
Alteração pode estar associada a inflamações, pólipos nasais, infecções virais e traumas; avaliação precoce ajuda a identificar a causa e orientar o tratamento
A perda do olfato durante uma gripe ou um resfriado costuma ser temporária, mas, quando a capacidade de sentir cheiros não retorna mesmo após a melhora dos sintomas, é importante investigar a causa. A anosmia, como é chamada a perda total do olfato, pode estar relacionada a diferentes condições e afetar não apenas a percepção dos aromas, mas também o paladar, a alimentação e a segurança no dia a dia. “Na gripe e no resfriado, a perda do olfato costuma ser mecânica. A mucosa do nariz fica inflamada e inchada, impedindo que as partículas de cheiro cheguem à região responsável por identificá-las. Quando a infecção passa, o olfato geralmente volta em alguns dias ou até uma ou duas semanas”, explica a Dra. Bárbara Salgueiro, otorrinolaringologista do HOPE.
Quando a alteração persiste, porém, o mecanismo pode ser diferente. Em alguns casos, a própria infecção compromete as células responsáveis pela percepção dos cheiros ou as estruturas nervosas envolvidas nesse processo. Segundo a especialista, nas perdas de origem viral, cerca de metade dos pacientes recuperam o olfato nas primeiras seis semanas, embora a melhora possa continuar por até dois anos. “O tempo é um fator importante. A chance de recuperação diminui bastante depois de 18 a 24 meses, por isso não é recomendado esperar indefinidamente para procurar ajuda”, alerta. A covid 19 também evidenciou esse problema, já que parte dos pacientes apresentou perda prolongada do olfato, inclusive sem nariz entupido ou coriza.
Entre as causas mais frequentes da anosmia persistente estão a rinossinusite crônica e os pólipos nasais, formações benignas associadas à inflamação da mucosa. Essas condições podem dificultar a chegada dos odores à região olfatória e, com a inflamação prolongada, prejudicar o funcionamento das células responsáveis pela percepção dos cheiros. Alterações anatômicas, como o desvio de septo, também podem interferir nessa passagem. Já os traumatismos cranianos podem lesionar as fibras nervosas que levam as informações olfatórias ao cérebro. “As infecções virais também podem afetar diretamente as estruturas do olfato. Em algumas situações, além de deixar de sentir cheiros, o paciente passa a percebê-los de maneira distorcida, geralmente desagradável. Essa alteração é chamada de parosmia”, esclarece a médica.
A ausência de congestão nasal não significa que o olfato esteja funcionando normalmente. Pelo contrário, quando a pessoa deixa de sentir cheiros sem apresentar coriza ou obstrução, é preciso considerar a possibilidade de comprometimento das células olfatórias, dos nervos ou das áreas cerebrais relacionadas a essa função. Além das infecções, existem causas menos comuns, como doenças neurológicas degenerativas, efeitos de determinados medicamentos, exposição a substâncias tóxicas e, raramente, tumores. Por isso, a avaliação médica é importante para identificar a origem da alteração e evitar que uma condição tratável passe despercebida.
A recomendação é procurar um otorrinolaringologista quando o olfato não voltar algumas semanas após o desaparecimento dos sintomas respiratórios ou quando a perda surgir e piorar gradualmente sem uma causa aparente. Algumas situações exigem avaliação rápida, como a perda olfatória após uma pancada na cabeça, especialmente quando acompanhada de alterações na visão, fraqueza, confusão ou dor de cabeça diferente do habitual. Sangramentos nasais recorrentes e obstrução persistente de apenas um lado do nariz também precisam ser investigados. “Quando a perda acontece sem sintomas nasais, não devemos simplesmente atribuí-la a um resfriado que ainda não passou. É necessário entender o que está acontecendo e, a partir disso, definir a conduta mais adequada”, orienta a otorrinolaringologista.
A investigação começa com uma conversa detalhada sobre o início e a evolução dos sintomas, possíveis infecções, traumas, uso de medicamentos e exposição a produtos químicos. Em seguida, o médico pode realizar a nasofibroscopia, exame feito com uma câmera fina que permite observar o interior do nariz e identificar inflamações, pólipos e alterações anatômicas. Testes específicos de olfato ajudam a avaliar a capacidade de reconhecer diferentes aromas. Dependendo das suspeitas clínicas, também podem ser solicitadas tomografia dos seios da face ou ressonância magnética para investigar alterações estruturais e possíveis causas neurológicas.
O tratamento varia conforme o diagnóstico e o tempo de evolução. Nos casos de rinossinusite crônica com pólipos, podem ser indicados medicamentos em spray nasal, tratamentos por via oral durante períodos curtos e, quando necessário, cirurgia endoscópica dos seios da face. Para perdas após infecções virais, o treinamento olfatório é uma das estratégias com melhor evidência científica. Ele consiste em cheirar regularmente aromas diferentes, seguindo orientações profissionais, para estimular a recuperação da função olfatória. “Muitos casos podem apresentar melhora, mas a recuperação nem sempre é completa. Quanto mais cedo identificamos a causa e iniciamos o tratamento, maiores são as oportunidades de resposta”, afirma a médica.
Além dos impactos na percepção dos cheiros, a anosmia pode comprometer a experiência alimentar, porque boa parte do que reconhecemos como sabor depende do olfato. A alteração pode reduzir o prazer de comer e levar a pessoa a aumentar o consumo de sal ou açúcar para tentar compensar a perda. Também existem riscos relacionados à dificuldade de perceber fumaça, vazamentos de gás e alimentos estragados, além dos efeitos emocionais e das mudanças na qualidade de vida. “A perda persistente do olfato não deve ser considerada normal. Se os cheiros não voltaram algumas semanas depois de um resfriado ou se a alteração apareceu sem sintomas nasais, procure um otorrinolaringologista. Investigar precocemente é fundamental para identificar a causa e ampliar as possibilidades de recuperação”, conclui a Dra. Bárbara Salgueiro.

