Em entrevista especial, Antero Alves da Cunha Neto, coordenador do CVV – posto Aracaju, destacou a relevância do Setembro Amarelo como um momento de ampliar o diálogo sobre saúde mental. Ele ressaltou que o Centro de Valorização da Vida oferece atendimento anônimo, gratuito e disponível 24 horas por dia, com voluntários preparados para ouvir e acolher quem atravessa momentos de fragilidade. Para Antero, falar sobre os sentimentos é um passo essencial na prevenção do suicídio, e o CVV está sempre de portas abertas para cumprir essa missão.

Saúde em Dia: Qual é a principal missão do CVV?
Antero Alves: A principal missão é oferecer apoio emocional. Ofertar às pessoas que estão precisando, que têm um desconforto emocional, uma boa conversa, para que, ao colocar pra fora aquilo que está lhe verdade, deixando-as tristes, elas possam se sentir cada vez melhor.
Saúde em Dia: Como funciona o atendimento prestado pelos voluntários?
Antero Alves: A pessoa liga o número 188. É um número nacional, e mesmo ligando daqui de Aracaju essa ligação poderá cair em qualquer lugar do país. E um voluntário do CVV irá atender, ele está treinado, qualificado para conversar com a outra pessoa, que está triste, depressiva, ansiosa, estressada. O CVV vai dizer: bom dia, boa tarde ou boa noite, e a pessoa vai se identificar se quiser, e a pessoa vai dizer que quer conversar. E a partir daí um bom diálogo é desenvolvido para que possa oportunizar àquela pessoa que ligou um desabafo, e isso vai fazer com que ela se sinta cada vez melhor.
Saúde em Dia: Quais canais a população pode utilizar para entrar em contato com o CVV?
Antero Alves: Através do e-mail, através do chat e através do número 188, o mais utilizado hoje. No site do CVV já tem um chat e as pessoas que se sentem melhor teclando podem ir pra lá e conversar com um voluntário 24 horas.
Saúde em Dia: Em média, quantas pessoas procuram o CVV por dia?
Antero Alves: Por dia são 15 mil ligações nacionalmente.
Saúde em Dia: O CVV atua apenas em situações de crise ou também presta apoio contínuo?
Antero Alves: Atua como um pronto socorro 24 horas. As pessoas que estão em crise, que ligam para o CVV, que querem conversar. Esse atendimento contínuo depende da pessoa. Quem procurar sempre vai ter alguém para conversar.
Saúde em Dia: Quem pode se tornar voluntário do CVV?
Antero Alves: Pessoas a partir de 18 anos e que tenham uma disponibilidade de 3 horas semanais. Se eu tenho 18 anos e esse tempo para ajudar alguém, para servir alguém nessa missão do bem, então eu posso ser candidato a voluntário do CVV. Esse processo nós chamamos de Processo Seletivo de Voluntário (PSV). A pessoa se inscreve através do site, aqui geralmente é em março. Nós divulgamos nas redes sociais, televisão e emissoras de rádio.
Saúde em Dia: Qual é o preparo ou treinamento que os voluntários recebem?
Antero Alves: Os voluntários recebem um treinamento de acolher o outro, de serem empáticos, de estar ali disposto para ouvir com empatia, profundamente, pessoas que ligam para o CVV com o objetivo de desabafarem, porque muitas vezes não são ouvidos na família, na sociedade, são pessoas que estão na solidão, que estão se sentindo tristes. Então o voluntário recebe um treinamento para acolher essas pessoas, sem julgamentos, porque a sociedade está cheia desses julgamentos. Ligou para o CVV, lá o voluntário vai estar qualificado e treinado para lhe atender sem esse julgamento.
Saúde em Dia: O que motiva as pessoas a se engajarem como voluntários?
Antero Alves: A gente tem observado um índice cada vez maior de pessoas que cometem suicídio. O que motiva as pessoas é justamente contribuir para uma sociedade que cada vez mais precisa desse acolhimento, e ao perceber isso as pessoas resolvem participar do CVV justamente para acolher essas pessoas, que é uma missão do bem e uma missão muito bonita.
Saúde em Dia: Qual é a importância da escuta ativa para quem está em sofrimento?
Antero Alves: No CVV a gente atende pessoas que ligam muitas vezes chorando de soluçar, muitas vezes de madrugada. E a importância da escuta para essas pessoas é justamente saber que elas não estão sozinhas. A partir do momento que a pessoa está ligando para o CVV o voluntário diz: a partir de agora você não está só! Eu estou aqui para lhe acolher! A importância da escuta ativa de quem está em sofrimento é saber que existe alguém para lhe ouvir, para estar com ela naquele momento difícil sem julgar ela. Existe alguém para acompanhar passo a passo aquela situação que ela está vivendo. Por isso que os índices de ligações só aumentam.
Saúde em Dia: Como identificar sinais de que alguém próximo pode precisar de ajuda?
Antero Alves: Você conhece uma pessoa que é extrovertida, que está ali participando das brincadeiras, uma pessoa sempre alegre, sempre ativa, de repente você percebe que essa pessoa agora está triste, cabisbaixa, já não fala mais, passou a faltar no trabalho, não conversa mais, ou quando fala palavras como: queria sair e não voltar mais! Eu tô me sentindo tão triste! Essa vida não vale a pena! Esses sinais são um alerta e você pode chegar para essa pessoa e pedir para conversar. Quer falar sobre algo? Estou percebendo que você está triste… Esse simples gesto cria uma simpatia e faz com que a pessoa possa até se aproximar e colocar para fora aquilo que está angustiando. Basicamente são esses os sinais. 80% dos casos de suicídio poderiam ser evitados, basta que a gente possa ter um contato com essas pessoas e possamos conversar com elas. O suicida não quer tirar a vida, ele quer matar a dor. Ele precisa na verdade de uma conversa, uma terapia, pois o CVV não substitui a terapia, mas o CVV oferta essa parceria e escuta profunda. Então, são pessoas que mudaram o comportamento.
Precisa conversar? O CVV atende gratuitamente, 24 horas por dia, pelo telefone 188 e pelo chat no site cvv.org.br.

