
A história da humanidade registra, desde os primórdios a narrativa de atos de violência: guerras, manipulações políticas, desigualdades sociais, tragédias familiares e individuais. Esses eventos são expostos, pela literatura, como testemunho e ao mesmo tempo como propostas de transformação. Quanto mais vulneráveis são as pessoas, mais invisíveis se tornam. No entanto, quando a escrita acolhe essas experiências, o que poderia permanecer apenas como brutalidade converte-se em espaço terapêutico e de crescimento. O belo se expressa apesar da dor e a esperança se torna possível.
Na literatura brasileira, esse movimento aparece com intensidade em autores que souberam transformar a dureza da realidade em linguagem viva. Jorge Amado, por exemplo, revela a violência social ao mostrar a fragilidade de personagens marginalizados, muitas vezes abandonados, como em ‘Capitães de areia’. Na estética paradoxal do romance, a brutalidade da vida nas ruas se mistura com solidariedade e esperança.
Já Clarice Lispector traz a introspecção e a dor existencial. Em ‘A Hora da Estrela’, a personagem mergulha em um sofrimento silencioso, que se manifesta na solidão, na invisibilidade e na busca da própria existência.
Mais recentemente, a escrita contemporânea também tem se dedicado a expor as tensões sociais do país. O quadrinista e roteirista Leandro Assis tornou-se conhecido por retratar, em histórias gráficas e projetos digitais, as desigualdades sociais e os conflitos cotidianos do Brasil urbano. Em obras como ‘Confinada e Os Santos’, produzidas com Triscila Oliveira, a narrativa visual revela o racismo e o ódio de classe, além da violência simbólica e material que atravessa a vida de trabalhadores, moradores da periferia e personagens frequentemente invisibilizados.
No cenário pernambucano, essa relação entre literatura e experiência humana também se manifesta em autores com sensibilidade para às contradições da vida. O médico, escritor e intelectual Valdemar de Oliveira, figura importante da cultura do Recife, transitou entre a ciência e a literatura, revelando, em seus escritos, o drama humano observado tanto na vida social quanto na experiência clínica. O escritor Melchiades Montenegro, em seu livro: ‘Serafim e Damaris – 14 de maio de 1888, o dia que nunca existiu’ relata a áspera vida dos escravisados no Brasil, herança que ainda hoje nos remete ao preconceito racial. A beleza da sua obra está em vislumbrar caminhos para além da data histórica de 1888.
No cenário internacional, destaca-se ‘Ensaio sobre a Cegueira’, de José Saramago. O relato descreve a falência moral e social da humanidade em condições extremas, levando a situações cruéis de violência. Em contraponto à dor, o autor espelha a reconstrução humana por meio da solidariedade, compaixão e resistência
A realidade atual da violência em nosso país nos chega diariamente por meio dos noticiários: violência contra crianças, adolescentes, mulheres e idosos; feminicídio e assassinatos diversos. Em muitas situações, quem deveria proteger acaba por violentar, condenar ou não enxergar a vítima. Alguns avanços têm ocorrido, como a aprovação do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (Lei nº 15.211/2025), que entrou em vigor no dia 17/03/2026, impondo regras rígidas a redes sociais, jogos e plataforma de streaming quanto à privacidade, monitoramento e conteúdo. A Lei é importante, mas precisa ser efetivamente cumprida – a vigilância é responsabilidade de todos.
Assim, a literatura realiza um gesto ao mesmo tempo ético e estético. Ético, porque dá voz ao sofrimento — social e individual — que tantas vezes permanece oculto. Estético, porque, ao organizar a experiência humana em palavras, cria formas capazes de emocionar, inquietar e despertar empatia. Sejamos, portanto, mensageiros do cuidado e da proteção.
Este editorial foi concluído no domingo, 22 de março, à noite. Enquanto eu escrevia, chamando atenção para o aumento da violência no Brasil, uma de minhas do 4º período do curso de medicina da Unicap, Isabel Cristina Santos, era assassinada. Tinha 22 anos.
Dra. Fátima Souza – é presidente da Sobrames Pernambuco.

