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Mortalidade: uma reflexão médica…

Há muito tempo que me dei conta de que “médicos também” adoecem e morrem, mas quanto mais o tempo passa, cresce em mim uma resistência até certo ponto inconsequente para aceitar a morte de pessoas que fazem de suas vidas instrumentos do bem. Quando adoecemos, temos além das dores e sofrimentos naturais, nós médicos, temos a compreensão das “gias”.

Etiologia, fisiopatologias, patogenia, terapia. A compreensão desses termos traz à montante angústias próprias das nossas fragilidades. A geometria triangular composta pelos diagnósticos, terapias e prognósticos perfaz a geometria das nossas incertezas e vulnerabilidades. O teorema de Pitágoras não dá pistas para solução, mas essa foi a nossa escolha de vida: estudamos para sermos sempre, em última instância, derrotados por um inimigo maior, inclemente e imbatível.

Compreendemos bem a natureza da nossa biologia. Desde o primeiro ao último suspiro, à total paralisia da mitocôndria, dos batimentos cardíacos e o derradeiro impulso elétrico, do último e mais distante neurônio.

É assim que compreendemos os acordes do fim que coincidem com o início do silêncio sinfônico; todos os instrumentos da orquestra da vida se calam, as luzes são apagadas, as cortinas cerradas. Restarão somente os ecos de memória do que um dia existiu de modo tão harmonioso em sua complexa dinâmica. Essas são razões de sobra para refletirmos sobre nossas vulnerabilidades e fragilidades, da necessidade de alienarmos as vaidades, concentrarmos nossos espíritos e ações construtivas de uma vida melhor, mais solidária e compassiva.

Dr. José Marcondes – é médico pneumologista e membro da Sobrames Sergipe

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