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Morte súbita em atletas: antes e durante a pandemia da covid-19

A prática regular de exercício físico (EF) tem sido preconizada pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e congêneres pelo mundo afora, visando promover a saúde física e mental, e a redução das doenças cardiovasculares (DCV), notadamente o infarto agudo do miocárdio e o acidente vascular cerebral (derrame), responsáveis por, aproximadamente, 31% das mortes no Brasil e no mundo. As pessoas devem fazer tanto os EF aeróbicos (caminhada, ciclismo, natação) como os de fortalecimento muscular (faixas elásticas, pesos, peso corporal etc.). Os portadores de cardiopatias também devem se exercitar, seguindo orientações médicas. Os exercícios de alongamento e posturais, como o Pilates e a Yoga, também trazem benefícios para o coração. É recomendada a realização de 30 min/dia (5 x semana) de EF aeróbicos moderados, ou de 75 min/dia (3 x semana) de EF intensos; já os de fortalecimento muscular devem ser praticados duas vezes na semana. Vale ressaltar, ainda, que a progressão da intensidade do EF deve ser gradual.

Por outro lado, evidências robustas ressaltam a correlação entre infecções, particularmente aquelas que envolvem o sistema respiratório, e um risco elevado de eventos cardiovasculares e cerebrovasculares, bem como de mortalidade. Os mecanismos pelos quais as infecções aumentam os eventos cardiovasculares são complexos, abrangendo ativação do sistema imunológico, inflamação sistêmica, estados pró-trombóticos, ativação do sistema simpático e aumento da demanda miocárdica de oxigênio. As infecções respiratórias contribuem, ainda, com a hipoxemia (diminuição dos níveis de oxigênio no sangue arterial), para apimentar essa interação complexa. Esses mecanismos se entrelaçam, dando origem à disfunção endotelial (o endotélio é uma espécie de “pele” que reveste, internamente, os vasos sanguíneos), que pode instigar novos eventos cardiovasculares ou exacerbar condições preexistentes. Evidências convincentes apoiam a segurança das vacinas contra influenza, pneumococo, herpes zoster, covid-19 e vírus sincicial respiratório, naqueles com fatores de risco cardiovascular ou DCV estabelecida.

Todavia, durante a pandemia de covid-19, as redes sociais ficaram eivadas de relatos, oriundos, sobretudo, de grupos negacionistas, alertando para o risco aumentado de miocardite (inflamação do músculo cardíaco) e de morte súbita, em jovens atletas que contraíram o vírus. Na mesma toada, uma série de reportagens também insinuou que as vacinas, sobretudo as que usam a moderna tecnologia de RNA mensageiro (mRNA), seriam as principais responsáveis por ocorrência de eventos fatais em jovens.

Foi recém-publicado, no conceituado periódico JAMA Network Open (2025;8:e2461327), um artigo cujo objetivo foi o de comparar a prevalência de parada cardiorrespiratória (PCR), ressuscitada com sucesso e confirmada por análise de prontuários médicos, ou de morte súbita cardíaca (MSC), confirmada por necrópsia, em atletas jovens, nos 3 anos anteriores à pandemia com os 3 primeiros anos da pandemia, usando dados do Centro Nacional de Pesquisa de Lesões Esportivas Catastróficas. Os autores constataram que não houve nenhuma diferença entre o número de mortes e de ataques cardíacos não fatais nos dois períodos analisados: 203 (2017-2019) e 184 (2020-2022). Interessante que a miocardite, complicação que ocorre com certa frequência em portadores de covid-19, foi a responsável pela morte de apenas três atletas no período pré-pandêmico e de quatro durante a pandemia.

Portanto, nem o citado estudo, nem outros, também publicados em revistas médicas conceituadas (DOI: 10.1161/CIRCULATIONAHA.122.063753; DOI: 10.1136/bjsports-2023-106847), encontraram evidências de aumento do risco de PCR e de MS em atletas de competição jovens causado pelas vacinas mRNA (Pfizer e Moderna).

Parafraseando o escritor e humorista estadunidense Samuel Langhorne Clemens, mais conhecido pelo pseudônimo Mark Twain: “Nenhuma quantidade de evidências será suficiente para convencer um extremista”.

Antônio Carlos Sobral Sousa – é Professor Titular da UFS e Membro das Academias Sergipanas de Medicina, de Letras, de Educação, Estanciana de Letras e Riachuelense de Letras, Ciências e Artes

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