Na poeira dourada das minhas memórias, ergue-se o IRIS CINEMA, um templo de sonhos no coração da minha cidade. Suas portas se abriam não apenas para a magia da tela, mas como um portal onde a alma da sociedade local se encontrava, um raro refúgio onde as classes sociais se despiam de suas diferenças para comungar da mesma emoção.
Havia dias, sagrados como rituais, dedicados aos seriados. Às quartas e sábados, o ar vibrava com a expectativa pelos heróis de chapéu e espora. A propaganda, pintada em quadros-negros e tabuletas, era um chamado irresistível, com promessas que ecoavam pela cidade: “Hoje, um cowboy bom demais, murro pra peste na ‘cacunda’ do bandido”. Em cada fita, a certeza do triunfo do bem e a presença terna do “doidelo”, o bobo da corte de nosso faroeste particular, cuja loucura era um espelho de nossa própria alegria. Era uma beleza de se ver e sentir.
O arauto dessas aventuras era o inesquecível Cobi, o “faz-tudo” da cidade. Um homem de corpo atarracado e alma gigante, descendente de escravos, marcado pela hemiplegia, mas amado por todos como um tesouro. Eu lhe devotava um carinho imenso, e ele, talvez percebendo a pureza desse afeto, retribuía com um apelido que guardo como uma joia: “menino feio”, enquanto apontava para seu irmão, Antônio, e dizia: “esse, sim, se parece com o menino Jesus”. Partiu deste mundo já ancião, quando meus próprios passos me levavam à medicina. Sua ausência deixou um eco de saudade que ressoa em mim até hoje.
A programação era um mistério, uma dança incerta ditada pelas vontades do Sr. Augusto Luz, o monopolista de Aracaju. O nosso Sr. Zeca Pinto, dono do IRIS, recebia as latas de filme como quem recebe uma carta do destino. Ainda assim, que tesouros desembarcaram ali! “A Deusa de Joba”, “Os Tambores de Fu Manchu”, “Capitão Marvel”… A cada final de capítulo, o coração da meninada se suspendia no ar junto com o herói em perigo. O “pingongo”, aquele suspense delicioso, nos acompanhava pela semana. O avião em queda, a ponte a desabar sob as patas do cavalo, o salto no precipício para fugir de índios que, na semana seguinte, simplesmente desistiam da perseguição. A frustração era breve, logo afogada nas brigas de saloon, onde os revólveres cuspiam mais balas que a lógica permitia, e poucos tombavam, salvos pelas palhaçadas redentoras do “doidelo”.
Contudo, duas obras cravaram-se na alma da cidade como monumentos: “Ali Babá e os Quarenta Ladrões” e, nas Sextas-feiras da Paixão, o solene “Vida, Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo”, com suas sessões lotadas de fé e silêncio.
Quando a mocidade nos tocou, a tela foi invadida pelo riso brasileiro. Oscarito, Grande Otelo, Zé Trindade e Mazzaropi, cada um com sua graça particular. De Oscarito, guardo a pérola do diagnóstico em pleno Copacabana Palace: “uma superdosagem de hidróxido no esôfago retilíneo… ramificando-se até o osso ilíaco”. A pobre dama, aflita, ouve a tradução: “Não, é que a madame tomou uma canja que não foi sopa”. Eu, um sonhador da medicina, levei a sério a anatomia da piada e até hoje me pergunto sobre aquela estranha ramificação.
E Grande Otelo, imenso, disfarçado de negra com um filho no colo, cantando a plenos pulmões a sua verdade: [Trecho de letra de música omitido por direitos autorais — confira na edição impressa.] E sua “Boneca de Piche”, uma canção que era pura alma. Zé Trindade, a personificação do marido oprimido, cantando sua melancolia carnavalesca trancado no quintal: [Trecho de letra de música omitido por direitos autorais — confira na edição impressa.] E Mazzaropi, o nosso Jeca, a alma ingênua do campo de Monteiro Lobato, que ainda hoje nos visita pela televisão, eterno em sua simplicidade.
Depois, o mundo chegou em preto e branco e em cores. “O Gordo e o Magro”, o furacão Cantinflas e ele, o eterno Carlitos, a quem ainda hoje volto para encontrar um pedaço de mim. Em sua morte, o destino me presenteou com uma conversa com o jornalista Viriato Gomes, que me confiou seu testemunho do adeus ao gênio, mais tarde publicado no Correio Braziliense.
“As melodias de seus filmes”, Viriato me contou, “eram o som das ruas sujas de Lambeth, onde a miséria o embalou”. A mãe, refugiada na loucura para suportar a dor, dizia ao pequeno Charlie: “Vai, filhinho, para a casa dos outros, quem sabe se lá você encontra alguma coisa para comer”. O pai, uma sombra que se afogava em álcool, negou-lhe a palavra em um bar. A solidão, o desencanto e a miséria teceram a atmosfera de sua alma, e nenhuma outra ele jamais conheceu. Nem os milhões, nem a glória, nem as mulheres a seus pés puderam arrancá-lo do orfanato de sua infância.
Carlitos partiu em um dia de Natal, o único dia em que poderia morrer, quando o mundo se obriga a desenterrar lembranças. “No cemitério”, continuou Viriato, “seu filho Michael, com uma indiferença que sangrava, respondia aos jornalistas”. Sobre a irmã, Geraldine, disse apenas: “Na Espanha, She works”. Afastou-se, um retrato da mágoa que tentava disfarçar, ele que um dia escrevera um livro contra o próprio pai.
Chaplin, o eterno perdedor. Perdeu a bailarina a quem devolveu os movimentos, foi desprezado pela florista a quem devolveu a visão, e viu a “Cabana do Amor” que preparou para Geórgia permanecer vazia. Seus personagens eram os fantasmas de sua pobreza. E a tragédia o seguiu até depois do fim. Sua tumba violada, seu corpo roubado por homens que, perdidos, não sabiam onde o haviam escondido. Encontrado em um campo de milho, foi finalmente sepultado em uma fortaleza, onde hoje repousa ao lado de Oona, o único amor que o encontrou.
Essa saga me transporta de volta a uma sala de aula no Colégio Central da Bahia, à pergunta de uma colega ao professor Milton Tavares: “Por que os gênios sofrem tanto?”. E a resposta, que se tornou um farol para mim: “Eles não sofreram por serem gênios; são gênios porque sofreram”.
Francisco Guimarães Rollemberg – é médico e membro da Sobrames Sergipe

