os fatores genéticos contribuem para a hereditariedade da doença.
Mulheres que nunca engravidaram têm mais chance de desenvolver a doença?
Como explicado anteriormente, endometriose é a presença de células ou glândulas do endométrio fora do seu local de origem, que é a camada mais interna do útero. Portanto, na gravidez, como a mulher não menstrua, o endométrio está relativamente em “repouso”; assim como a camada interna do útero, todos os locais que têm lesões endometrióticas estarão também, colaborando para que amenizem ou passem temporariamente os sintomas e o desenvolvimento da doença. Acredita-se que no passado a incidência da doença era menor porque as mulheres tinham vários filhos, então o endométrio ficava menos “ativo” durante a gestação e também no período de amamentação, em que geralmente muitas mulheres não menstruam. Em contrapartida, muitas mulheres não conseguem engravidar por conta da doença. Em decorrência disto, alguns “mitos” foram criados como: “se engravidar fica curada” e “toda mulher com endometriose vai ter dificuldade ou impossibilidade de engravidar”.
Como é o tratamento?
No esquema terapêutico desta patologia é utilizado o tratamento medicamentoso (bloqueio hormonal) ou combinado medicamentoso/cirúrgico, além de medidas multidisciplinares (mudanças comportamentais nos hábitos de vida como, por exemplo, alimentação, atividade física, meditação, terapia etc.). A cirurgia deve ser considerada quando a paciente é fortemente sintomática e/ou apresenta infertilidade, quando não responde ao tratamento clínico, quando apresenta lesões em locais que podem levar a quadros obstrutivos e/ou quadros que podem levar a abdômen agudo. Idealmente a cirurgia deve ser feita através de técnica minimamente invasiva, e a cirurgia padrão ouro é a “one shot surgery”, em que em uma única abordagem deve-se fazer a exérese de todas as lesões, lembrando que a retirada de lesões não implica necessariamente a remoção dos órgãos, principalmente em pacientes com desejo reprodutivo. Recomendamos sempre encaminhar a paciente para um especialista em endometriose, porque a dor física e emocional da endometriose é real, então deve sempre ser valorizada e investigada, pois os transtornos causados por ela afetam várias áreas da vida da mulher: social, trabalhista, amorosa, emocional etc.
A endometriose tem cura?
Não, a endometriose é considerada uma doença crônica, mas tem tratamento e tem controle. Vale ressaltar que são completamente falsas as afirmações:
- “Se operar e/ou tirar o útero fica curada”;
- “Se engravidar fica curada”;
- “Quando chegar a menopausa fica curada”.
Ela pode causar infertilidade?
Sim, em torno de 40 a 50% das mulheres podem desenvolver infertilidade (dificuldade ou impossibilidade de engravidar), porém a infertilidade nunca é um sintoma inicial, sempre é uma evolução ou complicação da doença, portanto é inverídico afirmar que toda mulher com endometriose obrigatoriamente vai ter infertilidade.
Como a doença pode impactar a vida sexual da mulher?
Um dos sintomas bem frequentes da endometriose é a dispareunia, que é a dor durante a relação sexual. Geralmente começa pela dispareunia de profundidade, que só é percebida em algumas posições, porém pode evoluir para dispareunia superficial, chegando em alguns casos a causar a impossibilidade do ato sexual, pois a mulher começa a sentir dor na penetração e persiste por toda a relação em quaisquer posições, chegando ao ponto de algumas desmaiarem de dor durante a relação sexual, além da dor e/ou ardor se prolongarem após o término da relação por períodos que podem variar de minutos até 15 dias.
Em decorrência da dor, é notório pelo parceiro o declínio da libido da mulher, e aí começam os atritos e questionamentos do tipo “o que está acontecendo? Você não era assim, já não gosta mais de mim?”, e muitas vezes acompanhados de acusações como “deve estar pensando em outro, se já não estiver com outro!”, levando muitas vezes a brigas que culminam com separações. Além disso, essa incapacidade de ter uma relação plena causa baixa autoestima, porque a paciente se sente menos “mulher” do que as outras.

