Há instituições que ultrapassam a materialidade de suas paredes e passam a habitar o território simbólico da memória coletiva. A Academia Sergipana de Medicina é uma delas. Mais do que uma entidade científica ou cultural, representa um espaço de preservação histórica, reflexão ética e valorização da Medicina como patrimônio humano e civilizatório.
Ao assumir a presidência da Academia Sergipana de Medicina, para o triênio 2026–2029, fui tomado não pela sensação de conquista pessoal, mas pela consciência do peso institucional e moral que tal missão representa. Certos momentos da vida possuem significado que transcende a biografia individual. Tornam-se compromisso com a memória, com a continuidade e com os valores que resistem ao tempo.
Vivemos uma época marcada pela velocidade das transformações. A Medicina incorporou tecnologias extraordinárias, algoritmos diagnósticos sofisticados, inteligência artificial, terapias genéticas e avanços antes inimagináveis. Entretanto, paradoxalmente, quanto maior o progresso técnico, maior parece ser o risco da perda da dimensão humanística da profissão.
É justamente nesse cenário que as Academias assumem importância ainda mais relevante.
As Academias não existem apenas para celebrar o passado. Existem para iluminar o futuro. Funcionam como guardiãs da memória intelectual, científica e ética de uma sociedade. Preservam trajetórias, reconhecem legados e ajudam a impedir que o imediatismo contemporâneo apague referências fundamentais da cultura médica.
A Academia Sergipana de Medicina carrega, em sua história, a contribuição de homens e mulheres que ajudaram a construir a saúde em Sergipe. Médicos que exerceram a profissão com dignidade, espírito público, compromisso científico e profundo respeito ao sofrimento humano. Em cada cadeira desta Casa repousa não apenas um nome, mas uma história de dedicação à ciência e à vida.
Ao longo das décadas, a instituição consolidou-se como espaço de encontro entre Medicina, cultura e humanismo. Afinal, a boa prática médica jamais se sustentou apenas na técnica. A Medicina sempre dialogou com a filosofia, com a literatura, com a ética e com a compreensão da condição humana.
Hipócrates, há mais de dois mil anos, ensinava que “onde quer que a arte da Medicina seja amada, há também amor à humanidade”. A frase permanece absolutamente atual. O paciente continua necessitando, acima de tudo, de acolhimento, escuta e esperança.
Nenhum exame substitui a sensibilidade. Nenhum algoritmo é capaz de reproduzir integralmente a compaixão humana.
A Academia tem, portanto, a responsabilidade de preservar esses valores em uma sociedade cada vez mais marcada pela pressa, pela superficialidade das relações e pela excessiva mecanização do cuidado.
Assumir a presidência desta Casa representa também o compromisso de fortalecer sua integração com universidades, hospitais, entidades médicas e centros de pesquisa, ampliando seu papel como espaço de produção de conhecimento, atualização científica e reflexão crítica.
Pretendemos estimular ainda mais o diálogo com as novas gerações. Nenhuma instituição permanece viva sem juventude, sem renovação e sem capacidade de inspirar futuros médicos. A memória só possui sentido quando serve de ponte para o amanhã.
Desejamos igualmente ampliar ações voltadas à preservação da história da Medicina sergipana. Um povo que perde a memória perde parte de sua identidade. E uma profissão que esquece seus mestres corre o risco de empobrecer moralmente.
Vivemos tempos desafiadores para a Medicina. Crescem as pressões burocráticas, econômicas e administrativas sobre o exercício profissional. Muitas vezes, o médico é levado a trabalhar em ambientes onde o tempo da escuta é reduzido e onde protocolos ameaçam substituir a individualidade do paciente.
Por isso, torna-se indispensável reafirmar princípios.
O paciente não é um número. Não é um procedimento. Não é um prontuário eletrônico. É um ser humano carregado de medos, fragilidades e expectativas.
Defender a Medicina é defender, sobretudo, a dignidade da relação médico-paciente.
Ao longo da minha trajetória acadêmica e assistencial, aprendi que liderança verdadeira não nasce da autoridade formal, mas da capacidade de servir. Liderança não é cargo; é comportamento. Talvez essa seja uma das maiores lições que a convivência institucional nos oferece.
Recebo esta missão com humildade e espírito de cooperação, consciente de que nenhuma construção relevante é realizada de forma solitária. A Academia pertence aos seus confrades, à comunidade médica e, em sentido mais amplo, à própria sociedade sergipana.
Espero que esta gestão possa contribuir para fortalecer ainda mais o papel da Academia Sergipana de Medicina como espaço de ciência, ética, cultura e humanismo.
Em um mundo cada vez mais dominado pela inteligência artificial, pelas redes sociais e pela instantaneidade das opiniões, talvez uma das maiores missões das Academias seja justamente preservar aquilo que há de mais humano na experiência médica.
Porque a ciência organiza o conhecimento. Mas, como ensinava o filósofo alemão Immanuel Kant, é a sabedoria que organiza a vida.
Antônio Carlos Sobral Sousa
Professor Titular da UFS e Membro das Academias Sergipanas de Medicina, de Letras e de Educação




