MÉDICO E ESCRITOR
Lúcio Antônio Prado Dias, médico e escritor
“Como maçãs de ouro em salvas de prata, assim é a palavra dita a seu tempo.” Provérbios 25,11.
Médico escreve, é natural que o médico escreva, faz parte de sua formação e da sua profissão escrever. Histórias clínicas, hipóteses diagnósticas, relatórios, pareceres, laudos, atestados, receituários… O que os pacientes dizem ou respondem, os sons que ele percebe na ausculta clínica, os dados obtidos pela palpação e percussão, tudo é transcrito para o papel ou para a tela de um computador.
A produção científica na medicina, publicada em um sem número de revistas e periódicos, é a maior entre todas as profissões, disso não tenho dúvidas. Mas não é dessa que trato aqui. Refiro-me à literatura não científica, produzida pelos médicos em todos os rincões do mundo e que nos propiciou conhecer nomes como Sir Arthur Conan Doyle, o criador do célebre detetive Sherlock Holmes, formado pela Universidade de Edimburgo; Anton Tchekhov, que cursou medicina na Universidade de Moscou e é considerado um dos maiores contistas de todos os tempos. A sinergia dele com a medicina e a literatura se estabelece, de forma clara, na dualidade: “Fico satisfeito quando me dou conta de que tenho duas profissões, não uma. A medicina é a minha esposa legal, a literatura a minha amante.”
“Quando canso de uma, passo a noite com a outra. Pode não ser uma situação habitual, mas evita a monotonia; ademais, nenhuma delas sai perdendo com minha infidelidade. Se não tivesse minha atividade médica, dificilmente poderia consagrar à literatura minha liberdade de espírito e meus pensamentos perdidos.”
Outro nome lembrado é o de A. J. Cronin, autor do clássico “A Cidadela”, de temática tão atual como nunca.
Por outro lado, grandes escritores da humanidade utilizaram temas médicos em suas obras. Assim fez Shakespeare em Macbeth, Romeu e Julieta e Hamlet. Machado de Assis em O Alienista, Flaubert em Madame Bovary e Molière em O Doente Imaginário.
No Brasil, volto ao século XIX com Manoel Antônio de Almeida, médico escritor que publicou A Moreninha e Memórias de um Sargento de Milícias, um dos mais famosos romances de costumes da história da literatura brasileira. Não é sem motivo que o escritor carioca é patrono da Academia Brasileira de Médicos Escritores – ABRAMES.
Destaco Guimarães Rosa, um dos nossos mais festejados escritores, autor de obras como Sagarana e Grande Sertão: Veredas, que se formou na Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais, sendo que chegou a ser oficial médico militar. E Moacyr Scliar, gaúcho que cursou medicina na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com especialização em Saúde Pública, um dos mais produtivos autores nacionais, de obras portentosas como A Majestade do Xingu, O Imaginário Cotidiano e A Paixão Transformada. Neste último livro, Moacyr Scliar reúne e comenta trechos de textos que, ao longo da história, registraram opiniões e fatos relativos à doença e à cura.
Ao fazê-lo, com a acuidade de sempre e o humor contido que caracteriza sua prosa, resgata momentos privilegiados que assinalaram a trajetória da medicina e da luta do ser humano contra a doença. Diz ele: “A história da medicina é uma história de vozes. As vozes misteriosas do corpo: o sopro, o sibilo, o borborigmo, a crepitação, o estridor. As vozes inarticuladas do paciente: o gemido, o grito, o estertor. As vozes articuladas do paciente: a queixa, o relato da doença, as perguntas inquietas. A voz articulada do médico: a anamnese, o diagnóstico, o prognóstico. Vozes que falam da doença, vozes calmas, vozes revoltadas. Vozes que se querem perpetuar: palavras escritas em argila, em pergaminho, em papel. Vozerio, corrente ininterrupta de vozes que flui desde tempos imemoriais.”
Em Sergipe, essa participação de médicos na literatura não científica também é expressiva. Nomes como Rodrigues Dória, Edilberto Campos, Ranulpho Prata, Abreu Fialho, Augusto Leite, Garcia Moreno, Renato Mazze Lucas, Antônio Garcia, José Abud e Aírton Teles podem ser reverenciados, só para citar os mais antigos.
Todo esse introito é pano de fundo para anunciar, com alegria, o lançamento, agora em 15 de agosto, a partir das 18h, no Alquimia Cultural, do meu novo livro Pessoas, Fatos e Circunstâncias, um relato descontraído, leve e solto de crônicas escritas ao longo dos anos, de vidas que se entrelaçaram à minha, e ainda se entrelaçam, de fatos que me impressionaram em variados contextos e situações, e que compartilho agora com vocês, leitores.
É o universo ampliado dessa dupla militância. Somente na Academia Sergipana de Letras, que integro com grande orgulho, estão os médicos Francisco Rollemberg, o nosso decano, seguido do poeta José Abud, do escritor e cientista Eduardo Garcia, do escritor e poeta Marcelo Ribeiro, do latinista Marcos Almeida, além dos colegas Paulo Amado, Antonio Carlos Sousa, José Aderval Aragão e José Geraldo Bezerra. Trata-se de uma expressiva presença, que ilustra e dignifica a Casa de Tobias Barreto.
O famoso pintor espanhol Pablo Picasso dizia que há dois tipos de artista: os que transformam o sol numa simples mancha amarela e aqueles que fazem de uma simples mancha amarela o próprio sol.
Por trazerem a sensibilidade para a literatura, muitas vezes como fruto da prática diária da profissão, seus medos e anseios, o contato com a linha tênue que separa a vida da morte, o sofrimento e a dor, eles podem muito bem se enquadrar nessa segunda condição.
Lúcio Antônio Prado Dias integra as Academias de Medicina e de Letras e preside atualmente a Sociedade Brasileira de Médicos Escritores – Regional Sergipe.
