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A saúde como medida de uma civilização

A saúde como medida de uma civilização

Há países que se reconhecem por suas bandeiras. Outros, por suas guerras, monumentos ou tradições. A Inglaterra, entretanto, talvez seja um dos raros lugares do mundo onde um sistema de saúde se tornou parte da própria identidade nacional. O National Health Service — o célebre NHS — transcende a condição de estrutura administrativa. Para muitos britânicos, ele representa uma espécie de patrimônio afetivo, quase um pacto silencioso entre o Estado e a dignidade humana.

Em minhas recentes reflexões sobre o sistema de saúde inglês, lembrei-me de algo que ouvi certa vez: “o NHS é a instituição que mais aproxima ricos e pobres no Reino Unido”. A frase ficou ecoando em minha memória. Num mundo em que tantas sociedades parecem fragmentadas por desigualdades crescentes, existe algo profundamente simbólico em um sistema onde um operário e um membro da realeza possam, ao menos em teoria, encontrar acolhimento sob o mesmo teto hospitalar.

O NHS nasceu em 1948, no pós-guerra, quando a Inglaterra ainda recolhia os escombros físicos e emocionais deixados pelos bombardeios alemães. Não havia abundância. Não havia conforto. O país estava cansado, ferido e economicamente fragilizado. Mas foi exatamente naquele cenário de ruínas que surgiu uma das mais ousadas experiências sociais do século XX: garantir assistência médica universal e gratuita para toda a população.

Talvez exista aí uma das mais belas lições da história: os grandes projetos humanos nem sempre nascem em tempos de prosperidade. Muitas vezes, eles florescem justamente quando a dor coletiva desperta solidariedade.

O sistema britânico foi concebido inspirado no chamado modelo Beveridge, financiado predominantemente por impostos e estruturado sobre um princípio simples e revolucionário: ninguém deveria deixar de receber atendimento por não possuir dinheiro. Décadas depois, essa ideia continua carregando uma força moral impressionante.

Mas a realidade, como quase sempre acontece na vida, é menos romântica do que os ideais. O NHS convive, atualmente, com enormes desafios. Filas prolongadas, dificuldade de acesso a especialistas, escassez de profissionais e limitações orçamentárias tornaram-se temas recorrentes no debate público britânico. O envelhecimento populacional, associado ao aumento das doenças crônicas, ampliou dramaticamente a demanda por cuidados médicos. Além disso, os períodos de austeridade fiscal reduziram investimentos importantes no sistema.

Ainda assim, há algo admirável na persistência do modelo inglês. Mesmo diante das críticas, poucos ousam defender o fim do NHS. Ele continua sendo percebido como uma conquista civilizatória. Talvez porque os britânicos compreendam algo essencial: sistemas de saúde não são apenas estruturas técnicas; são expressões éticas daquilo que uma sociedade considera importante proteger.

Ao observar o NHS, inevitavelmente pensamos no SUS brasileiro. Ambos compartilham a utopia da universalidade. Ambos enfrentam dificuldades gigantescas. Ambos, apesar das falhas, salvam milhões de vidas diariamente. Há semelhanças emocionais entre eles: a crença de que saúde não deve ser privilégio.

Entretanto, as diferenças também são evidentes. O Reino Unido possui melhores indicadores sociais, maior cobertura de saneamento básico e um financiamento historicamente mais robusto. No Brasil, o SUS precisa enfrentar dimensões continentais, desigualdades regionais profundas e limitações estruturais persistentes. Ainda assim, impressiona perceber que, mesmo em cenários tão distintos, os dois sistemas nasceram movidos por um mesmo ideal humanista.

Há algo particularmente interessante na cultura médica britânica: a valorização da atenção primária. No NHS, o médico generalista — o famoso GP, “General Practitioner” — funciona como porta de entrada do sistema. A lógica é simples: prevenir antes de remediar. Resolver o essencial próximo da comunidade. Evitar hospitalizações desnecessárias.

Em tempos modernos, dominados pela fascinação tecnológica, talvez essa seja uma lembrança importante. Nenhuma inteligência artificial, nenhum robô cirúrgico e nenhum exame sofisticado substituirão completamente o valor de um médico que conhece a história, os medos e os hábitos de seus pacientes.

A medicina do futuro continuará precisando de ciência. Mas continuará necessitando, também, de vínculo humano. Ao final, o NHS talvez seja menos sobre hospitais e mais sobre pertencimento coletivo. Ele simboliza a ideia de que uma sociedade madura compreende que adoecer não pode significar abandono. Afinal, ninguém escolhe sofrer um infarto, desenvolver câncer ou envelhecer.

O verdadeiro teste moral de uma civilização talvez não esteja em seus palácios, nem em sua riqueza econômica, mas na forma como cuida dos mais frágeis. E, nesse aspecto, apesar de todas as imperfeições, o velho sistema inglês ainda continua ensinando ao mundo uma lição silenciosa de humanidade.

Como escreveu o filósofo e historiador Will Durant: “Uma grande civilização não é conquistada apenas pela riqueza, mas pela capacidade de cuidar de seus cidadãos.”

Prof. Dr. Antônio Sobral Sousa – professor Titular da UFS, Membro das Academias Sergipanas de Medicina, de Letras e de Educação

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