Publicidade Hospital de Cirurgia: há 100 anos cuidando da saúde dos sergipanos Hospital de Cirurgia: há 100 anos cuidando da saúde dos sergipanos

Perder anos de vida não é natural!

Evidências robustas demonstram, de forma indiscutível, que fumar causa câncer e doenças cardiovasculares. Como afirmou Sir Richard Doll, pioneiro na pesquisa sobre os malefícios do tabaco, “A morte na velhice é inevitável, mas a morte antes da velhice não é.” Essa afirmação sintetiza, com precisão científica e impacto moral, uma das verdades mais sólidas da medicina contemporânea: o tabagismo permanece como o fator de risco isolado mais evitável, responsável por expressiva parcela das mortes prematuras, das incapacidades e de profundo sofrimento humano em escala global. Mesmo com avanços extraordinários na medicina diagnóstica e terapêutica, nenhum recurso disponível consegue neutralizar completamente o efeito devastador do cigarro sobre o organismo. O tabagismo é reconhecido, há décadas, como causa direta de múltiplos tipos de câncer — não apenas o de pulmão, frequentemente lembrado, mas também os tumores de boca, esôfago, laringe, bexiga, pâncreas e vários outros. Isso se deve ao amplo conjunto de substâncias tóxicas presentes na fumaça do cigarro, especialmente alcatrão, nitrosaminas e hidrocarbonetos aromáticos policíclicos. Esses agentes são capazes de produzir mutações celulares progressivas que culminam na formação de tumores malignos. O risco aumenta conforme a intensidade e a duração do hábito, reforçando a urgência de cessar o consumo — lembrando sempre que, embora o ideal seja parar cedo, nunca é tarde para deixar de fumar.

No sistema cardiovascular, os danos são igualmente extensos e alarmantes. Fumar desencadeia inflamação sistêmica, aumenta a agregação plaquetária, acelera a formação de placas ateroscleróticas e provoca disfunção endotelial, tornando as artérias mais rígidas e vulneráveis à obstrução. Não surpreende, portanto, que o cigarro esteja intimamente relacionado ao infarto agudo do miocárdio, ao acidente vascular cerebral isquêmico, à doença arterial periférica e ao aneurisma de aorta. Estimativas internacionais mostram que mais de um terço das mortes cardiovasculares em adultos jovens tem relação direta com o tabagismo.

Quando se afirma que “a morte na velhice é inevitável”, admite-se a trajetória natural da vida humana. Porém, esse reconhecimento não pode ser confundido com resignação diante das mortes prematuras, que decorrem, em grande parte das vezes, de fatores modificáveis. A medicina contemporânea é categórica ao demonstrar que comportamentos saudáveis — especialmente a cessação do tabagismo — têm impacto muito mais profundo sobre a longevidade do que qualquer inovação tecnológica isolada. Parar de fumar produz benefícios quase imediatos e progressivos: em 20 minutos, a pressão arterial começa a se normalizar; em 24 horas, o risco de infarto já se reduz; em poucas semanas, a circulação melhora e sintomas respiratórios tornam-se menos intensos. Em perspectiva de longo prazo, os efeitos são ainda mais expressivos: em 10 anos, o risco de câncer de pulmão cai pela metade, e o risco cardiovascular se aproxima do de indivíduos que nunca fumaram. Poucas decisões pessoais têm impacto tão direto e quantitativamente mensurável na expectativa e na qualidade de vida.

Entretanto, abandonar o cigarro não é um simples exercício de vontade. O tabagismo caracteriza-se como dependência química complexa, envolvendo mecanismos neurobiológicos relacionados ao prazer, ao alívio da ansiedade e à memória. Por isso, o tratamento eficaz requer abordagem estruturada, que pode incluir acompanhamento profissional, intervenções comportamentais, terapias cognitivo-comportamentais, reposição de nicotina, medicamentos específicos e suporte familiar e social contínuo. Sob a perspectiva coletiva, políticas públicas de controle do tabaco têm salvado incontáveis vidas. Campanhas educativas, ambientes livres de fumaça, aumento de impostos, restrições de marketing e advertências sanitárias produziram impacto três vezes maior do que a maioria das intervenções tradicionais em saúde pública. Contudo, novos desafios emergem com a popularização dos cigarros eletrônicos e dispositivos aquecidos. Embora frequentemente vendidos como alternativas “menos nocivas”, evidências recentes indicam que também causam danos cardiovasculares e respiratórios significativos, além de expor adolescentes a um risco elevado de dependência.

A reflexão proposta por Sir Richard Doll possui também forte dimensão ética e social. Cada morte prematura atribuída ao tabagismo representa uma ruptura evitável — uma vida interrompida antes do curso natural, um vazio em uma família, um custo emocional e econômico para a sociedade. A prevenção, portanto, não é apenas um ato pessoal de autocuidado, mas um imperativo coletivo de responsabilidade sanitária. Promover um envelhecimento saudável envolve, necessariamente, estimular hábitos protetores: prática regular de exercícios físicos, alimentação equilibrada, controle rigoroso da pressão arterial, manejo adequado do estresse, sono reparador e avaliações médicas periódicas. Contudo, entre todas essas ações, abandonar o cigarro talvez seja a medida isolada que mais devolve anos de vida ao indivíduo.

Em síntese, fumar causa câncer, doenças cardíacas e uma ampla gama de complicações graves. Mas morrer por isso antes da velhice não é um destino inexorável — é uma consequência evitável. Superar o tabagismo é uma escolha de coragem, lucidez e amor à vida. Como profissionais de saúde, educadores e cidadãos, nossa tarefa é transformar conhecimento em ação, prevenção em prioridade e longevidade em conquista.

Antônio Carlos Sobral Sousa – Professor Titular da UFS e Membro das Academias Sergipanas de Medicina, de Letras e de Educação

Publicidade Hospital de Cirurgia: há 100 anos cuidando da saúde dos sergipanos Hospital de Cirurgia: há 100 anos cuidando da saúde dos sergipanos