
Dentro de cada uma das nossas cabeças, com ou sem juízo, existe uma extraordinária república. Talvez a mais sofisticada de todas as que a natureza inventou: o cérebro humano.
Com certeza, nada se compara a ele em toda a natureza. Com suas estruturas muito complexas e desenvolvidas, é capaz de realizar tarefas que nenhuma outra espécie já foi capaz de executar. E o mais curioso é que, apesar de tanta complexidade, seus habitantes trabalham juntos sem precisar convocar eleições ou declarar guerra; normalmente, tudo funciona harmonicamente em todos os diferentes níveis hierárquicos.
O lado direito não vive em guerra com o lado esquerdo. Ao contrário: funcionam como uma espécie de Escandinávia cerebral, diferentes, mas cooperativos, complementares, organizados e interessados no mesmo objetivo: manter a vida funcionando. No centro dessa república está o tálamo, uma espécie de grande estação de distribuição de informações. Logo abaixo, o hipotálamo, responsável por tarefas fundamentais, como ajustes de temperatura, fome, sede, sono, sexualidade e equilíbrio interno.
A hipófise, sob seu comando, o sistema hormonal, bem como ajuda a regular quase todo o organismo. Mais abaixo, estão a ponte, o tronco cerebral e o cerebelo trabalhando silenciosamente. Uns cuidam da respiração, circulação, vigília e outras funções vitais; o cerebelo organiza os movimentos, o equilíbrio e a coordenação. Curiosamente, nenhuma dessas estruturas requer aplausos, mas todos trabalham.
Já o sistema límbico é a região mais sentimental da república cerebral, central das emoções, desejos, recompensas e medos; faz ali suas reuniões.
O hipocampo guarda as memórias, como um grande bibliotecário da nossa existência. Todas as estruturas são fundamentais, mas esse setor da memória nos permitiu desenvolver-nos tão mais aceleradamente que qualquer outra espécie. Talvez a forma mais elegante de tentar falar das memórias seja descrever sucintamente suas importâncias vitais de forma bonita e resumida: a memória episódica, que guarda nossas vivências; a semântica, que se responsabiliza pelo que aprendemos e sabemos; a procedimental, que orienta o que sabemos fazer; e a emocional, responsável pelo que sentimos. Juntas, elas ajudam a transformar experiências em identidade, individualidades, singularidades, histórias pessoais: nosso jeito de ser.
Mais adiante, nos córtices frontal e pré-frontal, mora uma espécie de conselho de avaliação. Ali avaliamos consequências, controlamos impulsos, fazemos escolhas, julgamos situações e tentamos distinguir aquilo que consideramos ético, daquilo que não é moralmente aceito.
Tudo isso acontece enquanto pensamos que somos apenas uma pessoa tomando café, conversando, amando, lembrando ou decidindo alguma coisa. O cérebro é assim: bilhões de células, inúmeras conexões e dezenas de estruturas conversando o tempo inteiro, cerca de 90 bilhões de neurônios, assessorados por bilhões de células gliais que nutrem, protegem e ajudam a remover dejetos, em um silêncio obediente, quase sempre em harmonia. Talvez essa seja uma das maiores ironias da natureza: dentro de uma pequena caixa óssea, exista um conjunto de estruturas que pesa pouco menos de 1,2 kg, mas requer 20% da energia e do oxigênio oferecidos ao corpo humano. Um universo inteiro, extraordinariamente complexo, que só consegue existir porque suas partes aprenderam uma coisa fundamental: cooperar é uma forma inteligente de permanecer vivo.
José Marcondes de Jesus – é médico e membro da Sobrames Sergipe

