No último dia 11 de dezembro de 2025, a Assembleia Legislativa do Estado de Sergipe homenageou o médico, professor e desportista Marcos Aurélio Prado Dias com a outorga da Medalha do Mérito Parlamentar, in memoriam, por propositura do deputado Manoel Marcos e aprovada pela unanimidade de seus membros. A homenagem a Marcos, apesar de tardia, é justa e reverencia uma personalidade que muito contribuiu para o Estado de Sergipe, em várias frentes, na Medicina, na Educação, nas Artes, Cultura e Desportos. Tive a feliz e honrosa oportunidade de proferir o discurso de agradecimento, em nome da família. Aproveitei para dar maior ênfase à sua segunda passagem pela Secretaria de Estado da Educação, que durou pouco mais de um ano, mas tão meteórica quanto realizadora, senão vejamos.

No ano de 2003, aconteceu um conjunto de ações revolucionárias e transformadoras na educação pública dos sergipanos. Assumia naquela oportunidade o cargo de Secretário de Estado da Educação o médico, professor, escritor e humanista Marcos Aurélio Prado Dias. Voltava pela segunda vez ao cargo, mas dessa vez com mais força política e uma determinação arrebatadora. Promoveu um trabalho de enorme dedicação, que não se limitava aos dias úteis da semana, mas entrava pelos fins de semana, sábados, domingos e até feriados. Visitava todas as escolas sempre no começo da manhã, antes de ir para o trabalho burocrático. Ia de sala em sala, conversar com alunos e professores, solicitar deles apoio para conservar a escola, para uma plena dedicação aos estudos e principalmente, terem orgulho de ser alunos e professores de escola pública. Dizia ele aos surpresos alunos. “Fiz toda a minha formação em escola pública e hoje estou no comando da Secretaria de Educação. Vocês podem também vencer pela educação, pois é ela quem liberta, transforma e prepara para os desafios do mundo”.
Com o lema “Educação do Futuro”, Marcos Prado implantou em Sergipe, em apenas um ano, programas importantes e pioneiros para o desenvolvimento educacional do Estado, entre eles o Sergipe Cidadão, para erradicação do analfabetismo, que chegou a receber o primeiro prêmio nacional da Alfabetização Solidária e que foi implantado antes mesmo do programa federal Brasil Alfabetizado, com reconhecimento pela UNESCO.
A sistematização e ampliação para oito polos do Estado do Pré-Vestibular SEED, gratuito, que atendeu milhares de jovens sergipanos e que começou a interiorização pela sua cidade natal, Itaporanga d’Ajuda, numa época em que o índice de aprovação de alunos de escolas públicas nas universidades era muito baixo.
Outra grande ação foram os Centros de Excelências, iniciado como piloto no tradicional Colégio Atheneu Sergipense. Foi uma experiência notável, apesar da oposição implacável e do corporativismo perverso do sindicato dos professores, que tudo fez para destruir, sem conseguir, os bons projetos. O Programa Alfa e Beto, para alunos iniciantes do fundamental, o Centro de Qualificação Prof. Antonio Garcia Filho (primeiro secretário de Estado da Educação, Saúde e Cultura do nosso Estado), a expansão do Programa de Qualificação Docente (PQD), criado na gestão de Luiz Antonio Barreto, em parceria com a UFS, foram outras ações no marcante ano de 2003.
Com o Ministro da Educação da época, Cristóvão Buarque, Marcos cultivou uma grande amizade e com ele partilhou, como grande ideal, a busca pela melhoria da educação. Militando em partidos em franca oposição, o bem comum deles era a educação. Infelizmente ambos foram defenestrados de suas funções por interesses não republicanos. Apesar do enorme prestígio concedido aos professores, retirando um famigerado redutor salarial que afligia e penalizava 15 mil deles, promover o pagamento da progressão vertical e de quase três mil processos de titulações, manter franco e democrático diálogo com o sindicato, este nunca lhe deu trégua, por questões ideológicas e partidárias. Infelizmente, é assim. Nem todas as boas ações são reconhecidas e valorizadas.
Alvo de denúncias infundadas ele saiu da vida pública para dedicar-se à profissão e responder aos diversos processos abertos, entre eles a da inadequada aplicação de recursos. Entre o exercício digno de sua profissão e a preparação de longas defesas, Marcos Prado Dias viu se desfazer em paralelo as intensas ações e as conquistas obtidas em pouco mais de um ano de comando à frente da Secretaria de Educação. Livre de todos os processos, inocentado nos diversos foros que enfrentou, veio a falecer em 2012. Simplicidade, honestidade, competência e dignidade. Esse foi Marcos Aurélio Prado Dias, gente que fez e que Sergipe agora lembra e reverencia.
Marcos Prado Dias chegou ao mundo pelas mãos do doutor João Firpo Filho, em 18 de outubro de 1944, na Maternidade Francino Melo, do Hospital de Cirurgia, naqueles conturbados anos da Segunda Guerra Mundial, com o Brasil participando do esforço para derrotar os países do Eixo e o seu regime nazifascista. Foi o primeiro filho do coletor federal e jornalista Antonio Conde Dias, seu Tonico e Dona Natália Prado Dias, nossos pais.
Primeiro neto de Aurélio Rezende Dias, ex-intendente de Itaporanga d’Ajuda, herdeiro da Usina Dira e descendente de família importante na nobiliarquia sergipana, talvez uma das mais sobranceiras na história de Sergipe, na expressão de Luiz Roberto Mott, em um de seus estudos dedicados a Sergipe, que na semana passada participou de um simpósio na cidade de São Cristóvão. Segundo ele, “é preciso que se investigue mais sobre esse destacado clã (…) pois revela ser a família Dias Coelho e Melo, dos quais Domingos Dias Coelho e Melo, o Barão de Itaporanga e Antonio Dias Coelho e Melo, o Barão de Estância, proprietários da Fazenda Escurial, que recepcionaram D. Pedro II em sua visita a Sergipe em 1860, foram as figuras exponenciais. Segundo o imperante, “ninguém poderia fazer eleitos no distrito de Itaporanga sem licença da família. Nenhuma outra família ou figuras políticas foram tão focadas pelo Imperador.”
Finalmente a hora chegou e tinha que ser no dia 18. 18 de outubro. Dia do Médico. Seria um presságio, uma antevisão do futuro, Marcos ter nascido nesse dia? Sim, porque o sonho de ser doutor se manifestou precocemente e o perseguiu de forma intensa, como um objetivo a ser atingido.
Amigos, a Medicina e a Educação foram os eixos norteadores na vida de Marcos Aurélio Prado Dias. Medicina como profissão, o magistério como primeira fonte de subsistência, a educação presente como professor e depois como gestor que, por duas ocasiões à frente da Secretaria de Estado da Educação, soube honrá-la.
Sua vida médica foi luminar, como aluno da UFS e depois professor da mesma instituição. Destacou-se como peça importante na Sociedade Médica de Sergipe, ao lado de José Hamilton Maciel, de quem era amigo dileto. Sua vida desportiva foi expressiva, no futebol, na pesca, no kart. Como homem público, à frente do IPH, da Fundação Hospitalar, do Sergás, e notadamente na Secretaria de Estado da Educação, como já referido anteriormente, passagens de dedicação e entusiasmo plenos.
Casou-se com a Sra. Angela Maria de Almeida Dias e com ela teve três filhos, Luciana, Fabíola e Marcos Aurélio e os netos Rafael, Mariana, Carol e Letícia. Nos dias de hoje, Angela exerce a Medicina na sua plenitude e dois de seus netos, Mariana e Carol, seguem a trilha das Ciências Médicas como alunas do curso na UNIT, futuras médicas que manterão acesa a chama de Hipócrates na família Dias.
Um dos momentos mais marcantes na vida de Marcos aconteceu em 6 de dezembro de 2006 quando ele foi eleito e assumiu a Cadeira 39 da ASM, cujo patrono é o médico e senador da República João Gilvan Rocha, do qual era amigo fraterno. Na época que Gilvan disputou com Leandro Maciel o Senado da República, e teve uma vitória improvável, quando convidado por José Carlos Teixeira para pôr a medicina de lado e entrar na política, como candidato a federal, ele teria dito. “Aceito, mas só se for para senador e com Marcos Prado como suplente”. Proposta aceita, o registro de Marcos foi indeferido em função da idade mínima exigida. O fato está registrado no livro do jornalista Sebastião Nery – As 16 derrotas que abalaram o Brasil.
Pois bem, a chegada de Marcos Prado à Academia foi festejada pelo mundo intelectual de Sergipe. No final de seu discurso de posse, ele lembrou Carlos Drummond de Andrade.
(O trecho do poema de Carlos Drummond de Andrade citado no discurso pode ser lido na edição impressa da revista.)
Em 23 de setembro de 2012, um mês antes de completar 68 anos, Marcos fechou os olhos para a vida terrestre e os abriu para a eternidade, deixando-nos um legado que o tempo jamais apagará.
Lúcio Prado Dias – é médico e presidente nacional da Sobrames

