“Preciso rever a minha Fonte da Mata, para lavar minh’Alma!” (Wens)
Nunca lamentei o passar dos anos. Ao contrário, sempre compreendi o envelhecimento como um privilégio, uma dádiva concedida àqueles que têm a ventura de percorrer longamente os caminhos da vida. Foram 76 anos diante do espelho, acompanhando, sem medo, o surgimento das rugas, as marcas do tempo e as mudanças que a vida, generosamente, foi inscrevendo em meu rosto. Cada uma delas guarda uma história; cada história, uma lembrança; e cada lembrança, a certeza de que valeu a pena viver. Ainda bem que fui agraciado. E, agora que chego aos 76, quero continuar vivendo com a mesma curiosidade, o mesmo encantamento e, sobretudo, com a alegria de repartir a vida com aqueles que amo.
Aos meus maravilhosos netinhos, continuarei contando histórias de monstros e encantamentos: Lobisomem, Saci-Pererê, Mula-sem-cabeça, Múmia Paralítica, Lobo-Bom e Lobo-Mau. E também lhes apresentarei as figuras singulares e alegres das minhas antigas Aldeias: Óiaprucéu, Tapioca-cadê-o-ôvo, Deusinho, Ana Bêba, Ana da Estação, Mudinho, Piri-Piri, Valtinho dos Retratos e Tô-te-Ajeitando. Haverá ainda muito “campeonato de coceira”, o inesquecível “dedo-mindinho” e, naturalmente, os nossos banhos de “kriptonita” na Fonte da Mata.
E, quem sabe, depois de tudo isso, possamos juntos contemplar o mundo com olhos mais leves, ver desaparecer algumas de suas mazelas e terminar a tarde com aquelas gargalhadas homéricas que somente a infância e o afeto conseguem produzir. Aos meus diletos amigos, faço também algumas promessas: Prometo ser ainda mais amigo dos meus amigos. Prometo adiar, por muitos anos, a aposentadoria. Prometo trabalhar até os noventa e um e, se Deus permitir, descansar nos catorze restantes.
E, já que a imortalidade não nos foi concedida, farei questão de honrar cada amanhecer e cada entardecer. Continuarei, da minha varanda, contemplando o nascimento do dia e, ao fim da tarde, assistindo ao pôr do sol — pelo tempo que for, enquanto dure.
Porque eterno, talvez, não seja aquilo que permanece para sempre. Eterno é aquilo que, por um instante, alcança a plenitude. É a flor que se desfaz justamente quando floresce.
É o riso do Bentinho, ao sorrir. É o “fantasminha” do Lukinha, a nos amedrontar. É a doçura da Marina, a brilhar. É a inteligência do Fipinho, do Janjão e do Pedrinho, a orbitar em torno de nossas vidas.
E é, acima de tudo, a voz dos filhos que, ainda hoje, consegue transformar qualquer idade em infância:
“Bença, Paiê.” Aos 76 anos, não quero contar o tempo que passou. Quero celebrar o tempo que me foi concedido.
Quero agradecer pelas pessoas que encontrei, pelos caminhos que percorri, pelas alegrias que vivi, pelas dores que me ensinaram e, sobretudo, pelo privilégio de continuar tendo motivos para amar, trabalhar, sonhar, sorrir e agradecer. E quando sentir que preciso novamente lavar a alma, saberei exatamente para onde voltar: à minha Fonte da Mata.
Porque algumas fontes não servem apenas para matar a sede. Servem para nos devolver a nós mesmos.
Com meu abraço fraterno e meu carinho, W. E. N. Soares 7 de outubro de 2026
Dr. William Eduardo Nogueira Soares – é oncologista e radioterapeuta. Membro da Sobrames Sergipe.

