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Vacinação contra a covid-19 ‐ uma abordagem baseada em evidências

Evidências convincentes ressaltam a correlação entre infecções, particularmente aquelas que envolvem o sistema respiratório, e um risco elevado de eventos cardiovasculares e cerebrovasculares, bem como de mortalidade. Os mecanismos pelos quais as infecções aumentam os eventos cardiovasculares são complexos, abrangendo ativação do sistema imunológico, inflamação sistêmica, estados pró-trombóticos, ativação do sistema simpático e aumento da demanda miocárdica de oxigênio. As infecções respiratórias contribuem, ainda, com a hipoxemia (diminuição dos níveis de oxigênio no sangue arterial), para apimentar essa interação complexa. Esses mecanismos se entrelaçam, dando origem à disfunção endotelial (espécie de “pele”, que reveste, internamente, os vasos sanguíneos), que pode instigar novos eventos cardiovasculares ou exacerbar condições preexistentes.

Segundo a política atual de vacinação nos Estados Unidos, a cada outono, doses de reforço da vacina contra a covid-19 são desenvolvidas, juntamente com as vacinas contra a gripe sazonal, e são recomendadas para toda a população.

Todavia, nos últimos dois anos, menos de 25% dos americanos receberam reforços anuais, segundo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC). Essa hesitação, tem promovido um efeito em cascata, com diminuição da confiança do público na vacinação em geral, que tem afetado até mesmo programas de imunização vitais, como o da vacinação contra sarampo, caxumba e rubéola (MMR), que foi claramente comprovada como segura e altamente eficaz. Nos últimos anos, as taxas reduzidas de vacinação tríplice viral têm contribuído para o surgimento de casos graves e mortes por sarampo. Fenômeno semelhante tem sido registrado, também, aqui no Brasil, trazendo preocupação para as autoridades de saúde.

Vale ressaltar, que a covid-19 se distingue da gripe, em alguns aspectos: o SARS-CoV-2, causador da peste, passou por uma evolução mutacional diferente daquela do vírus da gripe, portanto, a imunidade induzida pela vacina contra a covid-19 pode não exigir atualizações anuais, sobretudo para indivíduos clinicamente sadios; e, a imunidade natural da covid-19 contra as formas graves da doença, parece robusta. Considerando essas premissas, representantes do Food and Drug Administration (FDA), órgão americano semelhante à nossa Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), publicaram, recentemente, no conceituado periódico New England Journal of Medicine, um artigo (DOI: 10.1056/NEJMsb2506929), justificando a conduta regulatória que doravante será adotada pela instituição, para a imunização contra a covid-19. Com base na imunogenicidade – prova de que a vacina pode gerar títulos de anticorpos em pessoas, o FDA admite que dois grupos se beneficiam com o uso das vacinas: os idosos com mais de 65 anos de idade e todos aqueles, com idade superior a seis meses que apresentem fatores de risco (FR) para evolução desfavorável com a virose. Segundo o CDC, os principais FR, são: câncer, AVC, doença coronária, insuficiência cardíaca, miocardiopatias, doenças crônicas do rim, dos pulmões e do fígado, diabetes, HIV, tuberculose, obesidade, sedentarismo, tabagismo (presente ou passado), doenças mentais, doenças cognitivas (Alzheimer, demência senil) e degenerativas (Parkinson) cerebrais, gestação, dentre outras. Estima-se que 33% da população americana (> 100 milhões) será elegível para vacinação.

Por outro lado, para as pessoas sadias – aquelas sem os referidos FR para doença grave e com idades entre seis meses e 64 anos, o FDA enfatiza que a liberação da licença biológica para o uso de vacina contra a covid-19, deve ser respaldada por estudo randomizado e controlado, avaliando desfechos clínicos: sintomas, internamentos e morte. Como não dispomos, ainda, do estudo proposto, e considerando que a nossa população não tem maturidade suficiente para entender as recomendações baseadas na idade e no risco, talvez seja mais sensato manter a política de saúde vigente. Segundo o escritor, inventor e filósofo social estadunidense B. F. Skinner: “A ciência é uma disposição de aceitar os fatos, mesmo quando eles são opostos aos desejos”.

Antônio Carlos Sobral Sousa – professor Titular da UFS e Membro das Academias Sergipanas de Medicina, de Letras, de Educação, Estanciana de Letras e Riachuelense de Letras, Ciências e Artes

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