Maria Ofelia Fatuch
Médica
A desilusão é o choque de enxergar sem filtro, um ponto de virada entre o bem e o mal. A direção depende de como você processa o que descobriu.
Ela cura quando você aceita a verdade, aprende com o que aconteceu, ajusta suas perspectivas e usa a experiência como proteção sem se fechar para a vida.
Ela aprisiona quando a mágoa e o ressentimento persistem, quando se generaliza tudo a partir da dor e perde a capacidade de confiar.
A dor precisa ser vivida e transformada, jamais ignorada.
Se a desilusão cura, o que fazemos com as expectativas que nos movem?
A frase “a desilusão cura” é frequentemente associada ao pensamento de Sigmund Freud, embora não apareça como uma citação direta em seus escritos. Ainda assim, ela traduz com precisão um dos fundamentos da psicanálise: a necessidade de confrontar as ilusões para acessar uma realidade psíquica mais autêntica.
Essa visão revela que sofremos quando confundimos desejo com realidade. Mas isso não significa que devemos viver sem sonhos; na prática, seria quase impossível.
Muitas vezes sofremos porque criamos ilusões sobre nós mesmos, sobre os outros ou sobre como a vida “deveria” ser. Elas até confortam no início, mas inevitavelmente geram frustração quando colidem com o real.
A desilusão não destrói, ela revela. E só a partir do que é verdadeiro é construído.
Na interpretação freudiana, esse processo pode ser doloroso, mas também é libertador. Ao perder a ilusão, ganha-se clareza, maturidade e autonomia emocional.
Em contrapartida, como viver sem expectativa?
De certo modo, é justamente o imaginário que nos move; é ele que impulsiona nossos desejos, projetos e conquistas. A questão, portanto, não é eliminá-lo, mas transformá-lo.
O mais difícil é desmontar aquilo que já foi construído internamente, especialmente quando o outro não corresponde à “meta” que silenciosamente estipulamos para ele.
• Expectativa saudável é flexível, consciente e aberta ao imprevisto.
• Ilusão é rígida, idealizada e exige que a realidade se encaixe nela.
Como equilibrar desejo e realidade?
Não é reprimir o desejo nem se perder na ilusão, mas aprender a negociar com o real. É na tensão entre esses polos que a vida realmente acontece.
• Quando ignoramos a realidade, caímos na ilusão.
• Quando sufocamos o desejo, caímos na apatia.
Uma grande desilusão não pede uma reação perfeita, exige um processo. A questão não é como evitar a dor; mas, atravessar o abismo sem se perder. O tempo é individual.
Aqui se alinha com o pensamento de Sigmund Freud: o sofrimento não está apenas no evento em si, mas no sentido que ele tinha pra você, no papel que desempenhava naquele contexto e que, a partir de agora deixará de existir.
Às vezes, a dor vem de perceber o outro não como o construímos internamente. Aceitar não diminui o que foi sentido, apenas nos devolve à realidade.
Toda grande desilusão também é um tipo de luto, não apenas pelo que se perdeu; mas, pelo que acreditávamos que existia. Ninguém atravessa um luto, real ou simbólico e sai sendo a mesma pessoa.
Amadurecer talvez seja continuar desejando, sem exigir que a realidade confirme nossas ilusões.
E é através da rachadura que o sol encontra caminho para transformar o que se partiu; mas, apenas se você permitir. Caso contrário, a penumbra se instalará, a estagnação prevalecerá, e o novo jamais renascerá.
Maria Ofelia Fatuch – é médica e atualmente preside a Sobrames do Paraná.


