ENQUANTO OS TERMÔMETROS CAEM, O RISCO CARDIOVASCULAR SOBE

Por Prof. Dr. Antônio Sobral Sousa, médico cardiologista

A chegada do inverno costuma ser recebida com entusiasmo por muitos. As temperaturas mais amenas convidam ao convívio familiar, às comidas típicas e às celebrações que marcam esta época do ano. Contudo, por trás do conforto proporcionado pelo clima mais frio, existe uma realidade que merece atenção: o aumento do risco de eventos cardiovasculares graves, especialmente o infarto do miocárdio e o acidente vascular cerebral (AVC).

Embora essa associação possa surpreender algumas pessoas, ela é bem conhecida pela comunidade científica. Diversos estudos realizados em diferentes países têm demonstrado que os períodos de baixas temperaturas estão relacionados ao aumento das internações e da mortalidade por doenças cardiovasculares. No Brasil, estimativas apontam que os casos de infarto podem aumentar em até 30% durante o inverno, enquanto os episódios de AVC também apresentam crescimento significativo.

Mas por que o frio exerce tamanha influência sobre o coração e a circulação?

A explicação está nos mecanismos de adaptação do próprio organismo. Quando a temperatura ambiente diminui, o corpo procura preservar o calor dos órgãos vitais através da vasoconstrição, fenômeno caracterizado pelo estreitamento dos vasos sanguíneos. Como consequência, ocorre elevação da pressão arterial e aumento da resistência à circulação do sangue. Em outras palavras, o coração passa a trabalhar mais intensamente para manter o adequado suprimento sanguíneo aos tecidos.

Ao mesmo tempo, muitos indivíduos reduzem a ingestão de líquidos durante o inverno, pois sentem menos sede. Essa aparente insignificância pode ter consequências importantes. A desidratação favorece o aumento da viscosidade sanguínea, criando um ambiente mais propício à formação de trombos, os coágulos que podem obstruir artérias coronárias e cerebrais.

Outro aspecto relevante é a maior incidência de infecções respiratórias nesta época do ano. Vírus como influenza e SARS-CoV-2 não afetam apenas os pulmões. Eles desencadeiam intensa resposta inflamatória sistêmica, capaz de acelerar a progressão da aterosclerose e favorecer a ruptura das placas de gordura presentes nas artérias. Quando isso acontece, pode ocorrer a formação abrupta de um coágulo, levando ao infarto ou ao AVC.

A situação torna-se ainda mais preocupante em indivíduos que já apresentam fatores de risco cardiovasculares. Idosos, hipertensos, diabéticos, tabagistas, obesos e portadores de colesterol elevado constituem grupos particularmente vulneráveis aos efeitos das baixas temperaturas. Da mesma forma, pacientes que já sofreram infarto, AVC ou possuem insuficiência cardíaca necessitam de vigilância redobrada durante os meses mais frios.

Entretanto, seria um equívoco atribuir todos os riscos exclusivamente ao clima. O comportamento humano também muda no inverno. A prática de atividade física costuma diminuir, o consumo de alimentos mais calóricos aumenta e o sedentarismo torna-se mais frequente. Essas alterações acabam potencializando os efeitos fisiológicos do frio e contribuindo para o agravamento do risco cardiovascular.

A boa notícia é que grande parte desses eventos pode ser prevenida. Medidas relativamente simples produzem impacto significativo na proteção do coração. Manter-se adequadamente hidratado, mesmo sem sentir sede; utilizar roupas apropriadas para enfrentar o frio; praticar exercícios físicos regularmente; evitar o tabagismo; moderar o consumo de bebidas alcoólicas; manter a pressão arterial, a glicemia e o colesterol sob controle; e seguir rigorosamente as orientações médicas são atitudes fundamentais.

Outro ponto frequentemente negligenciado é a vacinação. Estudos têm demonstrado que a imunização contra a influenza e a Covid-19 reduz não apenas as complicações infecciosas, mas também eventos cardiovasculares relacionados ao processo inflamatório desencadeado por essas doenças.

Por fim, é indispensável reconhecer os sinais de alerta. Dor ou aperto no peito, falta de ar, suor frio, mal-estar súbito, fraqueza em um lado do corpo, dificuldade para falar ou alterações repentinas da visão exigem avaliação médica imediata. Nesses casos, cada minuto conta. Quanto mais rápido o atendimento, maiores são as chances de sobrevivência e recuperação sem sequelas.

O inverno é uma estação que nos ensina sobre recolhimento e cuidado. Talvez seja também uma oportunidade para refletirmos sobre a importância da prevenção. Afinal, enquanto os termômetros caem, não podemos permitir que diminua nossa atenção com a saúde cardiovascular. Como escreveu o filósofo francês Voltaire, “decidi ser feliz porque faz bem à saúde”. Eu acrescentaria: cuidar do coração também.

SOBRE O AUTOR

Prof. Dr. Antônio Sobral Sousa é professor titular da UFS e membro das Academias Sergipanas de Medicina, de Letras e de Educação.

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