Há conquistas que não nascem de um gesto súbito, mas do acúmulo silencioso de esforços ao longo do tempo. São vitórias que amadurecem lentamente, como as árvores que crescem sem pressa, aprofundando suas raízes antes de oferecer frutos abundantes. Assim pode ser compreendida a trajetória do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da Universidade Federal de Sergipe (PPGCS-UFS), que celebra o seu Jubileu de Pérola — trinta anos de existência — alcançando, na mais recente avaliação quadrienal da CAPES, a nota máxima: 7. Para quem observa de fora, pode parecer apenas um número. Mas, no universo da pós-graduação brasileira, a nota 7 representa o mais elevado patamar de excelência acadêmica. É o reconhecimento de que um programa alcançou desempenho comparável ao dos centros internacionais de referência, destacando-se pela qualidade de sua produção científica, pela formação de pesquisadores e pela capacidade de impactar a sociedade. Quando lembramos que esse programa nasceu em Sergipe — longe dos grandes e tradicionais polos científicos do país — a conquista assume contornos ainda mais expressivos. Ela simboliza não apenas o êxito de um curso, mas o amadurecimento de um projeto institucional e, de certo modo, de toda uma comunidade científica regional.
A história, como quase sempre acontece, começou de forma modesta. Em meados da década de 1990, um grupo de professores do Departamento de Medicina da UFS idealizou a criação de um mestrado em Saúde da Criança, iniciativa pioneira na área da saúde no estado. A proposta, inicialmente desenvolvida em colaboração com a Universidade Federal de Alagoas, buscava algo essencial: criar massa crítica para o desenvolvimento da pesquisa científica na região.
Naquele momento, a UFS ainda dava seus primeiros passos na pós-graduação stricto sensu. O ambiente acadêmico era pequeno, os recursos escassos e a cultura de pesquisa ainda em formação. Mas havia algo que nunca faltou: a convicção de que investir em ciência era investir no futuro. Com o passar dos anos, o programa evoluiu. O antigo mestrado ampliou suas fronteiras e passou a chamar-se Ciências da Saúde, assumindo caráter multidisciplinar. Médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, farmacêuticos, biólogos, nutricionistas e profissionais de diversas áreas passaram a compartilhar o mesmo espaço intelectual, produzindo conhecimento sobre promoção da saúde, prevenção de doenças e inovação terapêutica.
A ciência, afinal, é diálogo. Vieram então novas etapas de amadurecimento. O doutorado foi criado, os grupos de pesquisa se fortaleceram, as parcerias nacionais e internacionais se ampliaram e os indicadores de produção científica cresceram de forma consistente. O programa passou a formar mestres e doutores que hoje atuam em universidades, centros de pesquisa e instituições de saúde em todo o país — muitos deles ocupando posições de liderança acadêmica.
Ao longo desse percurso, o PPGCS não apenas cresceu: semeou novos programas de pós-graduação na própria UFS, contribuindo para a expansão da ciência em Sergipe e no Nordeste. Da sua experiência nasceram iniciativas em áreas como psicologia, enfermagem, odontologia, nutrição, ciências farmacêuticas e educação física. É assim que a ciência se multiplica: como uma árvore que lança sementes além do seu próprio jardim.
Outro aspecto notável dessa trajetória é o impacto social do conhecimento produzido. Dissertações e teses desenvolvidas no programa têm contribuído para melhorar práticas assistenciais, orientar políticas públicas e ampliar o entendimento de diversos problemas de saúde que afetam a população brasileira. Durante a pandemia de Covid-19, por exemplo, docentes e pesquisadores do programa estiveram na linha de frente da produção de evidências científicas e do apoio às decisões sanitárias no estado. Nesse sentido, a ciência deixa de ser apenas um exercício acadêmico para tornar-se um instrumento de transformação social.
Celebrar o Jubileu de Pérola do PPGCS-UFS é, portanto, celebrar três décadas de perseverança intelectual. É reconhecer o trabalho de gerações de professores, pesquisadores, estudantes e servidores que ajudaram a construir essa história — muitas vezes enfrentando limitações orçamentárias, burocráticas e institucionais que fazem parte do cotidiano da ciência brasileira. Mas a maturidade de um programa de pós-graduação não se mede apenas pelos indicadores de produtividade ou pelas notas atribuídas pelas agências avaliadoras. Mede-se também pela capacidade de formar pessoas, inspirar vocações e cultivar um ambiente de pensamento crítico e criativo.
Nesse aspecto, o PPGCS cumpre um papel que transcende os muros da universidade. Ele forma pesquisadores, mas também forma cidadãos comprometidos com a melhoria da saúde coletiva. Forma cientistas que aprendem a perguntar, a investigar e, sobretudo, a duvidar — porque toda ciência verdadeira começa com uma pergunta. A nota 7 concedida pela CAPES, portanto, não representa um ponto de chegada definitivo. Antes, simboliza uma etapa de maturidade que impõe novos desafios. Manter a excelência exige continuidade de investimentos, fortalecimento das redes de cooperação científica e renovação constante de ideias e projetos.
A história da ciência nos ensina que nenhuma conquista é permanente. O conhecimento precisa ser cultivado diariamente, como um jardim que exige cuidado contínuo. O Jubileu de Pérola do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da UFS marca, assim, não apenas a celebração de um passado bem-sucedido, mas também a afirmação de um compromisso com o futuro.
Porque, no fundo, cada tese defendida, cada artigo publicado e cada pesquisa realizada carregam uma mesma promessa silenciosa: a de que o conhecimento pode melhorar a vida das pessoas. E quando a ciência floresce em lugares antes considerados periféricos, ela prova algo essencial — que a inteligência não tem geografia. Tem apenas horizonte!
Prof. Dr. Antônio Sobral Sousa – professor Titular da UFS, Membro das Academias Sergipanas de Medicina, de Letras e de Educação

