MAIS ADULTOS DO QUE CRIANÇAS: A REVOLUÇÃO SILENCIOSA DAS CARDIOPATIAS CONGÊNITAS

Prof. Dr. Sousa
Médico cardiologista

Durante muito tempo, as cardiopatias congênitas foram consideradas doenças essencialmente da infância. A imagem que se tinha era a de crianças submetidas a cirurgias complexas, acompanhadas por cardiopediatras e que, infelizmente, muitas vezes não alcançavam a vida adulta. Hoje, entretanto, a medicina escreve uma história completamente diferente.

Graças aos extraordinários avanços da cardiologia pediátrica, da cirurgia cardiovascular, da terapia intensiva neonatal e dos métodos diagnósticos, mais de 90% das crianças nascidas com cardiopatias congênitas sobrevivem até a idade adulta.

Como consequência direta desse sucesso, surgiu uma nova população de pacientes: os adultos com cardiopatia congênita.

Poucas pessoas sabem, mas atualmente existem mais adultos do que crianças vivendo com cardiopatias congênitas em muitos países desenvolvidos, fenômeno que também vem sendo observado progressivamente no Brasil.

As diretrizes americanas mais recentes, publicadas no icônico periódico Circulation (DOI: 10.1161/CIR.0000000000001402), destacam que os adultos com cardiopatia congênita constituem uma população crescente, que necessita de acompanhamento especializado ao longo de toda a vida.

Trata-se de uma verdadeira vitória da medicina. Crianças que, há algumas décadas, tinham expectativa de vida limitada, hoje estudam, trabalham, constituem famílias, praticam atividades físicas e alcançam a terceira idade. Contudo, o sucesso da sobrevivência trouxe novos desafios.

Muitos desses pacientes não estão curados. Na realidade, a maioria foi corrigida ou paliada, mas continua portadora de uma condição cardíaca que exige vigilância permanente. Arritmias, insuficiência cardíaca, hipertensão pulmonar, complicações valvares, necessidade de reoperações e questões relacionadas à gravidez fazem parte da rotina de acompanhamento desses indivíduos.

Outro problema frequente é a falsa sensação de cura. Não raramente, pacientes que foram operados na infância afastam-se do acompanhamento médico por muitos anos, acreditando que o problema foi definitivamente resolvido. Quando retornam ao cardiologista, já apresentam complicações que poderiam ter sido prevenidas ou tratadas precocemente.

As novas diretrizes internacionais reforçam justamente a importância do seguimento contínuo em centros especializados e da atuação de equipes multidisciplinares capacitadas para lidar com essa população singular. Afinal, um adulto com cardiopatia congênita não é simplesmente um paciente pediátrico que envelheceu, nem um cardiopata comum. Ele possui características anatômicas, fisiológicas e clínicas próprias, que exigem conhecimento específico.

A sociedade também precisa conhecer essa realidade. Muitas pessoas convivem diariamente com colegas de trabalho, professores, profissionais liberais ou atletas que nasceram com uma cardiopatia congênita e superaram desafios extraordinários graças aos avanços da ciência. São exemplos vivos de resiliência humana e do poder transformador do conhecimento médico.

Ao mesmo tempo, essa nova realidade impõe responsabilidades aos sistemas de saúde. É necessário ampliar o acesso a ambulatórios especializados, formar profissionais capacitados e garantir uma transição adequada entre a cardiologia pediátrica e a cardiologia do adulto. O sucesso obtido na infância não pode ser perdido por falta de acompanhamento na vida adulta.

A história dos adultos com cardiopatia congênita é uma das mais belas conquistas da medicina contemporânea. Ela demonstra que o progresso científico não se mede apenas por números ou tecnologias, mas pela possibilidade concreta de oferecer mais anos de vida, mais qualidade de vida e mais oportunidades para que sonhos sejam realizados.

Como afirmou o médico canadense Sir William Osler: “O bom médico trata a doença; o grande médico trata o paciente que tem a doença.” Os adultos com cardiopatia congênita nos lembram diariamente da profundidade dessa lição. Eles representam não apenas uma vitória sobre a doença, mas uma celebração da vida.

Prof. Dr. Antônio Sobral Sousa – professor Titular da UFS, Membro das Academias Sergipanas de Medicina, de Letras e de Educação.

Foto: Magnific

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