Ensaio vencedor ABRAMES 2024 – Academia Brasileira de Médicos Escritores
A palavra tem poder. E isso se torna evidente na escrita criativa e terapêutica.
Ao longo dos anos, a comunicação sofreu alterações, tornando-se mais rápida, impactando na criação de blogs e de mensagens nas diversas redes sociais.
A necessidade de compartilhar informações pode aparecer em diferentes momentos da vida pessoal ou profissional, mas, quer seja à caneta ou digitado no computador, escrever produz inúmeros benefícios, muito além da mensagem que se quer transmitir. Escrever é uma forma de comunicação com o mundo e principalmente com quem escreve, pois permite que o próprio escritor se conheça melhor ao colocar em palavras suas ideias e sentimentos.
Sim! Cada pessoa vai se expressar de forma peculiar, própria do seu jeito de ser e de acordo com suas experiências.
O ato de escrever possibilita organizar os pensamentos e clarear a mente. A memória, por exemplo, é favorecida principalmente quando se escreve utilizando papel e caneta. O cérebro em exercício favorece o desenvolvimento cognitivo e ajuda a melhorar a concentração, ampliando a capacidade de memorização de conteúdos.
A escrita também amplia o vocabulário e, à medida que se escreve, novas palavras são agregadas ao conteúdo, tornando o texto mais rico e expressivo.
Em histórias ficcionais, entra em jogo a criatividade para elaborar situações que sejam verossímeis, originais e impactantes.
Interessante salientar que a escrita é democrática e aceita qualquer tema. É possível escrever sobre a vida, sobre as pessoas que conhece, sobre o que se vê, sobre o que sente. Escrever sobre tudo.
Nesse sentido, ao buscar material para escrever, a pessoa começa a prestar atenção na vida: atenção ao que ocorre ao seu redor, às paisagens por onde anda, às histórias que lhe são contadas, aos acontecimentos que vivencia.
Escrever desenvolve também o hábito de ler conteúdos diversificados, refletindo e formando ideias para enriquecer o seu próprio texto. Por isso se diz que todo bom escritor é também um bom leitor.
Uma orientação para quem se inicia nesse processo é transpor para o papel suas ideias sem se preocupar com a autocrítica ou exigências. O primeiro esboço do tema geralmente não é definitivo, até mesmo para escritores profissionais. Muitos rascunhos podem ser necessários até que o texto esteja adequado para as devidas correções ortográficas.
Muitas pessoas acreditam que para escrever é necessário inspiração e um talento nato. Acontece que, na prática, a espera de um momento inspirador pode desencadear procrastinação, deixando para depois e desmotivando com o tempo. Os escritores profissionais, por exemplo, criam hábito diário de escrever, perseverando na tarefa, independente dos fatores externos.
Mesmo quem não pretende publicar livro pode desenvolver a arte de escrever bem por meio da prática e dedicação. Quanto mais se escreve, melhor será a capacidade de organizar as ideias e se expressar.
“A escrita é muito mais transpiração do que inspiração”, afirmam muitos escritores.
Se o ato de escrever, por si só, já apresenta tantos benefícios, como diferenciar uma escrita criativa da chamada escrita terapêutica?
Na escrita terapêutica a pessoa escreve para si mesma e pode se manifestar em forma de diário, cartas, lista de gratidão ou uma simples conversa com sua criança interior.
A escrita criativa, por sua vez, se caracteriza por ser uma escrita não acadêmica que tem o objetivo de comunicar, ou seja, ir em direção ao outro. O compartilhamento pode ser por meio de contos, poesia, crônicas ou publicação nas redes sociais.
Existe uma grande interação entre a escrita criativa e a terapêutica.
A escrita terapêutica pode potencializar a escrita criativa, tornando-a com maior fluidez. Escrever pela manhã algumas frases espontâneas, vindas do coração, favorece o surgimento de ideias e a lembrança de acontecimentos que podem servir como base para um texto mais literário, despertando a criatividade.
Por outro lado, a escrita criativa também se apresenta terapêutica ao possibilitar que a pessoa tenha mais “bagagem” para escolher palavras, metáforas e imagens que demonstrem o que ela está sentindo e pretende transmitir. A escrita terapêutica surgiu no final da década de 1980, quando o psicólogo norte-americano James Pennebaker constatou que pessoas que escreviam seus traumas, desabafando e detalhando seus sentimentos, apresentaram melhora significativa do estado emocional.
Também chamada de escrita curativa, expressiva ou emocional, a escrita terapêutica é uma excelente forma de identificar sentimentos e de responder a eles de maneira adequada, ou seja, desenvolver a inteligência emocional.
Auxilia a refletir sobre experiências atuais e passadas, revelando o modo como cada indivíduo enxerga a si mesmo e reage ao mundo. Organiza pensamentos, desenvolve o autoconhecimento, identifica as causas de uma ansiedade e abre novas perspectivas para a solução de um problema.
Traduzir uma experiência em linguagem possibilita torná-la mais “concreta” e compreensível. Ao refletir no que é registrado no papel, é possível ter uma visão mais ampla de uma situação, compreender sentimentos, encarar medos, avaliar atitudes e considerar tomadas de decisão mais assertivas. Permite voltar para o passado, refletir sobre o presente ou planejar metas para o futuro. O olhar mais observador e acolhedor para consigo reforça a autoconfiança e a autoestima, além de possibilitar o autocuidado devido ao tempo reservado para si mesmo. Escolher um local tranquilo, sem distrações ou interrupções, facilita o ato de escrever sobre as próprias emoções sem a preocupação com a gramática e o julgamento alheio de certo ou errado.
A escrita terapêutica pode ser comparada a um diário, porém, não visando relatar acontecimentos, mas, sim, registrar no papel ideias espontâneas, mesmo que inicialmente desordenadas. Cada pessoa também pode reservar um tempo do seu dia a dia para colocar no papel algumas frases, nem que seja para depois descartar. Até mesmo as frases aleatórias e por vezes sem nexo, no fundo apresentam um significado que vale a pena considerar.
Importante para a escrita terapêutica é expressar as emoções relacionadas aos fatos e não apenas registrar os fatos em si. Quando uma pessoa apenas relembra situações complicadas, sem refletir sobre seu envolvimento emocional, pode estar desencadeando um perigoso “gatilho” de descompensação. Por isso, convém destacar que a escrita não substitui a psicoterapia em casos mais sensíveis, sendo métodos complementares. Além do estilo livre como um diário, a escrita pode ser elaborada por meio de histórias ficcionais quando o aparente “distanciamento” auxilia a acessar as camadas mais profundas do ser. A exteriorização por meio da palavra (tanto verbal como a escrita) contribui para se perceber uma determinada situação de uma ótica diferente, ressignificando algum acontecimento doloroso, descobrindo soluções para questões internas reprimidas, prevenindo doenças.
“… pelo menos eu posso escrever o que penso e sinto; senão, me asfixiaria completamente”
Anne Frank
A escrita, porém, não precisa se concentrar nas circunstâncias traumatizantes ou nas angústias existenciais. De fato, o ser humano tende a focar nos problemas a serem resolvidos e, por vezes, esquece quantas coisas boas acontecem no seu dia a dia. Assim, listar pequenas conquistas com gratidão promove bem-estar psicológico, valoriza o momento presente e propicia uma visão mais otimista da vida. Escrever é libertador se realizado sem “filtro” e sem “máscara”, respeitando o ritmo individual. Um hábito de autocuidado. E, como qualquer novo hábito, torna-se importante a constância, produzindo satisfação gradativa, valendo-se da premissa de que “quanto mais se escreve, melhor se escreve”…
A escrita terapêutica não visa qualidade literária e, muitas vezes, o processo de escrever é mais gratificante do que o resultado. O que se observa na prática, porém, é que muitos livros célebres foram baseados nas emoções íntimas de seus autores e de vivências reais. O compartilhamento de uma situação (que será resolvida ao longo do livro) pode gerar grande identificação e fornecer estratégias positivas que o leitor utilizará na sua vida, configurando ser terapêutico tanto para o escritor como para quem o lê.
“Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida”
Clarice Lispector
Quando existe uma integração entre escrita terapêutica e criativa, o conteúdo adquire uma beleza singular, autêntica que emociona e encanta. As palavras brotam do fundo do ser e atendem à voz da intuição. Assim, o ato de escrever adquire um ar de magia. O escritor se recolhe e encara uma página em branco. Se ainda vazia, essa página aceita qualquer palavra, abraça qualquer história, aguarda ser preenchida com as diversas versões da existência. Ao capturar algo luminoso de um mundo subjetivo, surge o encantamento.
“O que é preciso é que os olhos sejam cristal sem névoa…”
Cecília Meireles
Há momentos em que o indivíduo é chamado para caminhar para dentro do mundo misterioso do seu interior. Meditação, oração, contemplação da natureza…
Sair do “piloto automático” e encontrar sua essência. A escrita pode, assim, auxiliar nessa trajetória…
Uma importante e maravilhosa jornada.
Márcia Etelli Coelho – é médica da Sobrames SP e atual presidente da entidade

