A vida é uma travessia contínua, um fluxo ininterrupto de experiências que se sucedem com a mesma naturalidade com que o tempo avança. Tudo nela se move, tudo nela se transforma. Nada permanece intacto, pois a própria essência da existência está na impermanência. Aquilo que hoje parece sólido, amanhã pode se dissolver; aquilo que hoje nos toca profundamente, em outro momento pode apenas ecoar como uma lembrança distante. Nesse sentido, compreender que tudo passa não é um gesto de resignação, mas de lucidez.
No entanto, há uma distinção sutil e profundamente humana entre aquilo que passa e aquilo que se esquece. O tempo, com sua marcha silenciosa, leva consigo circunstâncias, rostos, dores e alegrias, mas não possui o poder absoluto de apagar as marcas que certos instantes deixam na consciência. Há experiências que se fixam não como acontecimentos, mas como significados. E o que é significado não se perde com facilidade, pois se integra ao próprio modo de ser de quem viveu.
A memória, portanto, não é apenas um depósito de fatos, mas um campo onde se cultivam sentidos. Ela seleciona, reorganiza, transforma. Nem tudo o que foi vivido permanece, mas aquilo que permanece ganha novas formas. Uma dor antiga pode deixar de ferir, mas ainda ensinar; uma alegria pode não mais se repetir, mas continuar iluminando o presente. Assim, o esquecimento não é ausência, mas uma espécie de transmutação. Existe também uma dimensão ética nesse processo. Aquilo que não se esquece frequentemente está ligado ao que nos afetou de maneira mais profunda — seja pela intensidade do afeto, seja pela força do impacto. São essas experiências que moldam escolhas futuras, que orientam decisões e que, muitas vezes, definem a maneira como se olha o mundo. O que não se esquece torna-se, de certo modo, um guia silencioso.
Entretanto, a permanência da lembrança não implica imobilidade. Ao contrário, ela exige elaboração. Carregar o que não se esquece pode ser tanto um peso quanto uma fonte de sabedoria. Quando não há reflexão, a memória aprisiona; quando há compreensão, ela liberta. A diferença está na capacidade de atribuir novos sentidos ao que foi vivido, de integrar o passado sem se tornar refém dele.
Há também uma beleza discreta nesse paradoxo. Se tudo passasse e tudo fosse esquecido, a vida seria desprovida de profundidade. Seria uma sucessão de instantes vazios, incapazes de construir qualquer continuidade. Por outro lado, se nada passasse e nada fosse esquecido, a existência se tornaria insuportável, sobrecarregada por um acúmulo infinito. A condição humana encontra seu equilíbrio justamente entre essas duas forças: o fluxo que dissolve e a memória que preserva.
Viver, então, é aprender a transitar entre o deixar ir e o guardar. É reconhecer que algumas coisas devem partir para que outras possam surgir, mas também aceitar que certas marcas fazem parte da própria identidade. O esquecimento seletivo e a lembrança significativa não são falhas, mas mecanismos essenciais de adaptação e crescimento.
Assim, ao afirmar que tudo passa, mas nem tudo se esquece, revela-se uma verdade fundamental: a vida não se define apenas pelo que acontece, mas pelo modo como aquilo que acontece permanece em quem vive. O tempo pode levar os eventos, mas o sentido que deles se extrai continua a reverberar, silencioso e persistente, naquilo que se é.
Dr. Aderval Aragão – é médico e cirurgião vascular

