
O envelhecimento da população brasileira avança em ritmo acelerado, mas um desafio acompanha essa transformação demográfica: garantir que viver mais também signifique viver com dignidade, autonomia e saúde mental. Dados recentes da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos reforçam esse alerta. Entre janeiro e maio deste ano, o país registrou mais de 92 mil denúncias e 536 mil violações de direitos contra pessoas idosas. Em comparação ao mesmo período de 2025, foram aproximadamente 20 mil denúncias e 117 mil violações a mais.
Embora parte desse crescimento acompanhe o aumento da população idosa, especialistas apontam que os números revelam uma realidade preocupante, marcada por violência, abandono, negligência, isolamento e violações que comprometem diretamente a saúde mental dessa população. Para a enfermeira, mestre em Psicologia e pesquisadora Chenya Coutinho, compreender a saúde mental da pessoa idosa exige ampliar o olhar para além das doenças.
“A saúde mental não pode ser compreendida apenas pela ausência de transtornos psíquicos. Ela está profundamente relacionada às condições de vida, aos vínculos familiares e comunitários, ao respeito aos direitos e à possibilidade de continuar participando ativamente da sociedade. Quando esses elementos são fragilizados, o sofrimento emocional aparece, muitas vezes de forma silenciosa”, explica.
VIOLÊNCIA SILENCIOSA COMPROMETE O BEM-ESTAR
Segundo a especialista, a violência contra a pessoa idosa ultrapassa as agressões físicas. Maus-tratos psicológicos, abandono, negligência, violência patrimonial e financeira e o isolamento social provocam impactos importantes sobre o equilíbrio emocional.
“Nessas situações, é comum observar tristeza persistente, ansiedade, perda da autoestima, alterações no sono, dificuldades cognitivas e um aumento do risco para quadros depressivos. Muitas vezes, essas violências acontecem dentro do ambiente familiar e permanecem invisíveis porque a pessoa depende financeiramente dos familiares ou teme romper os vínculos afetivos”, destaca Chenya.
Ela lembra que o envelhecimento saudável depende não apenas do acesso aos serviços de saúde, mas também da preservação da autonomia, da convivência social e do sentimento de pertencimento.

Outro aspecto frequentemente negligenciado é o consumo abusivo de bebidas alcoólicas entre idosos. Embora ainda exista a percepção de que esse seja um problema predominantemente entre pessoas jovens, a realidade é diferente. Mudanças importantes na vida, como aposentadoria, luto, solidão, limitações físicas e doenças crônicas, podem favorecer o aumento do consumo de álcool como tentativa de aliviar o sofrimento emocional.
“O álcool pode oferecer uma sensação momentânea de alívio, mas acaba agravando quadros de ansiedade e depressão, além de aumentar o risco de quedas, comprometer o controle de doenças crônicas e interferir na ação de diversos medicamentos. O cuidado deve ocorrer sem julgamentos, com acolhimento e estratégias de redução de danos, respeitando a singularidade de cada pessoa”, afirma a pesquisadora.
ATENÇÃO PRIMÁRIA É PORTA DE ENTRADA PARA O CUIDADO
A Atenção Primária à Saúde desempenha papel estratégico na promoção da saúde mental da população idosa. Durante visitas domiciliares e atendimentos nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), agentes comunitários e equipes multiprofissionais conseguem identificar sinais precoces de sofrimento emocional que frequentemente passam despercebidos.
Entre eles estão o isolamento social, mudanças bruscas de comportamento, abandono de atividades anteriormente prazerosas, dificuldades no autocuidado e possíveis situações de violência ou uso abusivo de álcool.
“Os profissionais da Atenção Primária têm uma posição privilegiada porque acompanham o território e conhecem a realidade das famílias. Muitas vezes, são os primeiros a identificar situações de vulnerabilidade e podem articular um cuidado integral, fortalecendo vínculos, promovendo acolhimento e acionando a rede de proteção quando necessário”, ressalta Chenya.
ENVELHECER BEM É UMA CONSTRUÇÃO COLETIVA
Especialistas defendem que proteger a saúde mental durante o envelhecimento passa por ações que vão muito além do atendimento especializado. Manter relações familiares e comunitárias, participar de grupos sociais, praticar atividades físicas, desenvolver novos aprendizados e preservar a autonomia são fatores reconhecidos como protetores do bem-estar emocional.
Para Chenya Coutinho, a discussão sobre saúde mental da pessoa idosa precisa estar integrada às políticas públicas de proteção social e aos direitos humanos. “Precisamos compreender que envelhecer com qualidade de vida não depende apenas dos serviços de saúde. É resultado de uma sociedade que combate a violência, fortalece vínculos, garante participação social e reconhece a pessoa idosa como sujeito de direitos. Promover saúde mental é assegurar que essas pessoas continuem vivendo com respeito, autonomia, pertencimento e dignidade”, conclui.
Diante do aumento das denúncias de violações de direitos em todo o país, especialistas reforçam que o cuidado em saúde mental deve ser entendido como uma responsabilidade compartilhada entre famílias, comunidades, serviços públicos e toda a sociedade. Afinal, viver mais representa uma conquista coletiva, mas envelhecer com dignidade, participação e qualidade de vida deve ser um direito garantido a todos.


