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Anselmo Mariano Fontes, o poeta da medicina que escreve esperança em letras de alma

Na tessitura da vida, alguns nomes se entrelaçam à história não apenas por feitos grandiosos, mas pela delicadeza com que transformam existências. Assim é Dr. Anselmo Mariano Fontes — sergipano de raízes profundas, médico de mãos sábias e coração aberto aos mais frágeis — homenageado na V Coletânea Literária de Estudantes de Medicina da Universidade Federal de Sergipe. Sua trajetória não se limita aos compêndios da oncologia ou aos corredores hospitalares; é um épico escrito com dedicação às crianças que lutam contra o câncer e aos excluídos que encontraram nele um farol de dignidade.

Dr. Anselmo Mariano Fontes
Dr. Anselmo Mariano Fontes

Nascido sob o céu de Aracaju em 31 de agosto de 1950, na Maternidade Francino Melo, Anselmo carrega em seu DNA a herança de um pai padeiro — Efrem Fernandes Fontes — cujos pães alimentavam corpos na Padaria Operária; e de uma mãe pianista — Dulce Mota Fontes — cujas notas musicais embalavam sonhos no Cine-Teatro Rio Branco. A perda precoce dela, quando tinha apenas dois anos, talvez tenha plantado nele a sutil percepção de que a vida é frágil e deve ser acariciada com cuidado. Cresceu entre as ruas Santo Amaro e Simão Dias, onde os carrinhos de rolimã desciam ladeiras como metáforas do destino: rápidos, imprevisíveis, mas sempre cheios de alegria ingênua.

Formou-se médico em 1976 pela UFS — após breve passagem pela Odontologia — e escolheu trilhar os caminhos pedregosos da oncologia pediátrica. Na Bahia, no Hospital Martagão Gesteira, aprendeu que combater o câncer infantil exige mais que protocolos: demanda amor tecido em cada gesto. De volta a Sergipe em 1980, fundou com o Dr. Osvaldo Leite o Ambulatório de Oncologia Infantil do Hospital Cirurgia, espaço sagrado onde estatísticas ganhavam rostos de crianças e histórias de resistência. Ali surgiram milagres cotidianos: pais recuperando o brilho nos olhos ao ouvir “remissão”, jovens que venceram tumores e hoje têm filhos — seus 18 netinhos, como orgulhosamente conta — prova viva de que sua missão transcendeu consultórios e quimioterapias.

Para além do jaleco branco foi político da medicina: corregedor do Conselho Regional de Medicina (CRM-SE), auditor incansável nas entranhas burocráticas do Huse e Unimed-SE; membro da Academia Sergipana de Medicina ocupando a cadeira número 28, cujo patrono é o médico Nelson D’Avila Maia, e voz ativa nas Sociedades Brasileiras de Pediatria e Cancerologia. Sua luta nunca foi apenas contra células malignas; foi contra a indiferença social. Nas periferias esquecidas ou nos leitos públicos onde os pobres esperavam por justiça terapêutica, ele estava lá, lembrando ao mundo que saúde é direito, não privilégio.

Mas quem pensa que Dr. Anselmo se limitava aos diagnósticos desconhece sua alma plural. Cinéfilo devoto, colecionador de mais de 8 mil filmes assistidos e catalogados, apaixonado por westerns clássicos onde heróis solitários defendiam causas nobres, encontrou na sétima arte um espelho para sua própria jornada. Fotógrafo amador do Fotoclube Monaliza Godoy, capturava luzes e sombras como quem decifrava metáforas da existência. Gastrônomo formado pela Unit, sabia que nutrir corpos também é ato medicinal. Escritor na Revista SOMESE, unia ciência e cinema em crônicas que ensinavam colegas a enxergarem beleza mesmo na dor.

Em casa, é marido dedicado à assistente social Elenalda Maria Carvalho Fontes, casados desde 1982 sob as bênçãos da Igreja São José; pai orgulhoso de Lucas, o barista-publicitário que herdou seu gosto pela arte; e Isabelle, psicóloga-advogada cuja dupla formação ecoa sua própria multiplicidade. Na família, assim como na medicina, construiu pontes entre rigor ético e afeto incondicional.

Sua frase célebre — “Nossos pacientes se transformam em nossos mestres” — resume uma vida inteira dedicada à escuta compassiva. Para ele, cada criança atendida não era um prontuário; era uma lição sobre resiliência, um convite à humildade diante dos mistérios do corpo humano. Mesmo diante das derrotas inevitáveis, mantinha-se firme: “Se fosse começar tudo novamente”, dizia, “voltaria a fazer oncologia pediátrica”. Palavras que ecoam como um mantra para os estudantes presentes nesta coletânea: lembrete eterno de que medicina não é profissão; é pacto sagrado com a vida.

Hoje, ao imortalizarmos seu nome nestas páginas, não celebramos apenas um currículo repleto de títulos ou publicações; celebramos o homem que transformou consultórios em santuários de esperança; o cientista-poeta que via na cura uma arte tão complexa quanto dirigir filmes ou assar pães. Que seu legado inspire futuras gerações não só a diagnosticar doenças, mas a enxergar histórias; não só a prescrever remédios, mas a receitar humanidade.

Dr. Anselmo Mariano Fontes: sua vida é um filme épico — onde cada paciente curado é um final feliz, cada aluno inspirado, uma sequência premiada, e cada gesto seu, uma cena inesquecível no grande cinema da medicina brasileira.

Dr. Aderval Aragão – é médico e cirurgião vascular

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