O barro, a arte e a medicina

Há presentes que se acomodam sobre uma mesa. Outros, silenciosamente, encontram morada definitiva na alma.

Recentemente, recebi dos filhos do saudoso Sr. João Goreba uma obra de arte que transcende a delicadeza estética e alcança uma dimensão profundamente humana. Trata-se de uma escultura em cerâmica do artista plástico Kayro, da cidade de Itaobim, no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais — região onde a arte popular brasileira parece brotar da própria terra, moldada pelas mãos e pela sensibilidade do povo sertanejo. A peça chama-se “Coração e Mente: quando caminham juntos, tudo flui melhor”. À primeira vista, a escultura provoca surpresa. Um coração e um cérebro, humanizados, caminham de mãos dadas. Há ternura, simbolismo e reflexão naquela cena aparentemente simples. Não é apenas arte decorativa. É uma metáfora poderosa da própria existência humana — e, sobretudo, da Medicina que aprendi a respeitar e a exercer ao longo da vida.

Confesso que, ao contemplar a obra, fui imediatamente transportado para as inúmeras experiências vividas ao lado dos pacientes. Afinal, a Medicina contemporânea, tão marcada pelos avanços tecnológicos, inteligência artificial, exames sofisticados e protocolos rigorosos, por vezes corre o risco de esquecer aquilo que Hipócrates intuía há mais de dois mil anos: tratar doenças é importante, mas cuidar de pessoas é essencial.

O gesto dos filhos do Sr. João Goreba teve para mim um significado especial. Não representou apenas um agradecimento pelo tratamento médico dispensado ao seu pai. Representou, acima de tudo, o reconhecimento de uma prática médica que busca preservar a dignidade humana em seus momentos de maior fragilidade.

Porque a doença vulnerabiliza. O sofrimento assusta. A hospitalização interrompe rotinas, silencia projetos e expõe medos que muitas vezes permaneciam escondidos sob a aparente normalidade da vida cotidiana. Nessas horas, o paciente não necessita apenas de prescrições corretas ou diagnósticos precisos — embora ambos sejam indispensáveis. Necessita também de escuta, acolhimento, empatia e presença humana.

Talvez seja exatamente isso que a escultura simbolize com tanta beleza: a necessária aliança entre ciência e sensibilidade; entre conhecimento técnico e compaixão; entre razão e afeto. O coração, tradicionalmente associado às emoções, caminha ao lado da mente, símbolo da racionalidade. Nenhum dos dois segue sozinho. Não há disputa. Há complementaridade.

Na boa prática médica, também deveria ser assim.

O conhecimento científico é indispensável. A atualização permanente tornou-se obrigação ética. A Medicina baseada em evidências revolucionou diagnósticos e tratamentos. Salvamos mais vidas, ampliamos sobrevida e oferecemos melhor qualidade de vida aos pacientes. Mas nenhuma tecnologia substituirá integralmente o valor de um olhar atento, de uma palavra serena ou de um gesto de solidariedade diante da dor humana. Muitas vezes, o paciente não se recordará do nome do medicamento prescrito ou dos detalhes técnicos do procedimento realizado. Entretanto, dificilmente esquecerá a forma como foi tratado.

A memória afetiva permanece. E talvez resida aí uma das maiores responsabilidades do médico: preservar a humanidade da Medicina em tempos de crescente mecanização das relações.

Vivemos numa época acelerada. Consultas breves, excesso de burocracia, prontuários eletrônicos e metas institucionais frequentemente comprimem o tempo da escuta e da convivência humana. Corre-se o risco de enxergar exames antes de enxergar pessoas. Por isso, presentes como esse possuem valor imensurável.

A pequena escultura vinda do Vale do Jequitinhonha não é apenas um objeto artístico em meu consultório. Ela tornou-se uma lembrança permanente da essência da profissão médica.

Recorda-me diariamente que cuidar é mais do que intervir biologicamente. É reconhecer a vulnerabilidade do outro. É aliviar o sofrimento sempre que possível. É permanecer ao lado quando a cura já não pode ser plenamente alcançada. É compreender que cada paciente carrega medos, histórias, sonhos, famílias e afetos.

A arte, às vezes, consegue traduzir aquilo que os tratados científicos não conseguem explicar completamente.

Kayro, com barro, sensibilidade e imaginação, materializou uma das mais belas definições da Medicina humanista: coração e mente devem caminhar juntos.

Porque, quando caminham separados, a ciência torna-se fria e a emoção perde direção.

Mas, quando caminham lado a lado, tudo realmente flui melhor.

Ao receber esse gesto generoso dos filhos do Sr. João Goreba, senti não apenas gratidão, mas também renovação de propósito. Em tempos nos quais tantas vezes se discute tecnologia, produtividade e inovação, talvez devamos recordar, com mais frequência, que o centro da Medicina continua sendo o ser humano.

E o ser humano jamais poderá ser reduzido apenas a números, imagens ou diagnósticos.

Como escreveu o médico canadense William Osler, um dos pais da Medicina moderna: “O bom médico trata a doença; o grande médico trata o paciente que tem a doença.”

Talvez seja exatamente isso que aquela singela e profunda escultura continue silenciosamente nos ensinando todos os dias.

Prof. Dr. Antônio Sobral Sousa – professor Titular da UFS, Membro das Academias Sergipanas de Medicina, de Letras e de Educação

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