Era uma tarde de domingo quando decidi revisitar o pequeno riacho que serpenteava pelos fundos da casa de minha avó. Aquele lugar guardava memórias preciosas da minha infância, e eu não o via há quase duas décadas. Enquanto caminhava pela trilha familiar, as palavras de Heráclito ecoavam em minha mente: “Nenhuma pessoa passa duas vezes pelo mesmo rio, porque nem a pessoa, nem o rio serão os mesmos naquele momento.”
Ao chegar à margem, fui imediatamente envolvido por uma sensação de familiaridade e estranheza. O som da água corrente era o mesmo que embalara meus sonhos de criança, mas o cenário havia mudado. As árvores que antes pareciam gigantes agora se mostravam menores aos meus olhos adultos. O velho tronco caído que servira de ponte em nossas aventuras já não estava mais lá, levado pela correnteza do tempo.

Sentei-me à beira do riacho, deixando que meus pés tocassem a água fria. Fechei os olhos e, por um instante, fui transportado de volta àqueles verões intermináveis, quando eu e meus primos passávamos horas brincando ali, construindo barragens de pedras e galhos, observando os pequenos peixes que nadavam entre nossos dedos.
Ao abrir os olhos, vi meu reflexo na água. O rosto que me encarava de volta não era mais o de um menino despreocupado, mas o de um homem com linhas de expressão que contavam histórias de risos e preocupações. O rio havia mudado, sim, mas eu também não era mais o mesmo.
Percebi então que Heráclito estava certo. O rio que eu via agora não era o mesmo de vinte anos atrás. Suas margens haviam sido redesenhadas por incontáveis chuvas e secas. Algumas pedras foram arrastadas, outras depositadas. A vida aquática que habitava suas águas havia passado por gerações de mudanças. E eu, bem, eu era uma pessoa completamente diferente.
As experiências que vivi, as pessoas que conheci, os lugares que visitei, tudo isso havia me moldado. Minha perspectiva sobre o mundo, meus sonhos e aspirações, até mesmo a forma como eu interpretava aquele momento à beira do riacho, tudo era novo.
Enquanto contemplava essas mudanças, um grupo de crianças passou correndo, rindo e gritando enquanto perseguiam um cachorro. Por um momento, vi a mim mesmo nelas, e sorri. O rio continuava a ser um playground para a imaginação infantil, mesmo que agora fosse para uma nova geração.
Percebi que a beleza da vida está justamente nessa constante transformação. Cada momento é único e irrepetível. Mesmo que voltemos aos mesmos lugares, encontremos as mesmas pessoas ou realizemos as mesmas atividades, a experiência será sempre nova, porque nós somos novos a cada instante.
O rio da vida flui incessantemente, carregando consigo nossas experiências, moldando-nos, assim como molda as pedras em seu leito. Não podemos congelar o tempo ou voltar atrás, mas podemos apreciar a jornada, saboreando cada momento como se fosse o primeiro e o último.
Levantei-me, sentindo uma profunda gratidão por aquele reencontro. O riacho da minha infância havia se tornado um professor de filosofia, lembrando-me da importância de viver o presente e abraçar as mudanças.
Enquanto caminhava de volta, percebi que levava comigo não apenas as memórias do passado, mas também uma nova apreciação pelo fluxo constante da vida. Eu havia mudado, o rio havia mudado, e estava tudo bem. Na verdade, estava mais do que bem – era exatamente como deveria ser.
Naquela tarde, entendi que a vida é como aquele riacho: sempre em movimento, sempre se renovando. E nós, como as águas que fluem, estamos em constante transformação. A sabedoria está em aceitar essa mudança, fluir com ela e, acima de tudo, mergulhar de cabeça nas novas experiências que cada dia nos oferece.
Ao chegar em casa, olhei para o céu que começava a se tingir com as cores do pôr do sol. Sorri, sabendo que amanhã seria um novo dia, com um novo eu, pronto para atravessar novos rios.
Dr. Aderval Aragão – é médico e cirurgião vascular

