OPINIÃO – COMO SOBREVIVER A 60 DIAS DE FORRÓ?

Dra. Mariela Cometki
Médica infectologista

A melhor época do ano chegou. E com ele uma verdadeira maratona nordestina. São festas, shows, quadrilhas, viagens, comidas típicas, noites mal dormidas e, para muitos, até 60 dias seguidos de programação.

E existe uma pergunta muito importante a se fazer: Por que algumas pessoas atravessam todo o São João praticamente intactas, enquanto outras terminam o mês gripadas, exaustas ou precisando de atendimento médico?

A resposta não está apenas na sorte.

Ela está na forma como o seu sistema imunológico reage ao excesso. Como médica infectologista e referência em imunidade, costumo dizer que o problema não é o forró. O problema é tudo aquilo que vem junto com ele.

Quando você acumula noites curtas de sono, exposição à chuva, excesso de álcool, alimentação desregulada, longos períodos em ambientes fechados e contato próximo com milhares de pessoas, o organismo entra em um estado de desgaste biológico.

E é justamente nesse cenário que vírus respiratórios, infecções intestinais e outras doenças encontram uma oportunidade. Por isso, algumas estratégias simples podem fazer toda a diferença.

A primeira delas é proteger o sono. Muita gente acredita que pode dormir apenas algumas horas durante semanas e recuperar tudo depois. Não funciona assim.

É durante o sono que ocorre uma parte importante da regulação do sistema imunológico. Dormir mal por vários dias seguidos aumenta a produção de hormônios relacionados ao estresse e reduz a capacidade do organismo de responder adequadamente a agentes infecciosos.

A segunda dica é não subestimar a hidratação. E aqui existe um erro muito comum. Quem consome bebida alcoólica costuma acreditar que está ingerindo líquido suficiente.

Na prática, o álcool favorece a desidratação, aumenta a perda de água pelo organismo e pode intensificar sintomas como fadiga, dor de cabeça e queda de desempenho físico.

Uma regra simples é alternar cada dose alcoólica com água. Seu corpo agradece no dia seguinte.

Outro ponto importante é a alimentação.

O São João é uma das épocas mais deliciosas do ano, mas viver exclusivamente de comidas pesadas durante semanas pode gerar desconfortos digestivos, piora do sono e sensação constante de cansaço.

Ninguém precisa abrir mão da canjica, do milho ou do amendoim. O segredo está no equilíbrio.

E atenção para um detalhe que muita gente ignora: os ambientes lotados.

Durante os festejos, o contato próximo facilita a circulação de vírus respiratórios, especialmente em locais fechados, ônibus, camarotes e áreas de grande concentração de pessoas. Lavar as mãos com frequência, manter a vacinação atualizada e evitar compartilhar copos e garrafas continuam sendo medidas extremamente eficazes.

Mas existe uma recomendação que talvez seja a mais importante de todas. Escute os sinais do seu corpo. Febre não é ressaca. Falta de ar não é apenas cansaço. Dor no peito não é consequência normal da festa.

Quando o organismo começa a emitir sinais de alerta, ele merece atenção. Porque o objetivo do São João é voltar para casa com boas memórias. Não com uma infecção.

A boa notícia é que dá, sim, para aproveitar o melhor da maior festa do Nordeste sem sacrificar a própria saúde. Com planejamento, hidratação, alimentação equilibrada, sono de qualidade e atenção aos sinais do corpo, é possível dançar muito forró e ainda chegar ao fim da temporada com a imunidade em dia.

Dra. Mariela Cometki – médica infectologista.

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