QUANDO TRÊS REMÉDIOS NÃO BASTAM

Prof. Dr. Sousa

Médico cardiologista

Há doenças que se anunciam com estardalhaço — dor, febre, falta de ar. Outras, no entanto, preferem o silêncio. Instalam-se sem pedir licença, avançam sem alarde e, quando percebidas, já deixaram marcas profundas.

A hipertensão arterial pertence a essa segunda categoria: uma presença discreta, mas implacável.

E, dentro dela, há uma forma ainda mais desafiadora — a chamada hipertensão resistente, condição em que a pressão arterial permanece elevada (≥130/80 mmHg) apesar do uso de três classes de anti-hipertensivos, em doses adequadas, incluindo diurético.

Seu diagnóstico exige excluir causas como má adesão ao tratamento, efeito do “jaleco branco” e hipertensão secundária. Está associada a maior risco cardiovascular e requer abordagem intensiva, com ajustes terapêuticos e mudanças no estilo de vida.

Vivemos em um tempo em que a medicina avançou de forma extraordinária. Temos fármacos potentes, diretrizes robustas e tecnologias diagnósticas refinadas.

Ainda assim, uma parcela significativa de pacientes permanece com níveis pressóricos elevados, mesmo sob tratamento adequado.

Estima-se que cerca de 20% dos hipertensos em tratamento apresentem a forma “aparente” de resistência, e aproximadamente 10% tenham, de fato, hipertensão resistente verdadeira.

É como se, apesar de todo o arsenal terapêutico, a pressão insistisse em não ceder — um lembrete de que o organismo humano não se submete facilmente a simplificações.

Mas talvez o maior ensinamento dessa condição não esteja apenas na sua fisiopatologia complexa, e sim naquilo que ela revela sobre o modo como vivemos.

A hipertensão resistente não é apenas um problema farmacológico; é, antes de tudo, um reflexo de múltiplos fatores entrelaçados: excesso de sal, sedentarismo, obesidade, consumo de álcool, distúrbios do sono, adesão irregular ao tratamento.

É a expressão clínica de um estilo de vida que, muitas vezes, se afasta do equilíbrio.

Curiosamente, antes de se rotular um paciente como portador de hipertensão resistente, é preciso excluir o que chamamos de “ilusões diagnósticas”.

Há aqueles cuja pressão se eleva apenas no consultório — o chamado efeito do jaleco branco. Outros, por razões diversas, não utilizam corretamente as medicações prescritas.

E há ainda as causas secundárias, como o hiperaldosteronismo ou a apneia do sono, que silenciosamente sustentam níveis pressóricos elevados.

Em medicina, como na vida, nem tudo é o que parece à primeira vista.

Quando confirmada, porém, a hipertensão resistente carrega consigo um peso prognóstico significativo.

O risco cardiovascular é substancialmente maior, traduzindo-se em maior probabilidade de infarto, acidente vascular cerebral e morte ao longo dos anos.

Não se trata apenas de números em um aparelho; trata-se de vidas que podem ser encurtadas por um inimigo invisível.

E, no entanto, há algo profundamente alentador nesse cenário. Ao contrário de muitas doenças, em que a intervenção depende exclusivamente de recursos sofisticados, aqui o essencial permanece, em grande parte, ao alcance das escolhas cotidianas.

Reduzir o sal, caminhar regularmente, cuidar do peso, dormir melhor, moderar o álcool — medidas simples, quase elementares, mas de impacto poderoso.

Em tempos de medicina de alta complexidade, a hipertensão resistente nos reconecta com o valor das atitudes básicas.

No campo terapêutico, os avanços também são notáveis.

A otimização do uso de diuréticos, a introdução de antagonistas da aldosterona — como a espironolactona — e, mais recentemente, estratégias intervencionistas como a denervação renal, ampliam as possibilidades de controle.

A ciência, mais uma vez, mostra sua capacidade de reinventar caminhos onde antes havia impasses.

Mas talvez o aspecto mais instigante da hipertensão resistente seja seu simbolismo.

Ela nos lembra que o corpo humano não é apenas um conjunto de órgãos e sistemas, mas um reflexo da interação entre biologia, comportamento e ambiente.

Cada milímetro de mercúrio elevado pode carregar, em si, fragmentos de hábitos, emoções e contextos sociais.

Em última análise, a hipertensão resistente é menos um fracasso terapêutico e mais um convite à compreensão ampliada da saúde.

Um chamado para olhar além da prescrição, além dos números, além do imediato.

Como escreveu o filósofo francês Blaise Pascal, “o coração tem razões que a própria razão desconhece”.

Talvez possamos dizer o mesmo da pressão arterial: ela também revela, em silêncio, aquilo que muitas vezes insistimos em não ouvir.

E assim, entre cifras, diretrizes e evidências, permanece uma verdade essencial: cuidar da pressão é, em grande medida, cuidar da vida — em sua plenitude, em sua complexidade e, sobretudo, em sua delicada capacidade de equilíbrio.

Segundo o filósofo alemão Arthur Schopenhauer: “A saúde não é tudo, mas sem ela, tudo é nada.”

Prof. Dr. Antônio Sobral Sousa – professor Titular da UFS, Membro das Academias Sergipanas de Medicina, de Letras e de Educação.

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