
O gesto de Augusto Leite, doando o “Bisturi de Ouro” ao mais antigo hospital de Aracaju, é um dos momentos mais expressivos da história médica de Sergipe. Simboliza o reencontro afetivo do grande cirurgião com a secular casa que o abrigou na década de 1910, dando-lhe as condições para fazer a primeira laparotomia, cirurgia abdominal, de Sergipe, em 1914. E, principalmente, representa o abandono de ressentimentos e amarguras do passado.

Na década de 1920, contrariado com a alta direção do Hospital Santa Isabel, comandada pelo desembargador Simeão Sobral, que suprimiu as chamadas “grandes cirurgias” naquele nosocômio, Augusto deixou o hospital prometendo que ali nunca mais colocaria os pés.
Conseguiu, então, sensibilizar Graccho Cardoso para a necessidade da construção de um novo hospital em Aracaju. A promessa foi cumprida e, em 1926, surgia o Hospital Cirurgia, que tantas glórias trouxe para a Medicina sergipana.
Aproximava-se 1958, ano em que Augusto Cezar comemoraria seus cinquenta anos de formatura. Os médicos do Hospital de Cirurgia, liderados por Walter Cardoso e Juliano Simões, prestaram-lhe justas homenagens e, entre elas, ofereceram-lhe o “Bisturi de Ouro”.
Por sua vez, Gileno da Silveira Lima assumia a direção do Hospital Santa Isabel após a morte de Carlos Firpo e deu sequência à grande obra de modernização do centenário nosocômio. Entre outras realizações, edificou um novo setor operatório, denominado Centro Cirúrgico “Dr. Augusto Leite”.
Gileno queria muito que Augusto comparecesse ao ato de inauguração, mas todos se lembravam da promessa do velho cirurgião. O desafio era sensibilizá-lo a retornar à casa. Em um trabalho de extrema habilidade, que contou com a participação de médicos muito próximos a ele, como Benjamin Carvalho, Lauro Porto, Machado de Sousa e Juliano Simões, Gileno conseguiu que Augusto retornasse ao Santa Isabel para a inauguração do centro cirúrgico.
Dito e feito: um Dr. Augusto tímido e desconfiado colocava novamente os pés no Santa Isabel. Uma glória.

Mas um desafio maior estava por vir. O ano de 1964 marcaria o cinquentenário da primeira laparotomia realizada em Sergipe, ocorrida no Hospital Santa Isabel. Gileno instalou uma comissão especial para organizar as comemorações do jubileu. Entre as atividades, havia uma de simbolismo extraordinário: a repetição da primeira laparotomia feita em Sergipe, a retirada de um fibrossarcoma uterino de uma paciente especialmente preparada para esse fim.

Convidaram o “velho” cirurgião para realizá-la e ele, após natural hesitação, aceitou o desafio. Mesmo sem operar havia alguns anos, Augusto Leite empunhou o bisturi e, com mãos firmes e decididas, ressecou o tumor uterino com extrema habilidade e rapidez. As pessoas que estavam na sala de operação não conseguiram conter a emoção e irromperam em aplausos e lágrimas.

Emocionado e agradecido, Augusto teve um gesto magnânimo: doou ao Hospital Santa Isabel o “Bisturi de Ouro” que recebera dos médicos do Cirurgia. Com devoção, Gileno Lima guardou o instrumento com todo o carinho, colocando-o em uma gruta iluminada, instalada em um dos corredores, onde permaneceu por muitos anos.
Atualmente, por doação do Hospital Santa Isabel, o bisturi faz parte do acervo do Museu Médico de Sergipe, da Academia Sergipana de Medicina, aguardando a conclusão da reforma do Instituto Parreiras Horta, para onde todo o acervo será transferido em definitivo.
SOBRE O AUTOR
Lúcio Antonio Prado Dias – é membro da Academia Sergipana de Medicina e presidente nacional da Sobrames. Presidiu a Somese de 1993 a 1997, em dois mandatos.

