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A beleza da finitude: encontrando luz na transitoriedade da vida

Ilustração de caminho iluminado entre sol e lua
Ilustração: Divulgação

A finitude, essa sombra indelével que paira sobre a existência humana, ecoa como um lembrete constante da transitoriedade de tudo o que nos cerca. É na dança efêmera entre o ser e o não ser que se revela a ilusão de permanência, a miragem que nos convida a buscar refúgio em falsos ídolos, em brilhos passageiros que ofuscam a visão da verdadeira essência. Quão fácil é sucumbir ao canto da sereia da validação externa, aprisionando-nos em um ciclo vicioso de busca por aprovação, de anseio por reconhecimento, de ânsia por um contentamento que se esvai como a névoa da manhã, deixando para trás apenas o vazio da insatisfação, a angústia da busca incessante por algo que jamais poderá ser encontrado fora de nós mesmos. É como a busca pela pedra filosofal, a quimera alquímica que prometia a transmutação de metais vis em ouro, a imortalidade e a panaceia universal, uma busca vã que consumiu séculos de esforços e que se revelou, no fim, uma mera ilusão.

A beleza, essa quimera que nos arrebata com sua aura de perfeição, desvela sua natureza fugaz como a pétala que se desprende da flor, entregando-se à voracidade do tempo, desfazendo-se em pó como um sonho que se esvai ao despertar. As linhas que outrora adornavam o rosto com a delicadeza de um traço de pincel, aprofundam-se em sulcos que narram a saga da existência, em mapas que cartografam as emoções vividas, as experiências absorvidas, as cicatrizes que moldaram o ser, as alegrias celebradas, as dores suportadas. O viço da juventude, esse elixir que tanto almejamos, cede lugar à palidez serena da maturidade, e o espelho, outrora cúmplice da vaidade, transforma-se em um oráculo implacável, um reflexo da mortalidade que nos confronta com a inevitabilidade do envelhecimento, com a fragilidade da condição humana. Em vão, tentamos deter o fluxo inexorável do tempo, recorrendo a artifícios que mascaram a realidade, que dissimulam a passagem dos anos, que nos iludem com a promessa de uma eterna juventude, como o mito de Tithonus, o mortal que recebeu a imortalidade de Eos, a Aurora, mas que esqueceu de pedir a eterna juventude, condenando-se a envelhecer eternamente, definhando em um sofrimento infinito. Mas a beleza, em sua essência, transcende a mera aparência física, reside na alma que irradia luz, no espírito que se eleva acima das vicissitudes da vida, na sabedoria que se acumula com o passar dos anos, na autenticidade que nos torna únicos e irrepetíveis. É a beleza da imperfeição, a beleza da aceitação, a beleza da transformação.

O dinheiro, esse fetiche que domina a sociedade moderna, revela-se um mestre caprichoso, um guia traiçoeiro que nos conduz por caminhos tortuosos, que nos afasta da serenidade interior, que nos aprisiona em uma busca incessante por mais, em um ciclo vicioso de consumo e ostentação. Acumulamos fortunas colossais, erguemos impérios financeiros que desafiam a lógica da razão, ostentamos riquezas como troféus de uma batalha imaginária, como símbolos de um poder efêmero que se desfaz como castelos de areia à beira-mar, como o mito do Rei Midas, que recebeu de Dionísio o poder de transformar tudo o que tocava em ouro, mas que logo percebeu a maldição de sua dádiva, ao não poder comer ou beber, condenando-se à morte por inanição. Mas, em um instante, a maré da fortuna se inverte, os investimentos desmoronam como um castelo de cartas, a prosperidade se esvai como fumaça ao vento, deixando para trás o amargo sabor da decepção, a desilusão de quem depositou sua fé em um altar profano, a constatação de que o dinheiro não compra a felicidade, não compra o amor, não compra a paz. Percebemos, então, que o dinheiro é apenas um instrumento, uma ferramenta que pode facilitar a jornada, mas que jamais poderá preencher o vazio existencial, que jamais poderá comprar a paz interior, a saúde que nos permite desfrutar a vida em sua plenitude, os laços afetivos que nos unem aos outros seres humanos. A verdadeira riqueza reside na simplicidade, na capacidade de apreciar os pequenos prazeres da vida, na gratidão pelo que se tem, na generosidade que nos impele a compartilhar o que somos e o que possuímos, na busca por um propósito que transcenda o mero acúmulo de bens materiais.

E a piada, essa artimanha que nos permite escapar da seriedade da vida, que nos convida a rir de nós mesmos e de nossas mazelas, perde sua graça com o tempo, torna-se um eco distante de um passado que não volta mais, como o mito de Sísifo, condenado a rolar uma pedra montanha acima, apenas para vê-la rolar de volta para o vale, repetindo o ciclo eternamente, em uma metáfora da futilidade da existência. O que outrora nos provocava gargalhadas estrondosas, agora soa insípido, repetitivo, incapaz de despertar em nós um sorriso sequer, como um disco riscado que repete a mesma melodia incessantemente, perdendo o encanto e a originalidade. As piadas envelhecem, assim como nós, e o humor, que antes era uma arma poderosa contra o tédio e a tristeza, transforma-se em uma lembrança vaga de momentos de alegria que se dissiparam como bolhas de sabão, deixando para trás a melancolia da nostalgia, a saudade de um tempo que já se foi. A leveza que outrora nos permitia flutuar acima das dificuldades, cede lugar ao peso da experiência, à sobriedade da maturidade, à consciência da finitude, à responsabilidade de arcar com as consequências de nossas escolhas.

Diante dessa constatação sombria, dessa verdade inegável sobre a transitoriedade da vida, somos compelidos a questionar: o que realmente importa? O que permanece quando a beleza se esvai, o dinheiro acaba e a piada perde a graça? A resposta, que ecoa nos recessos da alma, é surpreendentemente simples: a essência. O caráter que cultivamos com esmero ao longo da jornada, os valores que nos guiam como um farol em meio à escuridão, a integridade que nos define como seres humanos únicos e irrepetíveis, a capacidade de amar, de perdoar, de ser compassivo. É no caráter que reside a verdadeira beleza, aquela que transcende a aparência física, que irradia luz interior, que se manifesta em atos de bondade, em palavras de conforto, em gestos de solidariedade, como a parábola do Bom Samaritano, que demonstra a importância da compaixão e da ajuda ao próximo. É no caráter que reside a verdadeira riqueza, aquela que não pode ser roubada, que não está sujeita às flutuações do mercado financeiro, que se manifesta na honestidade, na lealdade, na perseverança, na resiliência diante das adversidades. E é no caráter que reside a verdadeira alegria, aquela que não se esgota com o tempo, que não depende de estímulos externos, que se manifesta na gratidão, na esperança, no amor, na capacidade de encontrar sentido na vida, mesmo diante do sofrimento.

Portanto, que não nos deixemos seduzir pelas ilusões da vida, que não nos percamos na busca incessante por aparências, por riquezas efêmeras, por prazeres passageiros. Que invistamos em nosso caráter, que cultivemos nossa essência, que nos tornemos pessoas melhores a cada dia, em cada pequena ação, em cada interação, como a filosofia do “Kaizen”, a busca pela melhoria contínua, a crença de que sempre podemos aprender e evoluir. Que a nossa marca no mundo seja a da bondade, da justiça, da compaixão, da empatia, da generosidade. Que o nosso legado seja o de um caráter íntegro, de uma essência luminosa, de um coração generoso, de uma vida vivida com propósito e significado. E que, ao final da jornada, possamos olhar para trás com a certeza de que vivemos uma vida que valeu a pena, não pelos bens materiais que acumulamos, mas pelo bem imaterial que fizemos, pelas vidas que tocamos, pelo amor que compartilhamos, pelo impacto positivo que deixamos no mundo. Que a nossa essência brilhe intensamente, iluminando o mundo com a nossa luz, transcendendo a finitude da existência, deixando uma marca indelével na história da humanidade.

Dr. Aderval Aragão – é médico e cirurgião vascular

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