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Bar Gosto Gostoso

Nascido em outubro de 1949, sou do tempo de Aracaju menina miúda e desajeitada, vestida por mangues, areais e cajueiros, poucos bairros, abundante arborização. Pelas chapas do reduzido número de carros, sabia-se a quem pertenciam. Nascido na rua Propriá, cresci no bairro Cirurgia. As ruas da região eram de piçarra e areia, sossegadas, um mundinho de paz e de frutas: graviolas, mangabas, melancias, jaboticabas, ingás, carambolas, mangelões, goiabas, sapotis, tamarindos. Nas bandas do Grageru, havia um sítio onde se podia alugar pés de massaranduba. Por um dinheirinho, cinco e não sei mais quanto, era possível passar uma tarde inteirinha trepado no pé, saboreando as deliciosas frutinhas.

Naquele dia, almoço leve, de olho na valorização do investimento. Voltávamos à noitinha, lábios grudados pela goma do suco leitoso liberado durante a mastigação, mas somente um saquinho, quantidade ínfima, nos era permitido levar para casa. Divertíamo-nos com jogos de bola, pião e gude, caça a passarinhos com baleadeiras, pescaria de piabas em regos malcheirosos. Subíamos o morro da Suissa para rolar perambeira abaixo; cobertos ficávamos de areia branquinha, que se entranhava no calção, nos ouvidos, no nariz, nos cabelos. Do alto do Santo Antônio, víamos toda a cidade, um trisco, ainda encharcada de águas, mangueiras, cajueiros, mamoneiras.

Uma construção estranha, lembrando um castelo medieval, assomava ao longe, como um limite da zona oeste. Era a Penitenciária. Quanto a costumes sociais, imperava a hipocrisia, vergonhosa época em que as prostitutas não podiam se misturar com banhistas comuns na praia da cidade. Às “pecadoras”, era reservado o lado esquerdo; às “imaculadas famílias”, o lado direito. O balizamento dava-se onde ficava o restaurante Tropeiro, hoje um fast food conhecido. Muitas mocinhas de família preservavam o hímen, exigência para o casamento. Felizmente, a via alternativa não deixava, acreditavam as moçoilas sonsas e os rapazes afoitos, rastros.

A cidade foi crescendo e os costumes foram se modificando. A profissionais conceituados não era de bom tom que frequentassem bares da Atalaia; o jeito era beber em casa. Tenho tolerância com quem proclama: “desconfie do caráter do homem que não bebe.” Exagero à parte, observo que as pessoas mostram característicos quando alcoolizadas. Há o agressivo, o manso e terno, o romântico, o introspectivo, o imprevisível.

Mostram-se verdadeiros, desnudam-se. Sou testemunha ocular da quebra desse tabu por parte dos estudantes de Medicina e de Direito: Wagner Ribeiro, Antônio Góes, Milton Barreto, Eduardo Garcia, Marcos Prado Dias, Fedro Portugal (e muitos outros) frequentavam bares, apreciavam uma “geladinha”. Os bares se proliferaram na Aracaju mocinha, proporcionando horas de prazer, de conhecimentos, de reflexões, de maturidade. O Fan’s (dos irmãos Lebre), o Memórias (de Jaime), o Bossa Nova (inicialmente na Atalaia e, posteriormente, sob o nome Melodia’s bar e comando de Iracema e Zequinha, próximo ao Shopping Jardins), o Al’bar (de Álvaro).

Outro que marcou época, também ponto de encontro de gente inteligente e bonita foi o Gosto Gostoso (de Fernandinho). Bebida bem gelada, tira-gostos deliciosos, certeza de desfile de mulheres fascinantes e conversas interessantes.

O Gosto Gostoso vivia lotado, com mesas do lado de fora, pletoro de artistas da terra e dos que em Aracaju vinham se apresentar e queriam conhecer o “bar conceituado, um referencial da noite sergipana.” Infelizmente, Aracaju cresceu e a noite ficou desinteressante. Ninguém sabe onde anda você, uma dispersão generalizada. Não há motivação para sair à noite e ficar restrito a comidas, beber solitariamente em ambiente de intenso ar-condicionado.

Não há calor humano, a vertigem dos decotes, a paquera inesperada, a boa conversa com amigos e amigas. Tudo se transformou, perdemos as referências. Evidentemente, muitos se foram, efemeridade da vida, mas como nos conformar com a ausência dum Ismar Barreto, dum Irmão, dum Cleomar Brandi, Zé Fernandes, Hugo Costa e tantos mais que enriqueciam nossas horas, nossas noites, nossas vidas? Não à toa, escolhamos Ismar Barreto como grande exemplo. Figura ímpar, compositor e cantor, inteligência rara, promovia risos, castigava a sociedade no que tinha ela de mais tacanha, retrógrada, falsa, bolorenta.

Rompeu barreiras, ampliou horizontes, criou um universo próprio. Destemido ao escolher o politicamente incorreto para fazer gracinhas. Astuto e irreverente, criou um tipo, urgia agradar. Sabia que, no circo, a preferência do público era pelo palhaço. Muita vez passou da conta. Expôs-se a revides. Observou o jornalista e compositor Hugo Costa: “além de cantar a capital sergipana como nenhum outro compositor, tinha ele o dom de abordar temas pesados com leveza e graça.”

Nascera para subverter a ordem, bagunçar o coreto. Autêntico, língua solta, bala na agulha, traquinas, excessivo, debochado. E desbocado, muito desbocado.

As bichas, loucos, palhaços e compositores, petistas e otimistas, ricos e artistas, urologistas e sapatões mostrariam tolerância ao assimilar as bordoadas de Ismar; entenderam todos (ou quase todos) que usava o humor cáustico como instrumento, recurso espalhafatoso que escolhera para promover o salto mortal para driblar a dor. Homem de muitos amigos, querido por toda a flora e fauna — salvo honrosas e cultivadas exceções — retratadas em várias das suas peças. Criou um vocabulário singular, avacalhou as regras de sintaxe, desprezou concordâncias e regências. Aglutinador (o pintor Zé Fernandes também o era), sempre estava cercado por gente como Piúga, Cláudio Cruz, Edson Barreto, Waltinho do Acordeon, Jaime da Line, Almir, Leguelé, João Alberto, Maurício, Tampinha, Zé Miséria, Zeza, Pascoal Maynard, Laércio, Pantera, João Melo, Amorosa… Afora o concerto, tudo era motivo para entretenimento, brincadeiras, galhofas, causos.

Como nem só de divertimento e bebida vive o homem, as noitadas faziam aflorar crônicas, poemas, contos, melodias e até romances (em sentido latu). Encerremos com episódio um pouco intrigante (para quem não o conheceu): usuário contumaz de descongestionantes nasais (Afrin), certa noite chegou desconfiado ao bar Gosto Gostoso, com a barba exalando forte cheiro de vagina. Caíram de pau os amigos: a obstrução nasal intensa estava impedindo-o de ser mais criterioso no mergulhar o rosto, enfiar a cara. Viera de onde? Com cara bem lisa, contou história acrobática que envolvia o capô do Galaxie, seu carro da época.

Marcelo da Silva Ribeiro – é médico otorrinolaringologista, poeta e contista

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