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Fibrilação atrial: cuidar além da consulta

Viver mais é uma conquista. Cuidar dos corações que envelhecem é responsabilidade crescente. Entre os desafios dessa longevidade está a fibrilação atrial, arritmia em que a atividade elétrica dos átrios se desorganiza e o coração passa a bater de modo irregular. Pode se anunciar por palpitações, cansaço ou falta de ar. Também pode ser silenciosa, com consequências graves.

A fibrilação atrial aumenta o risco de acidente vascular cerebral, insuficiência cardíaca e morte. Seu impacto ultrapassa o desconforto do coração fora do compasso. Um AVC pode interromper projetos, comprometer a independência e transformar a rotina de toda uma família. Prevenir essas consequências exige reconhecer a arritmia e manter um acompanhamento cuidadoso.

Sua prevalência vem aumentando significativamente no mundo, e o envelhecimento populacional é um dos principais fatores. A Diretriz Brasileira de Fibrilação Atrial de 2025 registra que, no Estudo de Framingham, a prevalência triplicou em cinco décadas. No Brasil, a rápida transição demográfica amplia o desafio. A idade, porém, não explica tudo: hipertensão, obesidade e outras condições também participam desse cenário.

O tratamento demanda mais do que uma receita. É preciso avaliar o risco de AVC, indicar anticoagulação quando apropriada, acompanhar possíveis sangramentos, controlar sintomas e cuidar das doenças associadas. Entre uma consulta e outra, há medicamentos a tomar, exames a apresentar e dúvidas que precisam de resposta. Nesse intervalo da vida cotidiana, a tecnologia pode ajudar. Foi com esse propósito que Ingrid Almeida de Melo desenvolveu o FACare, produto de sua tese de doutorado defendida em 2025 no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da Universidade Federal de Sergipe. Como orientador, destaco o propósito do trabalho: aproximar o conhecimento científico das necessidades de profissionais e pessoas que convivem com a fibrilação atrial.

A pesquisa construiu e validou um protótipo de software para gerenciar a doença, no ambulatório de anticoagulação do Hospital Universitário de Sergipe. A proposta reúne duas interfaces que se comunicam. Para médicos e enfermeiros, oferece ferramentas de avaliação dos riscos de eventos tromboembólicos e sangramento, prescrição médica, orientações de autocuidado e acompanhamento do paciente. Para o paciente, prevê envio de exames, acompanhamento do tratamento medicamentoso, autoavaliação de sinais e sintomas e informações sobre a doença.

O FACare busca organizar o cuidado e estimular a participação do paciente, apoiando a compreensão do tratamento e a comunicação de dificuldades por aplicativo móvel e acesso pela internet. Sua avaliação envolveu 11 médicos, sete enfermeiros, seis especialistas em informática e 17 pacientes. Os índices médios de validade foram de 0,81 para conteúdo, 0,87 para aparência avaliada pelos profissionais, 0,96 para usabilidade e 0,94 para aparência avaliada pelos pacientes. Esses resultados expressam a concordância dos avaliadores, cujas sugestões orientaram melhorias no protótipo.

Há uma distinção essencial: validar conteúdo, aparência e usabilidade não equivale a demonstrar benefício clínico. A tese não apresenta dados suficientes para afirmar que o FACare reduza AVC, internações ou mortalidade. Tampouco comprova melhora da adesão ao tratamento em acompanhamento prolongado. Esses efeitos exigem estudos próprios. Reconhecer esse limite orienta novos estudos. É preciso pensar em acesso.

A tese aponta como limitação a disponibilidade do aplicativo móvel apenas para Android. Além disso, diante de uma população que envelhece, facilidade de uso, apoio familiar e respeito às diferentes habilidades digitais devem orientar a evolução de ferramentas como essa. A inovação precisa chegar às pessoas que dela necessitam.

O FACare representa uma contribuição da pós-graduação da UFS para um problema crescente de saúde pública. Seu mérito está em propor apoio ao cuidado, avaliado por profissionais e pacientes. Novos estudos permitirão avaliar sua aplicação e seus resultados. Sob o olhar do cardiologista, a tecnologia encontra seu sentido quando ajuda a cuidar de alguém. Ao coração que perde o compasso, devemos oferecer ciência, acompanhamento e presença. Porque viver mais merece vir acompanhado da possibilidade de viver melhor.

Prof. Dr. Antônio Sobral Sousa – professor Titular da UFS, Membro das Academias Sergipanas de Medicina, de Letras e de Educação

Ingrid Almeida de Melo – Egressa do Programa de Pós-graduação em Ciências da Saúde, UFS

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